O desajuste familiar

O garotão, metido a galã de novela, adentrou na festa e logo avistou um grupo de garotas. Chegou para uma que estava na periferia da roda.

-Oi, gatinha, como eu posso te chamar?

-Pode me chamar de Gatinha mesmo.- Disse a garota.

O grupo parou de conversar e olhou o garotão.

-E você, meu bem, como se chama?- Falou com outra, meio sem graça.

-Me chamo Meu Bem.- As meninas estavam adorando rir da cara dele.

O rapaz, controlando-se, percebeu que deveria ser um grupo de reprimidas. Olhou para a que parecia ser a líder.

-E você, sua vaca, qual é o seu nome?

Silêncio geral.

O garotão resolveu deixar o grupo à sós para poderem falar mal dele. De saída, entornou o caldo.

-Com licença, garotas, que eu vou ali bater uma punheta pensando em vocês.

Saiu assobiando.

Ele parou na frente do bar e viu que havia uma mulher servindo os convidados. Tinha cerveja, vinho e coquetéis para beber.

-Oi, o seu patrão mandou você me servir uma dose do uísque que ele escondeu debaixo da pia.- Mandou.

-Que patrão?

-O dono da casa, oras.

-Ele é meu filho, não meu patrão.

Ih, confusão. Ele confundiu a dona da casa com a empregada.

-É mesmo? Que safado. O seu filho tá dizendo pra todo mundo que a senhora é a empregada. - Explicou. - Sua mãe não seria tão escrota.

-Ah é? Toma aqui a garrafa que eu vou lá falar com aquele moleque.

Ele escondeu o uísque dentro do casaco e foi para a cozinha. A moça humilde que encontrou devia ser, finalmente, a empregada.

-Oi, me dá um gelinho, por favor.

-Tá.- A moça virou para pegar o gelo na geladeira. Ele deu um confere no porta malas dela.

-A minha vez pode ser agora?

-Sua vez de quê?

-Ué? O dono da festa falou que a empregada dava pra todo mundo, era só pedir.

-O quê?

-É. - Continuou. - Disse também que depois a gente vai invadir o seu quarto e todo mundo vai te comer.

-Ai minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, me socorra agora que chegou a hora.- A coitada saiu chorando em busca da patroa para dedar o futuro estupro.

Ele se serviu de uma dose tripla e foi para o interior da casa a procura do banheiro. Deu de cara com um senhor.

-Procura alguma coisa, jovem?

-Procuro sim, senhor.- Com voz de bêbado. -O quarto da filha do dono da casa. Disseram que ela cheirou uma carreira e tá dando pra todo mundo.

- Minha filha? - O homem disparou para dentro da casa. - Ai meu deus.

O rapaz usou o banheiro e não deu descarga. Voltou para a sala. Uma garota se aproximou.

-Você veio do banheiro, né! Viu um senhor por aí?

-É o seu pai? - Ela assentiu. - Eu não devia dizer mas ele falou que vai comer a empregada.

A moça, assustada, chamou o irmão e foi correndo procurar a mãe.

-O que é que houve?- Perguntou o dono da festa.

-O problema é que sua irmã está muito doida! - Explicou o garotão. -Disse que sua mãe tem casos fora do casamento por causa da carreira.

O garoto, estarrecido com a revelação sobre sua família, nem lembrou de perguntar quem era aquele cara que ele não conhecia. O garotão metido a galã foi para a porta, para o caso de uma saída estratégica pela esquerda, e ficou olhando a quizumba.

-Seu moleque! Falou que eu tenho jeito de empregada, hein?- Disse a mãe.

-Ele falou que a empregada dava pra todo mundo.- Chorou a empregada.

-A mamãe chifrou o papai.- Gritou o rapaz.

-Hein? Eu chifrei o seu pai? Moleque.- Urrou a mãe.

-Ele falou que vai me comer.- Lacrimejou a empregada.

-Quem vai te comer?- Perguntou o garoto.

-O papai. O papai vai comer a empregada.- Berrou a filha.

-Ela estava dando pra todo mundo.- Trovejou o pai.

-Quem?- Indagou a filha.

-A mamãe. A mamãe.- Soluçou o filho.

-Era por causa da carreira! - Explicou o pai.

-Não acredito, a mamãe chifrou o papai por causa da carreira?- Assustou-se a filha.

-Ele disse que eu dou pra todo mundo.- Derretia-se a empregada.

-Quem? O papai?- Questionou o filho.

-O seu pai está com a empregada?- Alarmou-se a mãe.

-Não! A cocaína a deixou doida.- Disse o pai.

-Hein? Você deixou a empregada doida com cocaína?- Esbravejou a mãe.

-Não, a nossa filha.- Falou o pai.

-Papai, você deu cocaína para a minha irmã? E eu?- Bronqueou o jovem.

E a discussão foi por aí à fora. O galã garotão estava quase indo embora quando viu novamente o grupo de garotas que encontrou assim que chegou. Acenou e despediu-se da garota líder.

-Thau, mimosa.

Pelo menos foi gentil.

fin

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