Gosto de Glauco Mattoso, de tara e detesto joanete

 

Gosto de Glauco Mattoso

O cara perdeu a visão. O que fez? Tirou sarro no próprio pseudônimo: glaucomatoso. É podólotra. Um pervertido?! Oras, eu também gosto de pé e nem por isso sou torpe. Sou, porém, contido, prefiro os femininos, cheirosos, bonitos, pequenos e suaves. O Glauco prefere os masculinos, cascudos, fedidos, chatos, com frieiras e unhas encravadas. O que faz com eles? Lambidelas e sonetos.

Um poeta do caos e da libertinagem, não se rende à mediocridade humana, é exagerado e autêntico. Tudo aquilo que os comuns menosprezam exatamente por desconhecer.

Era personagem de uma HQ dos anos noventa chamado Glaucomix, um quatro-olhos doidão totalmente underground, ligado ao Punk e à anarquia literária. Nas histórias, fazia de tudo para regalar-se com tremendas chupadas nos pezinhos apodrecidos de seus musos pedreiros ou futebolistas. Um asco, e por isso mesmo interessantíssimo, uma loucura.

 

Gosto de tara.

Como bom tarado, sem essas bizarrices calejadas ou de aromas peculiares, aprecio conhecer os desejos íntimos alheios. Descubro-os em conversas ébrias.

- Uma vez – contou-me um amigo – eu e a patroa estávamos tomando banho quando urinei em seu pé. Ela não reclamou, fez-se até excitada. Mijei mais um pouco na sua perna, ela se arrepiou. – Bebeu mais um gole. – Fomos para a cama. Ela abraçou os seios e fez uma piscininha no próprio colo. Eu a enchi de xixi. – Olhou-me. – Uma loucura!

Eco, pensei, mas concordei com a cabeça. O que eu iria dizer?

- Um dia – contou-me outro – estávamos assistindo tv quando ela colocou o pé gelado no meu saco, para se esquentar. – Sorri. Muitas fazem isso. – Arrepiei de tesão. Pensei que era por causa do pé, mas não, descobri que era o frio que me excitava. Logo começamos a usar apetrechos gelados na transa. – Diminuiu o tom de voz, mas escutei perfeitamente. – Foi nessa época que descobri o “di-dunda”.

- “Di-dunda”? Que diabo é isso?

- É quando se enfia um dim-dim* na bunda.

- Ah, não brinca! – Tentei não me surpreender, mas ele notou meu espanto.

- É bom. – Confessou. – Chupar o dim-dim depois do sexo, então, uma loucura!

 

Detesto joanete

Acho que gosto de pé pois eu mesmo tenho um pezão feio feito o diabo. Costumamos contemplar aquilo que não possuímos, embora eu goste de escrever e o faça muito bem (afinal você chegou até aqui).

O joanete é a coisa mais detestável no pé. Há também a fedentina, a frieira e a aparência disforme (sim, sim, sim). Dizem que joanete serve para avisar da chuva. O meu serve apenas para lembrar do Bosco, o zagueiro estúpido que me derrubou com um pontapé no dedo e deslocou o osso.

Olhei meu pé, no boteco após a pelada, branco da umidade da meia suada, as unhas rachadas, a Havaiana mal protegendo os dedos tortos, o joanete inchado. Lembrei do Glauco.

- Tão vendo essa belezinha? Inspira poesias. – E completei. – Uma loucura.

 

* Dim-dim é o mesmo que sacolé, chupa-chupa, geladinho, suco congelado num saco plástico fálico e retangular.

 

fin

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