Uma coisa que eu gosto é fazer falta e que não gosto é saudade doída

 

Uma coisa que eu gosto é fazer falta.

Passei uns tempos enfurnado em casa e sem mandar mensagens pela interNerd. Encontrei uma antiga amiga e ela disse que sentiu minha falta.

- Onde? - Eu não a via há séculos.

- Na internet. Você não mandou mais nada.

- Você lê meus textos? - Estava incrédulo.

- Não, eu deleto. - Ela respirou e encerrou o papo. - Senti falta de deletar seus emails.

Alguns dias depois recebi um telefonema de aniversário dum velho amigo. Ele contou que outros amigos estavam reunidos num acampamento e lembraram minhas antigas histórias.

- Você fez falta. - Disse, sentido.

- Obrigado. - Eu estava emocionado.

- Não, otário! Tô falando daquele jogo contra o Bosco. - Ele lembrou de um fato de doze anos atrás. - Ele te cutucou e você fez falta.

- Falta porra nenhuma! - Defendi-me. - Tenho um osso torto no dedão até hoje por causa desse cutucão do Bosco.

O melhor de fazer falta é poder voltar ao grupo, é fazer parte mais uma vez da turma, ao invés de tristemente fazer falta. Quando é impossível voltar, sobra aquela saudade doída.

 

Uma coisa que não gosto é saudade doída.

Um dia acordei chorando. Eu estava lembrando da gargalhada do meu avô.

- Cara de pau, - Ele sempre aproximava o rosto para falar. - vai ali e pega a quinze para mim. - Meu avô vivia apertando os parafusos do carro. Apertava tanto que acabava precisando de um mecânico para desapertar. O carro vivia travando.

- Vô, - Eu falava tanto que algumas vezes apenas o chamava para ver se estava me ouvindo. - toma aqui. O que você acha do Romário? - No dia anterior ele havia dito que o Romário era o rei da grande área.

- O Romário? Há, O Romário... esse cara de pau... o Romário é um pilantra. - Aquilo podia significar qualquer coisa. - Hei, seu pilantra, essa é a chave catorze, não a quinze! - Ele me olhava com piedade e caia na gargalhada. - Não sabe nem a diferença de uma chave de boca! É um cabeça de bagre mesmo! - E ria mais e mais.

Chorei porque queria ouvir aquela gargalhada novamente. Saudade doída.

Outro dia acordei meio incomodado. O cobertor estava preso nas minhas pernas. Não tentei me desvencilhar, apenas empurrei vagarosamente o cobertor com os pés. Queria sentir se havia algum peso sobre o cobertor. Não havia nada.

Meu cachorro costumava dormir na minha cama. Viveu dezenove anos. Nos últimos cinco anos tive que subi-lo para a cama pois estava muito velho para malabarismos.

- Xandó, afasta! - Eu dizia sempre que ele me prendia no cobertor.

Resmungando, como só um cachorro sabe fazer, Xandó levantava e dava um passo para o lado. Depois dava sete voltas em si mesmo antes de deitar. Ficava me olhando no escuro até pegar no sono.

No meio da noite sempre se enroscava nas minhas pernas.

- Porra, Xandó, afasta! - Rosnando de preguiça, descia da cama e sumia no escuro. Eu o escutava bebendo água e saindo de casa pelo buraco do vidro. Voltava para a cama com as patas sujas de lama depois de uma mijadinha no mato.

- Xandó, a minha mãe vai te matar! - Como ela nunca matava, apenas gritava, ele estalava a língua duas ou três vezes e suspirava. Fechava os olhos e dormia um sono tranqüilo.

Até hoje tenho a sensação de acordar com meu velho amigo enroscado nas minhas pernas. Outra saudade doída.

Vivo bem com as saudades doídas; as lembranças me alegram muito, me mostram como alguns amados fazem falta.

 

fin

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