Eu detesto ambição
- Ela não tem ambição! Fiquei pensando se isso era um problema, afinal ele parecia irritado. - Fica naquela merda, não vai para frente. Imaginei todas as pessoas do mundo tentando ir para frente, pulando obstáculos, buscando alcançar o prêmio final. Seria o caos, uma luta infindável, como girinos num lago. - Nem todo girino quer ser sapo. Interrompi. - O que? Que metáfora idiota é essa? Se é uma metáfora, já não é idiota, pensei, mas deixei para imaginar uma maneira de explicar que algumas vezes temos que relaxar e aproveitar ao invés de lutar e crescer. Há o tempo em que o guerreiro deve se preparar para a próxima batalha, ou que o preguiçoso senta e se acomoda, não importa, é preciso ver que nem sempre se deve caminhar. Quando se chega ao topo, por exemplo, qualquer caminhada levará necessariamente para baixo. Os neuróticos dizem que é preciso cair para saber levantar, eu digo que não queria nunca ter caído, ainda não me levantei totalmente da primeira queda. - Ambição em excesso é a base do capitalismo, que gera exploração, que gera domínio social, pobreza, criminalidade, medo, tristeza, sofrimento. Abaixei a voz para melhorar o efeito da frase, mas meu ambicioso amigo nem deu atenção. - Ela poderia ser o que quisesse... - E se ela escolheu ser modesta? Sorri, feliz por minha perspicácia. - É esse o problema: ela não tem ambição! Reagiu furioso. Nem ouvia o que eu replicava, apenas queria desabafar o defeito da mulher, sem considerar a possibilidade dela simplesmente estar relaxando e aproveitando. Esperta, afinal deixa a preocupação com o ambiciosão e simplesmente curte a marola.
Eu detesto ambição II
O carro de som tocava o irritante jingle. Decorei a musiquinha até escutar a próxima, que apareceu na esquina seguinte. Tentei decorá-la também mas comecei a confundir os números. - Opa, decidi votar naquele candidato. Gritei, no meio da rua, e apontei o carro com as faixas do candidato. Alguns transeuntes riram, até responderam, concordando às risadas. Logo depois uma garota me ofereceu um santinho. - Posso levar mais alguns? Pedi. Deixa ver: meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha mulher...me dá vinte! A moça estava feliz ao contar o numerário. Será que ela soube que só pedi tantos panfletos apenas para ajudá-la a se livrar daquela chateação? Duvido, mas cumpri minha boa ação do dia. Imaginei os motivos que levam alguém a se candidatar a qualquer cargo público, além da ambição. Nada encontrei, afinal é apenas ela a fonte de todo desejo: ser conhecido com um grande político, ajudar ao seu povo, organizar o governo para engrandecer o Brasil, fazer o pé de meia com corrupção, empregar todos os parentes e amigos e, finalmente, ter benefício de infringir as leis e nunca ser julgado ou, no máximo, em foro privilegiado, que é o mesmo que ser inocentado por alguma babaquice técnica. Mas esqueci o pessimismo e tentei ver o lado bom dessa ambição. Tentei novamente. Como não consegui, apenas me resignei em escolher um entre tantos para votar, apenas um, somente no cargo de deputado distrital, pois para todos os outros vou anular, afinal, sinto menos em não participar dessa bobagem toda que escolher alguém e me arrepender depois. Não corroborarei ambições alheias.
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fin |
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