Os petiscos de Felipe
A moçada divertia-se no bar. Chamavam cervejas, contavam causos, o mais animado era Felipe, havia finalmente comido a vizinha e contava todos os detalhes com gestos. Riam. Era o centro das atenções. Somente Kátia, a vizinha, permanecia calada. Ele viu, escondida ao fundo, uma conhecida a quem emprestara dinheiro. Sabia que a mulher era carne de pescoço, desvencilhava-se dos compromissos, mentia e difamava para livrar-se de dívidas. Não deveria ter emprestado, mas ela o ludibriara choramingando sobre dores e privações. Era mixaria, não fazia falta, porém o que incomodava era a desfaçatez da devedora. Se não podia pagar, não deveria estar gastando com bebida. - Oneide! Gritou ao fim do causo, olharam para ela. Escondida de mim? Sorriu. Era carismático. Tinha em si a atenção do bar. Endureceu o cenho e falou ríspido. Tá pensando que vai me dar o calote? O clima ficou pesado, muitos silenciaram. A mulher encolheu-se ruborizada na cadeira. Felipe emendou: - Sem trote. Tem minha grana? Ela gaguejou, respondeu coisas desconexas, tentou se justificar culpando outro alguém, sem explicar como tal pessoa poderia ser responsável, e não ela própria, pela dívida. - Não tente me enrolar, Oneide! Cortou Felipe. Risadas ecoaram, conheciam a mulher, uma trambiqueira imoral que se dizia desafortunada, embora possuísse imóveis e investimentos. Tinha o hábito de pegar carona para economizar o carro, de surgir nas casas alheias durante as refeições para filar as bóias, nunca pagava 10% aos garçons, se pagava a conta, pois era comum desaparecer nestas hora. Tem meu dinheiro? - Sim. Balbuciou a mulher. A boca rasgada lembrava a de um baiacu seco na areia. Vamos até minha casa, lá te darei o dinheiro. Ohhh, gozaram os amigos do rapaz, aplaudindo o pagamento. Seria a primeira vez que alguém resgataria uma dívida com aquela pilantra. - Quando eu voltar, pagarei a rodada! Gritou o jovem. ÊÊÊ, responderam. Demoraram quase duas horas. Kátia reclamou durante todo o tempo: Cadê o Felipe?, que atraso, onde foram?, será que aconteceu algo?. Oneide apareceu na porta do bar, um saco plástico na mão e uma expressão indefinível no rosto. Depois diriam ser sadismo, ou loucura. - O Felipe recebeu o dinheiro e voltou para casa. Anunciou. Muitos estranharam, ele vivia no bar. Me pediu para trazer isto. Levantou a sacola. São vísceras: fígado, coração... para fazer o petisco da cerveja. Grande Felipe, ouviu-se. Sempre alimentando os amigos, murmurou outro. Levaram o saco para a cozinha, limparam e temperaram a carne. Fritaram em pedaços que serviram a todos no recinto. - Uma delícia. Aprovou Kátia. Gostosa como o próprio Felipe. Os amigos deram risadas e lamberam os beiços satisfeitos. Durante a semana os assuntos no bar foram as vísceras de Felipe, saborosas como o próprio, gracejavam da namorada. Esta, contudo, andava encucada com o sumiço do rapaz. Surgiu nas redondezas o boato que Oneide havia sido presa. Kátia foi convocada à Delegacia para prestar depoimento sobre a mulher. É uma pilantra. Segredou Kátia ao policial, satisfeita por avalizar a má-conduta da mulher.. Foi presa por dívida? - Coisa pior. Disse o policial. Assassinato. - Assassinato? Tremeu a moça. De quem? - Não sabemos ao certo. O homem consultou uns documentos. Achamos um cadáver meio enterrado em sua casa. Morto há uma semana. A moça sentiu vertigens. - Uma semana? - Sim. O homem foi até o computador. Ainda não fizemos o reconhecimento. Abriu umas fotos e as examinou. Era um rapaz. Fez uma careta. Foi brutal. Ela o matou com uma pancada na cabeça, depois abriu sua barriga e arrancou as vísceras. - Vísceras? Tremulou Kátia. - Sim, ainda não as encontramos. A moça esforçou-se para falar. Uma golfada de vômito prendia-se em sua garganta. A voz saiu fina, embargada. - Saborosas como o próprio Felipe
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