Toki e o vagabundo

 

Juvenal andava sem rumo há anos, não de maneira literária, mas de forma física mesmo. Era um vagabundo perambulando pelas ruas deste mundo vazio e sem sentido. Havia perdido tudo num crime brutal: mataram sua mulher e as três filhas. Até o poodle teve sua cabeça arrancada. Pirado, saiu pela porta e sumiu.

O começo de suas andanças foi tão dolorido pelas memórias que nem reparou nas modificações que aconteceram. Seu cabelo cresceu e transformou-se num ninho de mafagafos. Sua barba se confundiu com o cabelo e com os sobrolhos. Emagreceu pela fome e escureceu pelo sol. Suas roupas se transformaram em farrapos, mas arrumou um cobertor velho que sempre usava em volta dos ombros ou enrolado na cintura. Unhas, dentes, pele, pés e mãos imundos e fétidos. Os pés, aliás, criaram uma grossa casca após ter os sapatos roubados.

A mendicância não o humilhava, nunca pedia dinheiro mas tão somente comida. Vivia dignamente se alimentando da caridade alheia. Dormia em qualquer alpendre. Gastava as horas olhando o tempo e, algumas vezes, chorava uma lágrima sentida.

Sempre que se percebia acolhido em algum espaço, botava os pés na estrada para qualquer lugar. Não se admitia nenhum prazer. Sofria todas as dores com dedicação.

- Se eu fosse homem, me matava. – Pensava em voz alta toda vez que via uma família.

Na estrada de asfalto entre duas cidades, caminhando cambaleante em sua direção, Juvenal distinguiu uma pequena figura tentando não tropeçar em direção aos carros que passavam velozmente. A figura era tão maltrapilha quanto ele próprio; cabelos enrolados e duros como Bombril, o corpo esquálido usando roupas marrom de sujeira, o rosto desesperado. Era uma mulher, pequena, magra, frágil.

- Me dá de comer? – Ela pediu, com voz fraca.

O homem desembrulhou um sanduíche de carne moída. Ofereceu à mulher que o devorou esfaimada.

- Para onde você vai? – Perguntou a Juvenal, limpando a boca com as costas da mão.

- Para lá. – Apontou para o lado de onde a mulher viera.

- Posso ir com você?

- Pode.

Percorreram de volta o caminho para a outra cidade. Os mendigos trataram de conseguir a própria subsistência. A mulher tinha o costume de procurar em lixos os restos de comida que os ricos não queriam. Juvenal não mais permitiu que ela continuasse procurando restos. Disse que ela deveria ter dignidade.

- O que é isso? Dignidade? – Ela perguntou, achando engraçada a palavra.

Ele não respondeu. Achou que não conseguiria explicar.

Numa noite, enrolados os dois no cobertor de Juvenal, a mulher disse que queria cagar. Falou que iria até a praça para encontrar alguma moita escondida.

O homem recostou-se de lado e logo voltou ao sono. Acordou com os gritos de uma pessoa em chamas correndo pela calçada. Juvenal levantou-se assustado. Outros mendigos apareceram para ver a trágica cena: a pessoa correu mais um pouco e jogou-se no chão, rolando sobre o próprio corpo, tentando apagar o fogo. Não conseguiu. Em minutos era um esqueleto carbonizado que ainda se mexia em pequenos espasmos.

- Queimaram mais um. – Gritou o maltrapilho ao seu lado. – Queimaram outro morador de rua. Cuidado.

Juvenal se espantou com a notícia. Outro? Então já haviam acontecido outras mortes. Cuidado? Será que haveriam mais?

- Cuidado com o quê? – Quis saber.

- Cuidado. – Repetiu o maltrapilho, olhos esbugalhados. – Sempre queimam dois ou três moradores de rua. Cuidado.

Lembrando-se da mulher, Juvenal temeu por sua segurança. Lá da praça ela não veria a confusão com o homem-chama e, se aqueles que o queimaram estivessem passando por lá, poderiam resolver queimar sua companheira.

Correu para a praça. Logo viu um grupo de rapazes rindo e conversando alto, levando consigo um galão com um líquido avermelhado. Estavam bem vestidos, eram bonitos e provavelmente bem educados. Juvenal sentiu algo ruim naquele grupo, não se aproximou. Contornou a coreto e esgueirou-se entre as moitas em busca de sua frágil companheira.

Os rapazes aumentaram a balbúrdia. Pareciam ter encontrado outra vítima. Cercaram alguém que tentava se proteger ns arbustos. Muitos gritos, correria, e de repente a praça se iluminou com as chamas que lambiam o corpo da nova vítima. Em segundos transformou-se numa tocha-humana. Correu para a sarjeta e se jogou numa poça, tentando apagar o foto. Os rapazes riram e gritaram palavras de ordem. Pareciam pertencer a alguma seita.

Juvenal não se conteve. Imaginou que haviam queimado a mulher. Catou as três maiores pedras em sua frente, fez mira e arremessou contra aquele que parecia o líder. Nunca soube, mas acertou o olho do rapaz. A segunda pedra quebrou um nariz e a terceira perdeu-se no ar. Os jovens fugiram, nunca haviam encarado resistência.

O homem lembrou-se do dia em que mataram sua família. Sentiu-se o homem mais solitário do planeta. Ele nunca quis nada, nunca incomodou ninguém, jamais cometeu algum crime, qualquer coisa que o desabonasse, porém ainda assim a vida insistia em lhe tirar as pequenas coisas que o consolavam. Aquela mulher que agora estava queimada havia renascido em Juvenal o sentimento humano de companheirismo, de caridade, de amor.

Foi olhar o cadáver mas reteve-se. Não encontrou coragem. Chorou em pé e parado. Percebeu, então, que não sabia o nome da mulher. Estava juntos há semanas e mesmo assim nunca perguntou seu nome.

- Cadê você agora? – Gritou, com as mãos em volta da barriga, enojado com a própria displicência. Se existisse vida após a morte, ele queria falar com a mulher e perguntar seu nome – Onde está você?

- Toki. – Ouviu ao longe. Procurou com os olhos e avistou uma franzina figura escondida atrás de um banco. Era sua companheira. Ela estava apavorada. Tentou responder “estou aqui” mas só conseguiu algumas sílabas.

- Toki? – Juvenal correu até ela e a abraçou. Ela tremia. Tinha visto o bárbaro incêndio do colega de moita. Seu magro corpo estava frio e molhado com a própria urina. – Toki, vamos embora.

Abraçou a mulher e voltou ao local onde deixara o cobertor. Havia sido roubado. Nem se importou, tirou uma mecha de cabelo do rosto de Toki e começou a andar.

- Vamos, Toki, para outro lugar.

Ela sorriu. Gostou de ser chamada de Toki. Era singelo e bonito. E carinhoso.

 

 

 

fin

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