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O boné do meu pai - vamos nos recifes. – Apontou meu pai. Escalamos a pedregosa encosta tentando nos manter longe das ondas. Carregávamos a tranqueira que bons mineiros levam ao litoral: varas, iscas, anzóis, na cabeça, meu pai usava o boné que eu o presenteara. - cuidado com as pedras. – Eu seguia obedientemente seus passos, mesmo que minhas pernas juvenis já fossem mais ágeis e fortes. – não vá cair, hein! – Sabia que se me mantivesse fora de perigo, ele cuidaria apenas de si, era um homem forte. Acomodamo-nos para lançar as linhas. Arrumei as bugigangas na rocha mais alta e fiquei nela; as ondas aumentavam no ritmo do entardecer. A maresia me acalmava, o contato com a maior entidade viva do planeta, uma força incalculável, abastecia minhas pilhas de energia natural. Só me sentia feliz quando estava livre, pé descalço, sol nos ombros e muito oxigênio nos pulmões. Meu pai me criou assim. - vou jogar o molinete. – Ele pulou até outra rocha, mais baixa, equilibrou-se como um caranguejo e preparou o arremesso. De repente, uma onda enorme, surpreendente, explodiu sobre ele. Me preocupei em não ser levado, também me alcançou. Quando as rochas surgiram novamente da água, meu pai havia sumido. Me lembrei de quando ele me ensinou a nadar. Eu tinha 3 anos. Atravessávamos um rio, eu às suas costas. Subitamente, ele afundou e sumiu no breu da água lamacenta. Eu queria ajudá-lo, porém nem sabia nadar. Vi que primeiramente deveria me salvar. Era a lógica. Lutei bravamente para chegar à margem, estafado, a barriga cheia d´água, vitorioso. Poderia me preocupar em salvá-lo. Busquei nas rochas, na água, não via meu pai. Ele estava sumido há dois minutos, a onda o surpreendera, talvez estivesse desmaiado, ou preso num coral. - dá a mão. – Pediu. Ele surgia por trás da minha rocha. Fiquei aliviado, embora confiasse em sua destreza. Ele havia me ensinado a nadar em condições perigosas, é claro que seria capaz de feitos mais difíceis. – que onda, hein? – Ria, encharcado e ralado, brandindo a vara como o estandarte de um honrado reino. - teu boné sumiu. – falei enquanto alçava seu corpanzil. Surpreendi-me com o pouco esforço, eu seria forte como ele. Era meu sonho, desde quando cavalgava em seus largos ombros. Ele levou a mão à cabeça. Ficou desapontado, encostou a vara como se explicasse que deveria ter salvado o boné. Também fiquei chateado. Era a primeira vez que o via com um problema superior às suas capacidades. Até então, acreditava que ele poderia enfrentar qualquer mar bravio. Heróis são invencíveis. Mas eu já crescera à altura dos seus ombros, tinha pernas e braços fortes, sabia me proteger. De um jeito sofrido, reconhecia que ele já não tinha mais a vasta cabeleira que o caracterizava. O boné servia para ajudar a “manter os cabelos na cabeça”, como ele brincara. No outro dia, bem cedo, fomos à praia. A parentada toda reunida, férias de verão. Eu estava com ressaca de infância, me descobrindo mais maduro, sem saber como reagir. Nunca me preocupara com qualquer coisa ao meu redor, meu umbigo era meu guia, como toda criança, só que notava minha própria compreensão maior do mundo que me cercava. Eu tinha medo. Queria continuar construindo castelos de areia, era mais divertido. As crianças pularam as marolas aos berros e entraram em bando no mar. Minhas tias correram atrás, escandalosas. Eu entrei vagarosamente, logo atrás do meu pai. Ainda seguia seus passos como na noite anterior. Queria preservar o moleque irresponsável, que temia apenas desobedecer ao pai. Tentava inventar um Peter Par com família, que se divertia e voltava à noite para o lar seguro, cuidado pelo admirável pai. - opa.– Meu pai se abaixou e resgatou da água, desbotado, descosturado e emporcalhado de algas o seu boné. Mostrou-o para mim com o sorriso mais satisfeito que já vi. - ah, você tá brincando.– Foi minha surpresa. Era impossível. O boné havia se perdido a mais de cinco quilômetros, na noite anterior. Ademais, umas trinta pessoas entraram na água na nossa frente, como ninguém o viu? - ele cutucou a minha perna. – A sinceridade em sua voz me convenceu. Quando aprendi a nadar, cheguei à margem para ajudar meu pai. Qual não foi minha surpresa ao vê-lo sorrindo e me esperando sentando numa pedra. Ele estava de vigília, orgulhoso por minha conquista. Eu nadara, sozinho, metade de um córrego de seis metros. Naquele dia vi que se fizesse o correto, como o meu herói, as recompensas poderiam ser imensas. Quando o boné voltou ao meu pai, entendi que aquilo era um recado do mar. A maior força da natureza, o porta-voz do meio ambiente queria que eu mantivesse a esperança, que continuasse a seguir os bons passos de meu pai mesmo quando pudesse superá-los; que eu permanecesse livre como uma criança ainda que a maturidade me assustasse, as responsabilidades pesassem em meus ombros. O retorno do boné era a recompensa da natureza ao meu pai por toda uma vida sábia, próxima à ela. Eu ouvia o mar. Meu pai parecia tranquilamente reconhecer um velho amigo, como o boné, que se aconchegava sobre seus ainda vastos cabelos. |
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fin |
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