Detesto contradição, detesto estrelismo e adoro autógrafo

 

- A justiça é uma merda!

Jura? Nem me dei ao trabalho de concordar.

- Matam e roubam sem nenhuma punição!

Será que só descobriu agora?

- É por isso que vou votar no Lula.

Epa! Que mixórdia é essa?

- Mas o Lula tá metido em corrupção! – Redargúi.

- A justiça não provou nada! – Foi a resposta. Novamente não me dei ao trabalho, mas agora de tentar dialogar com a estúpida criatura.

Reclamam que a justiça não consegue punir os criminosos, por conluio ou incompetência mesmo, porém aprovam políticos denunciados, atolados na titica, já que a justiça não os puniu. Oras, há uma grande contradição nesta premissa. Ou se confia no judiciário ou não. Infame é aceitar apenas o que for de interesse.

Contudo, nem sei o motivo do meu espanto ou da minha descrença, afinal somos brasileiros e, nesta condição, corruptos, patriarcais e malandros.

 

Detesto estrelismo

 

Sou um fã atuante, costumo me aproximar dos ídolos para felicitá-los por suas obras. Mas não encho o saco, é claro, normalmente fico na frase única:

- Hei, sou seu fã. – E completo. – Adoro seu trabalho.

Fui apresentado ao vocalista da Plebe Rude. O cara foi educado. Conversamos amenidades. Nas muitas outras vezes que nos falamos sempre tive que me reapresentar pois ele nunca se lembrava.

Para não amolar mais o figura, já que ele fazia esforço para me atender, desisti de puxar papo. Uma grande amiga em comum nos chamou para sua festa num barco. Não teve jeito de deixar o estrelinha em paz. Quando nos cruzamos no convés, abaixei os olhos para não importuná-lo mais uma vez com meus confetes.

Ele não gostou de ser ignorado. Riu-se da minha negativa. Quis “sair por cima”, como acha que faz em seus ataques de celebridade. Resmungou qualquer coisa sobre sua fama.

Reclamei sobre ele para minha amiga.

- Você tem que entender que ele foi um astro. – Defendeu.

- Astro? No máximo um Plutão que some do céu.

- Mas foi famoso.

- Isso o torna superior? E nem foi tão conhecido assim, “one hit wonder” de Brasília.

- Imagine perder a fama. – Retrucou. – Todos ficariam meio bestas.

- Que contradição é essa? – Exaltei-me. – Deveria era ser mais humilde, pois conheceu o sucesso e o ostracismo. Será que não aprendeu com a volubilidade da fama?

Conheci astros verdadeiros, como Júnior Baiano (ah, nem me venham com xurumelas, o zagueiro foi muito mais famoso que o músico) que depois de ser felicitado por mim ainda agradeceu o elogio. Poderia ter me ignorado, mas soube mostrar a devida humildade de quem vive da admiração do fã.

 

Adoro autógrafos

 

Participei duma coletânea de contos. Alguns amigos pediram meu autógrafo. Contabilizei nove dedicatórias. Nove. Em cada uma fiquei tão encabulado quanto o dia em que acordei pelado depois de uma bebedeira na Praça dos Três Poderes. A diferença é que autografar um conto não é constrangedor. Mesmo o meu conto, que era violento, chulo e amoral.

- Ficou feliz, amorzinho? – Perguntou-me minha mulher.

- Fiquei estrela! – Respondi.

 

fin

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