| Sou brasileiro e não me
orgulho nunca Parte XIII Hospitais
Estourei o pé numa pelada. Fui ao hospital mas não tinha médico, nem remédio, nem nada. Estava aberto apenas por causa da porta quebrada. - Vou ter que apelar. Pensei com o botão das minhas calças. Liguei prum amigo dum amigo que trabalha num tribunal, desses de 6 horas diárias e recesso de 60 dias por ano, além das férias. - Não se preocupe. Disse o sujeito. Vá fazer uma consulta no hospital do exército. Lá quase não me deixaram entrar. - Mas, seu guarda, tô de bermuda pois o pé inchado não passa pela calça. - Não importa! Disse o moço da PE, uns dezoito anos e a cara com espinhas arrebentada pelas barbeadas obrigatórias. Lei é lei. - Mas ... Redargúi num rompante. e as leis de deus? Ele fez uma expressão paquidérmica. - Tá. Pode passar. Minha mulher esperou entramos para perguntar com os olhos: que leis de deus, seu ateu maluco? - Oras, um argumento idiota merece uma asserção ignorante. Cheguei-me à moça do balcão de atendimento. - Estou com o pé machucado. Sorri com todo o meu charme. Preciso de um pé-diatra. Ela me olhou entediada. Chamou o oficial do dia. - Aqui não é lugar para brincadeiras. Ameaçou-me o fardado. E não pode entrar de bermuda. Suspirei. E apontei uma dondoca que rebolava numa minissaia safada. - Mas ela pode passear quase nua? Tentei segurar a língua, mas não deu. Né, seu taradão?! O homem chamou o superior que telefonou ao oficial que bipou ao comandante. Em três minutos ele tava lá. Será que o exército brasileiro não tem o que fazer? - O que tá acontecendo aqui? Após os relatórios dos inferiores, pedi ao chefe para ser atendido pelo médico que cuidava de pés torcidos. - É que não sou doutor e não sei a nomenclatura. Fiz cara de coitado e olhei para moça do balcão. Ela continuou com a arrogância que todo incompetente usa para se proteger. O comandante conferiu-me na ficha. - Não vai entrar. Decidiu. Fiquei surpreso com a rigidez autoritária. Logo ele completou. - O hospital está sem ortopedista. Olhou para cima. - Nem cardiologista, dermatologista, oncologista..Só funciona a urologia pois tem muita...necessidade. Pensei nos recrutas que, às dezenas, fazem ponto na praça da alimentação do Conjunto Nacional. Uns putos de todos os estados que enchem o rabo de dinheiro trepando com os políticos e empresários enrustidos que vêem à Brasília buscar dinheiro sujo e sexo fácil, não nessa ordem. Percebi que qualquer chiste me arriscaria a uns dias de cana. Prisão e pé torcido não estavam nos meus planos. Liguei mais uma vez ao cara do tribunal. Relatei a falta de condições do hospital do exército. - Vou te encaixar aqui pelo tribunal. Deu-me o endereço de um hospital. Depois você me dá uma cervejinha de gorjeta. Também passou o número da conta bancária. Ao menos deixou ao meu critério o valor da propina. Fui atendido por um ótimo médico, radiografado, analisado, medicado e instruído:gelo e repouso. Saí satisfeito pelo bom atendimento. Parece que a mão branca do médico já ajuda a curar. Se não fossem tão corporativistas com seus colegas que cometem erros, protegendo crápulas e escroques, acharia-os uma categoria respeitável. Por enquanto ainda são uns pernósticos. Voltei para casa com a certeza de que o modelo de Estado em que vivemos não funciona, é insuficiente às classes menos privilegiadas. Os ricos sempre compraram seus confortos, porém a definitiva separação social entre Patrões e Miseráveis dá-se agora nesta estrutura do país. A incapacidade de suprir os menos favorecidos é demonstrada na saúde e previdência aprimoradas aos servidores de carreiras privilegiadas. Ou seja, fica claro que o sistema está pouco se importando com os pobres ao dar aos juízes e empregados dos tribunais, preciosos à sociedade, uma qualidade de vida superior, majestosa em comparação ao resto da plebe. É claro que todos as agremiações desejam o melhor para si, porém tais benefícios devem ser financiados pelos próprios associados, como em qualquer entidade de classe. Quando o Estado paga as vantagens dos tribunais e, quiçá, do legislativo, em outras palavras avisa ao povo que está protegendo as pessoas mais importantes do Brasil e continuará abandonando a população à própria sorte, que quer dizer ao SUS. - Gritam aos ventos que os hospitais do povo são uma porcaria. Resmunguei. - Quem? Perguntou a patroa. - As vantagens dos servidores do judiciário e do legislativo. Mastiguei as palavras. Enquanto nossos dirigentes, este aglomerado de desonestos, não sentirem na pele o infortúnio que é ser brasileiro e ter que conviver com a opulência em meio à nossa miséria, nada será corrigido. Só quando correr o sangue azul das oligarquias dominantes o Brasil se livrará das verdadeiras amarras da sociedade. Meu dedo em riste cortava o ar. - Bebeu? Ela me olhou. Tá anarquizando de novo? Deve ser o remédio, pensei. |
fin |
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