SEI LÁ

Saí de casa tarde. Como o pneu do meu carro tinha furado no dia anterior, deixei-o para arrumar num borracheiro meu conhecido. Peguei o pneu consertado e indaguei o que poderia tê-lo furado.

-Ah, alguma coisa furou ele, né. - Respondeu o solícito borracheiro meu conhecido.

Mas é lógico que foi alguma coisa. Por isso eu perguntei o que haveria de ter sido. Entretanto, vendo que o borracheiro meu conhecido estava sendo totalmente sincero em sua elucidação, não teci nenhum áspero comentário.

Fui-me. Parei em um semáforo e, pelo adiantado do sol, perguntei para um transeunte que horas seriam.

-Dez horas. - Respondeu-me o transeunte, olhando para dentro do carro pela janela.

-Ué? - Falei desentendido. -Eu saí de casa eram dez horas. - Comentei sem pensar, realmente não compreendendo o desencontro de horários.

-Cê quer saber os minutos também? - Questionou-me o transeunte na maior cara de pastel que eu já vi.

Parti com o carro, sem responder. Apenas soltei uma fungada de sarcasmo, dando a entender que entendi a piada. Claro, o transeunte tinha que estar me sacaneando. Se a pergunta dele fosse séria, que os deuses o perdoem.

No escritório, pensando nos acontecimentos do dia, tive que ligar para a residência de um amigo para resolver uma dúvida.

-O Carlos está?

-Está. - Disse a trabalhadora doméstica e continuou respirando no bocal do telefone.

-Você pode chamá-lo ao telefone, por favor. - Eu estava sendo o mais simpático do mundo.

-Posso sim, senhor. - Respondeu a distinta, e continuou respirando no fone.

-Então faça isso, meu bem. - Disse eu, numa paciência maior que a de Jó.

-Fazer o quê? - Perguntou a coitada, numa entonação de voz de quem quer ajudar mas não pode pois não possui autoridade suficiente para tanto. Desliguei.

Parecia brincadeira, mas ela tinha feito tudo o que eu pedi. Eu perguntei, ela respondeu. Ela estava corretíssima, ao seu ver, e me atendendo com muito préstimo. Desisti de falar com o meu amigo.O pior é que ainda senti dor na consciência por ser rude com a auxiliar residencial do meu amigo.

Voltei para casa à noite. Estava decepcionado com o ser humano em geral. Que raça de burros, sem querer ofender o eqüino. Beijei minha esposa e dei o chute usual no gato. Qualquer dia eu beijo o gato e chuto minha esposa, só pra sair da rotina. Ainda pensando nos meus desentendimentos com os outros da minha espécie, perguntei à minha esposa se alguma coisa havida dado certo para ela no dia.

-Ai, meu bem, dei a coisa certa sim. Juro que não faço mais. Sei que estava errada. Foi um lance de momento. - E continuou vomitando palavras de desculpas. Só compreendi o que realmente ela estava dizendo quando decodifiquei toda aquela informação. Fiquei descontrolado. Dei outro bico no gato pra tentar relaxar. Que mulher burra. Confessou de otária que é. Fiquei com mais raiva da idiotice dela do que deslize. Fui arejar a cabeça tomando um drink num bar. Lá chegando, encontrei o Carlos, meu amigo. Fui desabafar.

-Carlos, meu amigo, a minha mulher me traiu. - Exclamei entre soluços.

-Pô, desculpa. Foi um lance de momento, sei lá.

fin

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