| Tatuagem
Senti que algo estava errado. Como posso explicar esse sentimento? É como se o ambiente ficasse mais avermelhado. Vejo uma aura rubra sobre as pessoas que estão na iminência de fazer alguma coisa que afetará a harmonia energética. Eu estava na Chapada dos Veadeiros, no centro-oeste, bebendo cerveja no bar do Pelé, na vila de São Jorge. Um lugar de chão batido e com luz de gerador a diesel. Vi um garotão bem forte, com uma grande tatuagem de um pit-bull de dentes arreganhados, conversando com uma menina loira, tipo mignon, de belos peitos empinados. Era novinha, talvez uns dezenove anos. Ela estava num estado misto de bebedeira e chapação. Cheirava a álcool e a maconha. O garotão a cercava com os braços musculosos. Ele tentava seduzi-la, mas ela impedia as investidas do rapaz. Não sei o que aconteceu, talvez ele a tivesse convidado para fumar outro baseado, mas a vi entrando em uma caminhonete azul com o garotão. - Querida, vou ali fazer um xixizão. - Anunciei à minha esposa. Ela me olhou no fundo dos olhos. - Qual o problema? - Ainda não sei. - Peguei meu canivete que serve como chaveiro e corri para a moto. Segui a caminhonete por alguns quilômetros entre estradas de cascalho. Não acendi o farol da moto para não chamar a atenção. Guiei-me pela luz da lua e pelo farol do carro do casal. Ele parou perto de uma córrego. Desligou as luzes. Fiquei alguns minutos esperando algo acontecer. Não vi nada, nem a brasa de um novo baseado. Desci da moto e esgueirei-me no mato até chegar perto do carro. Olhei para dentro pelo pára-brisa traseiro. Eles ainda conversavam. O vermelho sobre o rapaz estava no grau máximo. De repente ele tentou beijá-la. Ela se esquivou. Ele a segurou pelo pescoço e puxou sua camiseta, rasgando-a. Os seios pularam para fora. Começaram uma briga mas a garota foi rapidamente contida, depois de duas ou três bofetadas. Arrastei-me por baixo do carro até a porta do motorista. Levantei-me o suficiente para tentar a maçaneta, que estava trancada. Procurei uma pedra pesada o suficiente para quebrar o vidro, mas a escuridão debaixo do carro me impedia de encontrar qualquer coisa. Senti que a briga no carro estava mais violenta, pois a garota começou a gritar e o rapaz a bronquear com ela. O carro estava balançando. Arrastei-me para uma moita próxima. Encontrei um pedregulho grande o suficiente. Abri meu canivete e o segurei com a mão esquerda. Corri para a porta do carro e arrebentei o vidro. Sem calcular minha força, a pedra caiu dentro do carro, sobre o garotão. Com a surpresa a meu favor, acertei três socos no rosto do rapaz antes que ele esboçasse qualquer reação. Tentei acertar o quarto soco, mas fui bloqueado pelo grosso braço do rapaz. Nem vi o punho batendo em cheio no meu nariz. Cai para trás, afastando-me da janela do carro. O garotão abriu a porta e veio para cima de mim. Consegui me equilibrar e rasguei o ar com o canivete. Foi um movimento involuntário e às cegas, pois meus olhos ainda estava anuviados por causa do murro. Meu golpe cortou o braço do rapaz. Ele voltou-se para o carro em busca de algo no porta-luvas. Imaginei que fosse uma arma, pois ele tinha uma caminhonete e devia ser filho de fazendeiro. Todo filho de fazendeiro tem uma arma. A garota acordou do transe e tentou impedi-lo de abrir o porta-luvas. Foi o tempo necessário para eu me recuperar. Avancei para o automóvel. O rapaz estava lutando contra a garota, com o joelho direito sobre o banco do motorista. Meti-me nas suas costas, segurei-o pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás e passei o canivete por todo seu pescoço. Imediatamente senti seu corpo amolecendo. Os esguichos de sangue era tão fortes que a garota fechou os olhos. O rapaz ainda se debateu por alguns minutos, mas logo estava morto. O carro estava completamente pintado de sangue. A garota, seminua e imunda de sangue e suor, olhava o corpo do rapaz. Eu ainda o segurava pelas costas. - Meu Deus! - Sussurrou. - Seu deus nada teve a ver com isso. - Redargúi. Puxei o corpo pela cabeça para fora do carro. Vasculhei os bolsos; apenas dinheiro. Voltei ao carro e olhei o porta-luvas. Havia uma Beretta de calibre trinta e oito. Encontrei também a carteira do morto e o documento do carro. - O carro deve ser do pai dele, pelo nome no documento. - Eu conferi todos os dados do defunto. - Esse filho da puta morava no Lago Sul. - Ele é meu primo! - Disse a garota. Primo? Olhei para ela, esperando alguma outra informação. - Ele tentou me estuprar. Concordei. - De novo. Olhei para a garota. Não senti mais pena dela. De novo, ela disse? - Como é que você saiu com ele, se já tinha sido estuprada? - Perguntei, entre dentes. - Ele é rico. Sai do carro. Olhei o corpo com o pescoço talhado. - Era. - Disse.
- Demorou, hein?! - Disse alguém na mesa. - É, o xixi era grande! - Respondi. Minha mulher esperou as conversas voltarem ao normal e me olhou. Aproximei-me de seu ouvido. - O cara tentou estuprar uma garota. Detonei o cara. Depois descobri que a garota era prima do sujeito. - Minha mulher afastou o ouvido. - Prima? - Shh. Desci com o carro até um rio e o deixei no meio da água com as portas abertas. - Eu sabia que meus vestígios seriam levados pela correnteza. - Talhei tiras no corpo nu do rapaz com o canivete e o coloquei sobre um grande formigueiro. - Formigueiro? - Perguntou minha esposa. - Acho que o corpo será descarnado em menos de seis horas. - E a garota? O que você fez com ela? - Ela estava apreensiva. - Arranquei a tatuagem do cara como se tira o couro de um porco e a deixei com a garota. - Tatuagem? - Era um pit-bull. - Bebi um gole de cerveja. - Uma lembrança dessa noite. - A garota pouco viu meu rosto. Nunca me identificaria. Bebi um gole da cachaça de cravo e canela que estava sobre a mesa. Olhei para a minha esposa. - Que tal decorar nossa sala com peles de tatuagens?
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fin |
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