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O valor de um homem O dia começou mal: foi pego pelo radar acelerando o carro para o trabalho, o copo furado do cafezinho manchou-lhe as calças, a perna dos óculos caiu e a chefa insistiu em levá-lo para almoçar. - Entenda - Mastigou o alface. – sou casado. Ela não se importava, queria apenas usufruir as benesses do cargo público. - Entenda você: sem Almoço Executivo, sem cargo comissionado! – Reagiu do alto de seus tamancos nordestinos. Ruminou durante a tarde. Sua mulher ligou pedindo-o para passar na padaria. “Tô sem grana até para o pão”, pensou em confessar. “Não valho nada mesmo”. Viu o panfleto sobre seguros de vida. Teve um estalo. Em poucos dias estava tudo arrumado. Conseguiu enrolar a chefa até a sexta-feira seguinte. - Requisite-me na sexta à tarde. – Olhou a velha como um vigoroso Sátiro. – Serei todo teu. Na noite anterior preparou um jantar para a esposa, até dançaram música lenta, e cumpriu suas obrigações matrimoniais a noite inteira. A chefa o chamou para o motel logo ao meio-dia. Entraram no quarto e ela o abraçou. - Calma. Preciso de um clima... – Encheu um copo de vodca e gelo. – Você é o cão chupando manga, Oneide. – Virou tudo duma vez. Reabasteceu o copo e ofereceu à mulher. - Seu idiota. – Ela bebeu e tentou outro abraço. - Calma. – Tirou do bolso um envelope e de dentro uma carta. – Antes quero que você assine este termo dizendo que não vai me assediar novamente. – Estendeu o papel para a mulher e automaticamente abaixou as calças. A visão do membro tão cobiçado fez Oneide assinar rapidamente na linha pontilhada. - Calma, porra... – Ele tirou a mão da chefa do pau. – Que tal outro drinque? Encheu dois copos. No dela havia um forte calmante, no dele próprio um boa quantidade de veneno a base de chumbinho. Viraram os copos. Em minutos ela estava desmaiada e ele morto. A porta do quarto foi arrombada após ninguém atender o interfone. Entre eles, no chão, a carta datilografada: “Estou apaixonada pelo funcionário mas ele é fiel à mulher. Ameaçando-o com demissão, consegui arrastá-lo para este motel. Sem que percebesse coloquei veneno em nossas bebidas. Morreremos lado a lado.” A assinatura da mulher foi comprovada em perícia antes do julgamento que a condenou a 19 anos. As seguradoras argumentaram que o morto havia acabado de assinar as apólices, parecia uma fraude, contudo a condenação por homicídio obrigou ao pagamento. Em dobro, diga-se, por conta do sinistro. A esposa ainda recebeu pensão do Estado o resto da vida, mesmo rica com os prêmios de todas os seguros que ele conseguiu contratar. Ele morreu feliz com seu último pensamento. Achou que seu valor seria reconhecido quando o dinheiro entrasse na conta da esposa. - Idiota. – Dizia ela sempre que comprava algo supérfluo. – Para mim você valia mais que todos estes batons. |
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fin |
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