Será o Benedictus?

 

Aconteceu assim: vi um mendigo agitando os braços em frente à tv duma loja.

- O Joseph não! - Ele gritava e depois parecia querer conter-se. Olhava para os lados, desconfiado. Fitava a televisão e se lamuriava. - Logo o Joseph? Assim cumprirão a ordenação genética.

As pessoas passavam ao largo do mendigo. Eu me detive; não tinha muito o que fazer mesmo.

O mendigo parecia contar alguns números imaginários. Sempre que olhava para a televisão, torcia o rosto de dor. Esgueirei-me até perto do maltrapilho para ver o que aparecia na tela. Ele notou minha presença e levantou os braços, armando guarda. Achei graça, pois ele era baixo e magro. Porém, quando fitei seus olhos, notei que ele estava realmente preparado para um combate.

- Calma, meu caro. - Falei, protegendo-me com as mãos. - Eu só vim olhar a tv. - Estávamos num shopping de Brasília e a televisão estava à venda.

Um vendedor apareceu e enxotou o mendigo. Ele não tirou os olhos de mim enquanto foi empurrado para fora. Logo se virou e sumiu na multidão.

Sai da loja e fui para meu carro. Procurei o mendigo pelo caminho mas não o achei. Sentei-me ao volante e liguei o motor. Abri o vidro para sentir o vento. Uma voz me assustou.

- Quem é você? - O mendigo estava ao lado do meu carro. Não notei sua aproximação.

- Por que você quer saber? - Respondi. Não quis falar meu nome.

- O que você quer?

- O que você quer? - Repeti, acentuando o você.

O mendigo abriu a porta de trás e entrou. Olhou-me pelo espelho retrovisor.

- Vamos. - Ordenou.

Obedeci, divertido. Queria saber qual era a onda daquele mendigo.

- Para onde?

- Apenas ande. - Girou os dedos num círculo. - E ouça.

Sai do estacionamento e contornei a rodoviária. O carro entrou no eixo monumental. O mendigo disparou a tagarelar.

- O Joseph escolheu Benedictus XVI pois as delimitações genéticas do DNA o impeliram a cumprir as determinações evolucionárias. Veja bem: em sua religião a besta do apocalipse surgirá com o número 666 o representando. Benedi tem seis letras. Além disso, benedi é bondade em etrusco e a bondade é representada pela letra g, de garante, aquele que protege. A letra g foi substituída por maçons na idade média pelo número 6, para fugirem de perseguição católica aos mitos das antigas religiões. Ictus é um percentual usado na Babilônia, que tinha o sistema numérico hexadecimal baseado na divisão do dia em partes iguais de tempo. X é dez em romano. Ictus X é a sexta parte de dez, ou seja, seis.

O mendigo virou o rosto para mim. Eu não estava entendendo direito.

- Então? - Perguntei.

- Então, - Ele bufou. - Benedi equivale a seis, ictus X equivale a seis e VI equivale a seis mesmo. Benedictus XVI é 666.

Fitei o rosto do mendigo. Estávamos sérios mas eu gargalhava por dentro. O papa era o anticristo?

- Certo. - Falei. - Onde você quer que eu o deixe. - Olhei para o ponto de ônibus à frente.

- O próprio Joseph sabe que se encaixa nas previsões do profeta Nostradamus.

Citar Nostradamus era o ponto final para mim. Eu queria me livrar logo daquele louco.

- "Quando o papa negro chegar ao Vaticano as criaturas do inferno caminharão sobre a terra." - O mendigo falou em voz pausada. Recitava Nostradamus, imaginei.

- O Joseph é branco. - Desmenti a previsão.

- Estúpido! - Gritou o mendigo. - Burro! Até quando vai fechar os olhos? - Ele socou o painel do meu carro.

- Hei, amigão, vai com calma.

- Deixe-me aqui. Pare o carro.

Encostei no ponto de ônibus.

- Se o papa negro fosse oriental, ele seria um Dalai Lama. - As palavras do mendigo saíam rápidas. - Se fosse islâmico seria um líder xiita. Se fosse ecumênico seria filósofo. Papa, para o profeta, nada mais era que pai, líder de uma religião. Joseph é de raça branca mas é conhecido na Alemanha como o padre negro, pois apoiou alianças de sua igreja com líderes genocidas radicais. Você nunca ouviu falar do holocausto?

- Claro que já! - Rebati. - Mataram os judeus, aqueles alemães malucos.

- Só isso que você sabe? De Menguelle você deve saber apenas que ele torturava os judeus?

- Isso. - Concordei.

- Menguelle usava a antiga e pouco miscigenada raça dos judeus em experiências genéticas para compreender melhor a programação evolucionária da vida humana na Terra. Ele contribuiu decisivamente para os indianos decifrarem o código genético. Esse pessoal tem facilidade com os DNAs; são gênios de informática.

- Os indianos decifraram o código genético? - Perguntei, estupefado.

- Há muito tempo! Já sabem como clonar a vida. E até como restituí-la até algumas horas depois da morte. Mas sempre há perda de memória e de habilidades, embora a morte melhore a compreensão do todo. Até hoje ninguém conseguiu lembrar da própria morte, apenas até alguns segundos antes. Eu mesmo não lembro da minha morte.

O mendigo era bom, pensei. Quanta lorota sem lógica.

- E porque não divulgam para o mundo? - Perguntei.

- Teriam que divulgar o início das pesquisas, pois a chave para o código não foi uma descoberta. Foi um presente.

- Presente?

- Dos aliens.

Não me contive e sorri. Agora haviam alienígenas na história.

- A Terra é cercada por uma estratosfera. Ela filtra as ondas energéticas. Da Terra captamos apenas as ondas ultravioletas, microondas e ondas de rádio. Quando o homem foi à lua, captou sinais em ondas gama e raio-x. Decifraram esses sinais e descobriram que era uma transmissão extraterrestre de centenas de milhares de anos. Era uma espécie de chave morfológica das ligações ribonucléicas do DNA. O mais surpreendente foi descobrir que carregamos orientações sobre o futuro da raça.

Eu estava perdido. Sai rodando com o carro e logo entrei no eixão. Ele continuou.

- O nosso objetivo genético é desenvolver a espécie até sermos auto-suficientes e harmônicos. Se há problemas durante a evolução, tendemos a nos destruir. Parece que a nossa é a terceira tentativa dos genes que pousaram nesse planeta. Antes houve Atlântida, depois a civilização Asiática e finalmente nós, os Sapiens Sapiens. - O mendigo aproximou os olhos da minha testa. - Você, por exemplo, ainda tem traços cro-magnon. Eu também! - Ele sorriu e bateu alegremente a mão nas minhas pernas. - Apesar da nossa aparência grosseira, somos mais evoluídos. Nosso cerebelo é menos desenvolvido que nosso lóbulo frontal. Os Sapiens Sapiens desenvolveram mais o cerebelo pois são mais violentos e agressivos. - Fez um círculo com as mãos e apontou para a parte de cima. - O lóbulo frontal é capaz de se desenvolver até possuir características mutantes. Alguns adquirem telecinese, outros pirocinese, outros apenas telepatia.

- Adquirem telepatia?

- Basta fazer exercícios simples de pensamento. Logo você consegue entender os pensamentos dos outros, se eles quiserem, é claro. - O homem fechou o cenho e me olhou firme. - Por que você acha que estou aqui falando com você. Eu senti que notou minha apreensão com o Joseph. Pensei que você fosse algum guardião religioso, mas você é apenas uma pessoa normal.

- Obrigado! - Falei alegremente. Ao menos um de nos era normal, pensei.

Foi nesse momento que tudo aconteceu.

- Eu sou normal. - Disse o mendigo. - Fiz trempanação e consegui expandir meus outros sentidos artificialmente.

- Trempanação? - Falei sorrindo, pensando na proximidade da palavra com trepação.

"Sem pornografia. Não é trepação."

O mendigo respondeu ao meu pensamento.

"Sim", ele sussurrou no meu cérebro.

- Isso é simples de fazer. - Continuou, agora falando. - Embora eu tenha que me concentrar muito pois você não entende a telepatia. Tenho que me comunicar com seus pensamentos desorganizados.

- O que é trempanação?

- Os aliens possuíam o lóbulo frontal muito desenvolvido, capaz até de brilhar em momentos de grande esforço. Alguns humanos que viram esses aliens disseram que eles possuíam um terceiro olho na testa, que via coisas além da imaginação. Na verdade o "olho" era uma espécie de antena energética dos aliens. Os humanos aprenderam que se abrirem um buraco na caixa cerebral, na altura do lóbulo frontal, expandirão seus pensamentos até um ponto próximo às capacidades mentais dos aliens. Isso é trempanação. Os egípcios adoravam. O problema é que a técnica gasta em excesso o cérebro e logo a pessoa morre.

- Você vai morrer? - Perguntei ao mendigo, preocupado.

- Sim, morrerei novamente. - Falou entre um sorriso. "Uso as capacidades adquiridas com minha trempanação com parcimônia." - Não gasto meus poderes.

Fiquei tonto com aquele diálogo na minha cabeça. Não quero que ele leia meus pensamentos, pensei. Estava assustado pois me sentia exposto. Parecia que eu poderia ser decifrado pelo mendigo.

- Hum. Você não quer se comunicar por telepatia. Melhor assim. - Ele falou e logo depois escutei na minha cabeça: "Mas continue me ouvindo".

- Por que? - Perguntei. - Quem é você?

- Sou um dos que queriam revelar alguns segredos à humanidade. O meu departamento avisou outro departamento que avisou outro e me mandaram tirar férias. - Ele respirou fundo. - Vai continuar a me ouvir?

- Por que? - Eu estava confuso. Queria saber o que ele tinha para me contar mas ao mesmo tempo temia que aquilo tudo fosse uma grande viagem. Talvez o mendigo fosse um vigarista maluco que estivesse me enganando.

- O meu departamento achava que devíamos prosseguir com a evolução até alcançar o objetivo. Eu acho que essa humanidade já se distanciou definitivamente do objetivo quando se desenvolveu com linguagens diferentes. Não conseguiremos unir as diferentes culturas.

- Unir para que?

- Para criarmos a civilização inteligente e auto-suficiente, baseada na paz e cortesia. Devíamos estar integrados ao meio-ambiente para usar os conhecimentos da natureza. Os genes que chegaram à Terra possuíam capacidade de evoluir nas mais diferentes espécies de animais, cada uma com características maravilhosas e interessantes. Os que desenvolviam a inteligência não desenvolviam o instinto e vice versa. Eram dois programas incompatíveis. As formigas sabem construir formigueiros e os homens sabem aprender a construir um edifício. Os morcegos possuem sonares para captar as vítimas; os felinos conseguem ouvir sons muito distantes com os receptores auditivos dos olhos; quase todos os animais pressentem os sentimentos de medo, raiva, agressividade e curiosidade; os mamíferos marinhos têm radares para se comunicar uns com os outros numa linguagem inteligente; os insetos possuem glândulas que melhoram suas performances físicas; as plantas desenvolveram os melhores condutores energéticos e geradores nucleares; os fungos formaram sociedades auto-suficientes. - Parou para respirar. - Se o homem convivesse pacificamente com a natureza, retiraria dela todas as informações necessárias para a perfeita existência no planeta.

- Mas o homem cagou tudo. - Completei.

- Sim. Agora a programação genética fará que o homem se auto-destrua para tentar começar de novo com os genes restantes.

- Seria uma quarta geração de vida na Terra. - Completei novamente.

- Sim. Os alienígenas passam de tempos em tempos por aqui para ver como as coisas estão. As abduções têm sido constantes. Nos contatos que os humanos conseguiram fizeram, as respostas foram evasivas. Os aliens não gostam do rumo que a civilização tomou. Não seremos úteis a eles. Por isso não se pronunciam: não chegaremos ao nível desejado.

- Para que deveríamos ser auto-suficientes? - Cheguei até a Ponte do Bragueto e retornei pelo eixão.

- Essa é a pior parte. - Ele sorriu amargamente. - Os aliens estavam se expandindo pelo universo infinito. Precisavam de trabalhadores. A tecnologia só funciona se estiver sob controle de um ser inteligente. A Inteligência Artificial até calcula imprevistos, mas não possui instinto para escolher entre as possibilidades de êxito. Os aliens precisavam de bilhares de seres inteligentes para colonizar o Universo com suas naves tecnologicamente avançadas. Não queriam clones de si próprios pois sabiam que as criaturas um dia podiam virar-se contra os criadores. Delimitaram, então, algumas milhares de características genéticas e as enviaram em pequenas naves exploradoras pelo espaço. As naves procuravam ambientes prósperos para a vida baseada em carbono. Há outras formas de vida, porém os aliens criadores também são de carbono; ele próprios não conseguem controlar a vida energética nem a vida dimensional.

- Vida energética? Dimensional? - Eu estava me perdendo novamente. Ele prosseguiu sem me responder.

- As naves pousavam nos planetas inabitados e liberavam as partículas genéticas. Durante milhões de anos os genes se desenvolviam em seres absolutamente fantásticos. Cada espécie da Terra evoluiu racionalmente em um planeta diferente, juntamente com outras milhares de espécies. Num planeta, os civilizados são as enguias; no outro são os cavalos, no outro são os polvos; no outro, os macacos. Na maioria, os seres tornaram-se humanóides. Parece haver uma facilidade cósmica para isso acontecer.

- Como você sabe disso tudo? - Eu duvidava daquelas palavras e ao mesmo tempo tudo fazia um sentido absurdo.

- Viagens no tempo. - Ele respondeu no ato.

- Era o que me faltava!

"Não é possível interferir no tempo, mas é possível visitar e até filmar os tempos passados". Ressonou em meu cérebro, o mendigo, para me lembrar que não estava mentindo. E o futuro? Pensei. "O futuro ainda não aconteceu".

- Eu mesmo vi a Terra em épocas passadas. Há registros concretos de grandes civilizações que nossa história simplesmente desconhece. O homem está na Terra há muito mais tempo que os mais antigos fósseis. - O mendigo parou de falar por alguns segundos. Senti que ele passeava por meu cérebro. Eu sentia uma sensação de frescor no crânio. - Não se preocupe! Não é possível modificar o passado, apenas vislumbrá-lo.

Continuei dirigindo e desci pelo túnel para o eixão sul.

- Não sabemos se os aliens já se comunicaram com os habitantes dos planetas que se desenvolveram harmonicamente. Imaginamos que se fizeram isso transformaram os habitantes em escravos em sua colonização cósmica. Outros dizem que as civilizações que se desenvolveram trabalharão de bom grado com seus criadores. Eu acho que é tudo uma grande sacanagem.

E como eu me sentia?

- Quando sai do centro de pesquisa e análise genética na Amazônia, sabia que logo deveria voltar ao trabalho para impedir os novos surtos viróticos. A Aids foi o prenúncio do fim dos tempos. O homem a criou para destruir a vida humana na terra. Fez isso para atender ao indicativo genético que o obriga a destruir a si mesmo e aos outros da sua espécie se não houver harmonia entre os indivíduos. Devemos evoluir para servir! Se não há evolução, há a implosão da civilização para que surja outra em seu lugar. Mas a Aids foi controlada, assim como várias outras pragas - o ebola e a gripe. Pensei que talvez o homem pudesse viver ainda algumas centenas de anos antes de cumprir o destino incrustado no seu DNA: a auto-destruição.

- O homem está se auto-destruindo?

- Você não viu a notícia no rodapé do jornal sobre o Joseph? - Perguntou-me o mendigo.

- Não.

- Um laboratório norte-americano enviou por descuido amostras de um novo e destrutivo vírus para 18 centros de pesquisa ao redor do mundo. - Eu havia escutado algo sobre isso. - Os centros disseram que destruíram as amostras, mas já sabem que houve algumas falhas no processo. Talvez os genes daqueles que deveriam destruir os vírus os tenham impedido - Ele respirou fundo e se calou. Era a primeira vez que ficava calado desde que entrara no meu carro.

- E daí? - Perguntei.

O mendigo continuou calado. Abaixou a aba do tapa-sol do banco dos passageiros. Olhou-se pelo espelho. Mediu a barba e tentou ajeitar os longos cabelos.

- É por causa da minha aparência que você me considera um mendigo. - Eu não o havia chamado de mendigo. - Eu posso ler sua mente. Não sou um mendigo. Estou apenas cansado e desesperado.

- Por que? - Insisti.

- Você ainda não entendeu? - Gritou. - Tudo o que sabemos é mentira. Tudo o que somos é mentira. Não passamos de uma experiência genética mal sucedida. Logo nos destruiremos para que os genes tentem criar uma raça mais amena e controlada para o trabalho com os alienígenas. - Ele passou as mãos pelas calças imundas. Prestei atenção e notei manchas de sangue. - Quando voltei ao centro na Amazônia, encontrei tudo destruído. Bilhões de dinheiros em pesquisas. Procurei os outros cientistas e encontrei apenas seus cadáveres.

- Mortos. - Confirmei as palavras do homem.

- Vivos! - Alertou ele. - Os cadáveres estavam vivos! Eles andavam por todos os lados como zumbis. Desprezavam a vida vegetal e animal mas atacavam vorazmente os outros humanos. Minha equipe de transporte foi rapidamente dizimada por meus antigos colegas e amigos cientistas. Foram devorados!

- Como é? Mortos-vivos? - Sorri. O mendigo, ou melhor, o homem tornava a história mais espetacular a cada minuto.

- Sim. O vírus encaminhado por engano aos laboratórios era parte da experiência indiana para restaurar a vida em corpos inanimados. Durante as tentativas descobriram um vírus que gerava uma pulso magnético quando infectava a célula hospedeira. Esse pulso mantinha a célula viva mesmo sem alimentos, sem oxigênio e até com defeitos na sua estrutura. Os indianos partiram para a reprodução em larga escala do pulso magnético para restituir a vida e guardaram o vírus para outras pesquisas. Esses vírus foram encaminhados aos 18 laboratórios ao redor do mundo, por engano ou, como suspeito, por orientação genética. Na Amazônia houve contágio e ele logo se expandiu. Sei que o morto-vivo transmite o vírus apenas através da saliva. Ele morde as vítimas, tentando devorá-las. Cinco ou seis horas após a mordida a mutação está completa e a vítima se transforma em outro morto-vivo. O inferno na terra, como falou Nostradamus.

- Quem era Nostradamus?

- Alguém que desenvolveu as características genéticas superiores.

- Mas você disse que o futuro ainda não aconteceu. Como ele poderia prever o futuro?

- Ele não previu o futuro! Apenas decifrou as informações nos próprios genes, como nós fizemos. Conseguimos ler as orientações comportamentais que nossos genes possuem, graças às chaves morfológicas que os próprios aliens mandaram para a Terra por ondas Gama. O próprio pseudônimo do escritor, Nostradamus, era uma piada sobre a origem da vida no planeta e seu futuro. Nostra é nossa em itálico e damus é doação. Nostradamus é o mesmo que Nossa Doação. Nostradamus sabia que o objetivo da raça humana era servir à uma raça alienígena. Ele dizia que a nossa vida era a nossa doação ao desenvolvimento do universo.

- Não entendo o que o Papa tem a ver com tudo isso.

- A alta cúpula do Vaticano conhece as pesquisas sobre o DNA. Sabem o objetivo da humanidade e tentam transformar as pessoas através da religião. Alguns grupos fanáticos da igreja achavam que devíamos desconsiderar a ciência e depositar todos nossos esforços na fé em deus. Seríamos salvos por força divina. Para provar suas teorias, tentaram acelerar o fim do mundo, criando condições para catástrofes naturais e guerras genocidas. A segunda guerra mundial foi a mais famosa, mas a maior ainda nem foi descoberta pela mídia: o extermínio constante e interrupto dos negros, os donos do código genético mais antigo e completo. Os brancos e amarelos são mutações imperfeitas da raça humana original. Destruindo os negros, esses religiosos acharam que poderiam dar novo sentido ao nosso código genético. Pura bobagem preconceituosa. - O homem abanou o ar como se espalhasse um peido. - A ascensão do Papa Negro, do pai negro, do líder religioso da escuridão, é um dispositivo genético que avisa a todos os seres humanos que o fim da raça se aproxima. Basta olhar ao redor e perceber a crescente onda de violência e falta de perspectiva da humanidade. O ser humano não sabe para onde vai, por isso destrói tudo ao redor. É a orientação dos seus genes. O papa negro, a besta, o anti-cristo, o 666, todos são apenas símbolos que representam o apocalipse na religião católica. Joseph apropriou-se deles para demonstrar que ele próprio vai catalisar o fim do mundo. Ele imagina que depois que forem salvos por seu deus, alterarão para sempre a ordenação genética do homens e conseguirão concluir a modificação do ser humano.

- Como ele vai catalisar o fim do mundo?

- Quando adotou o nome Benedictus XIV, as orientações genéticas dos seres humanos perceberam que era o momento de finalizar esse ciclo de vida no planeta. Todas as pessoas que tinham capacidade de influenciar negativamente na vida na Terra cumpriram o papel de arauto do apocalipse. Você não notou que as pessoas estão mais doentes e mais frágeis? Tudo é resultado da orientação genética.

- E o tal vírus que cria mortos-vivos? - Eu havia contornado o balão do aeroporto e voltava pelo eixão sul para o eixo monumental.

- Fui o único sobrevivente! Fugi durante dias no meio da selva. Peguei algumas caronas com caminhoneiros para chegar aqui. Procurei meu departamento mas não consegui contato. Imagino que todos os departamentos e centros de pesquisa genéticos ligados aos dados alienígenas estejam destruídos. Esses religiosos não medem esforços.

- O que veio fazer aqui?

- Fugir.

- Fugir? - Eu não entendi.

- Fugir da civilização. Estou indo para o Pantanal. Lá poderei me proteger dos mortos-vivos. A floresta amazônica já está infectada de zumbis. Quando a praga atingir os grandes centros populacionais, o mundo vai se tornar o caos. Lutar contra os mortos é uma guerra perdida. Não há meio de controlar o vírus que cria o pulso magnético. Se soltarem bombas atômicas sobre os lugares infectados de mortos, logo o vírus contaminará os mananciais fluviais e as pessoas beberão o vírus. Quando morrerem naturalmente, levantarão em cinco ou seis horas. É o contágio indireto. Estarão famintas e prontas para devorar todos ao redor. Só há uma maneira de fugir dos mortos: ficando longe deles.

- Você não vai avisar as autoridades? - Eu estava atordoado.

- Autoridades? Os políticos? - Ele soltou uma gostosa risada. - Nem você acredita em mim. - Virou a cabeça para acompanhar a paisagem em sua janela. "Os políticos nem escutariam minha história completa, como você escutou".

- Se ao menos você tivesse outra prova além da sua telepatia, poderíamos correr aos jornais. - Eu tentava ajudar. Não sabia se queria ajudar a ele ou a humanidade.

- Eu tenho outra prova.

O mendigo enfiou a mão no bolso da calça e puxou uma pequena caixa. Quando a abriu, vi um dedo feminino, de unha pintada, com uma aliança.

- Minha esposa também era pesquisadora na Amazônia. - Ele acariciou o dedo. - Eu cortei seu dedo pois não consegui retirar a aliança. - De repente o dedo se mexeu dentro da caixa. Ele se movimentava como se fosse um verme, mas não saia do lugar. - O que você acha de levar esse dedo para a televisão? - O mendigo sorria, mas vi uma profunda melancolia em seus olhos. - Não sou mendigo, já disse! - Falou com raiva. - Deixe-me na rodoviária. Tenho muito o que andar.

Fiz a volta e estacionei no local de desembarque de passageiros. Eu não sabia o que fazer nem o que dizer. Achei que o homem estivesse atrapalhando meus pensamentos, pois não tive vontade de tentar dissuadi-lo de fugir para o Pantanal. Eu queria saber mais. Queria divulgar o que o homem me contou, mas ao mesmo tempo sabia que a lógica absurda da história não seria capaz de convencer as pessoas, mesmo com a prova do dedo vivo e da telepatia. Ele saiu do meu carro.

- Espere! - Gritei. - Por que você me contou tudo isso?

- Você escreve, não é? Escreva o que te contei e o que aconteceu. Organize o que te expliquei. Registre minha história.

- Você não me disse seu nome.

"Adão", ouvi em minha cabeça.

 

fin

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