As pessoas andam em Brasília

 

Desci do Venâncio 2000 e busquei o sol. Ele aqueceu minha pele. Em junho Brasília vira novaiorque. O bafo sai gelado da boca. Avistei desde a W3 ao parque, procurei um local vazio para ficar só. Havia gente para todo lado. Fui até a avenida e atravessei no semáforo. Esbarrei em várias pessoas que vinham da outra pista e também em algumas que caminhavam comigo.

- Quanta gente. – Reparei. – Eu não sei andar no meio das gentes.

Sim, sou candango. Sempre vivi na vastidão do cerrado. Esta é a cidade que não tem pessoas nas ruas. Tô acostumado com a solidão.

Do outro lado da pista me atrai por umas bancas de camelôs. Olhei uns devedês piratas de filmes que ainda nem chegaram aos cinemas. Tudo barato.

- Tem isqueiro? – Perguntei. Sempre gosto de ter nos bolsos os equipamentos de sobrevivência de um escoteiro: canivete, fogo e uma garrafinha de cachaça.

- Só na galeria. – Resmugou o dono da barraca de balinhas. – Xarope...

Ri do mau humor do sujeito e desci para a galeria do setor comercial. Havia frutas frescas e badulaques com luzinhas. Comprei um isqueiro por um real. Preço justo por uma porcaria que logo vazará o gás.

Tive vontade, precisava ficar só. Pensei em entrar em algum banheiro dos bares ao redor mas é muito arriscado. Desci para o setor de hotéis, pensando que ali acharia um lugar mais vazio. Engano. Pessoas caminhando para todo lado. Vi que eram desde engravatados advogadinhos até uniformizadas atendentes de lojas. Velhos, grávidas, adolescentes, dondocas, todos andando decididos para algum lugar incerto. Alguns paravam no ponto de ônibus, outros sumiam de vista.

- Eita. Pra onde vai todo esse povo?

Acompanhei a calçada da W3 e alcancei o eixo monumental por baixo do viaduto. Outros malucos também estavam ali andando da Asa Sul até a Asa Norte. Pensei em parar atrás de alguma pilastra mas, sei lá, fiquei cabreiro. Acompanhei a calçada artística e cheia de voltas, a Torre de TV rasgava o céu sem nuvens. Do outro lado o Conjunto Nacional, a rodô e o congresso cheio de podres políticos.

- Talvez se eu for para alguma árvore no meio do gramado...- Calculei a volta extra e desisti. No caminho deveria haver algum lugar sem pessoas. Puxei o canivete do chaveiro e cortei um talo de capim, pus na beira da boca para ruminar o gostinho doce.

Andei por calçadas militares e também niemyeirianas, que seguem as trilhas das pessoas. Vi as árvores de raízes como cabeleiras que arrebentam o cimento e dão às calçadas a aparência de um quadro de Picasso. Os gramados dos prédios, verdinhos até o limite de seus canteiros, mas secos do lado de fora. O egoísmo estúpido de usar a água do condomínio apenas naquilo que lhe pertence. O luxo dentro do lixo. A repetição do contraditório capitalismo.

Andei na beira do asfalto da W2. Faxineiros dos prédios descansavam como calangos ao sol. Cumprimentei algumas babás com os filhos das patroas. Uns veteranos faziam caminhada em volta da quadra. Vi carros tunados e carroceiros das “invasões” atrás do uniceub (as favelas da cidade são elitizadas, assim como os serviços públicos, hospitais e polícia. Capital da república tem seus privilégios. E, mesmo assim, nada funciona direito).

Passei por bancos nacionais e internacionais, carrefour’s de bairro, bob’s (que é brasileiro) e mequidonald’s (que tem gosto de isopor), habib’s e blockbuster’s. O bafo novaiorquino ainda gelava o ar. Tirei do bolso a garrafinha e dei um gole. A cachaça escorreu pela goela como energia viva, o calor logo chegou à ponta dos dedos.

- What a good thing .- proferi, afinal, me senti influenciado por tanto estrangeirismo.

Quase me esqueci da vontade. Não havia espaços vazios. Pessoas caminhando. De forma diferente do que nas cidades tradicionais, com quarteirões e calçadas paralelas, o pedestre escolhe seu caminho no amplo espaço de Brasília, que é espalhada, aberta, construída sobre pilotis, que aumentam a amplitude nos térreos dos prédios. É muito espaço vazio. E, ao mesmo tempo, ocupado por pessoas que andam, vindo de local incerto e indo para destino desconhecido.

Antigamente era diferente. Menos gente, menos prédios, mais espaços vazios, mais solidão. Eu caminhava pelo centro por horas sem trombar em viv’alma. Dava para me bronzear sobre a cúpula do congresso ao domingos que ninguém enchia o saco. Hoje é zona (?) de segurança e não se pode nem protestar.

Cheguei à minha quadra. Cumprimentei os porteiros e subi ao apartamento para me aliviar. A cidade mudou. Não há mais lugares vazios em Brasília.

Acendi um baseado com o isqueiro novo.

- Não se pode mais fumar unzinho andando pelo centro como antes.

 

fin

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