| Uma coisa que não gostei
foi a morte do Papa e outra gente sem paciência
Uma coisa que não gostei foi a morte do Papa.
Tive pena do Papa ao morrer. Um velhinho tão doido! Passou a vida inteira numa igreja e nunca pôde viver com uma mulher. Deve ter sido difícil morrer sem nunca ter transado. O engraçado é que ele mesmo escolheu ser casto, por fé numa crença. Ao menos ele nunca ficará arrependido depois da morte. É difícil acreditar nesse deus masculino do Papa, com suas regras confusas e anti-naturais. Só penso num bando de padres de saias, todos viados, se alisando enquanto escreviam com porra as absurdas palavras de seus rituais ananistas e pudorento. Onde está o elemento feminino que equilibra as forças e acalma os temperamentos? Cadê a capacidade geradora e a sensibilidade natural das donas dos nossos desejos? Não pode, porque é pecado! - Quem disse? - Pergunto. - Deus diz! - Respondem os crentes. - Manda ele falar comigo! - Giro nos calcanhares e dou o fora. Ao menos, no caso do Papa, restou sua obra. Foi um homem que pediu paz e ofereceu paz. Conseguiu, até, fazer outros doidos iguais a ele - os líderes de outras religiões - pensarem de forma mais abrangente e aceitarem melhor as diferenças. O Papa era do bem. - O Papa tava tão velhinho. - Disse minha Relícia. - Tão doentinho. Quase soltei uma lágrima, mas a segurei. O Para está na paz que sempre almejou.
Outra coisa que não gosto é gente sem paciência.
Fui ao supermercado depois da natação. Eu tava relaxado, usando chinelo Havaiana. Comprei quase todas as coisas da lista que a patroa escreveu. - Putz, - Disse ao ler a lista. - ela colocou as quantidades e também a faixa de preço. - Cocei o cocoruto. - Será que ela é extremamente eficiente ou não confia em mim? Fui à fila do caixa, quatro carrinhos lotados na minha frente. Uma mina estacionou seu carrinho na fila ao lado e veio para a minha fila, atrás de mim. - Espertinha. - Comentei. Ela se assustou. - Gostei da tática. - Só assim para a gente sair desse mercado. - A mina, gordinha, se explicou.. - Só. - Concordei. Sempre concordo com tudo. De repente senti um empurrão na bunda. Olhei e era uma senhora dos anos 50, vestida com o mesmo azul do Roberto Carlos. - Essa menina fica na frente, não consigo parar meu carrinho. - Alurdiu a mulher, sem se desculpar. Olhei para a gordinha. - Mas eu estou na fila! - Disse a gordinha para a tia. - Cadê seu carrinho? - Perguntou a senhora. Achei atrevimento da parte dela, se fosse comigo diria que tá aqui, ó! Mas mesmo assim a gordinha respondeu: - O meu carrinho está ali na outra fila. - Apontou. - E eu estou aqui. - Segurou o olhar na senhora. - Mas então você... - Grunhiu a senhora. - Isso é ... - Olhou para os lados procurando apoio. Encontrou minha atenção e falou comigo. - Você acha que devo esperar? Nem pisquei. Levantei a mão e abanei um tchau. A velha emburrou e saiu quicando nas rodinhas. Dobrei as pernas em me apoiei no carrinho de compras. - Nunca gostei de gente sem paciência.
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fin |
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