Objetos Perdidos
Eu as adoro, amo, sou apaixonado, idolatro, mas nem por isso sou obrigado a entendê-las. Ah, as mulheres...seres incompreensíveis e instáveis. Conheci uma particularmente interessante em uma boate. Ela diz-se viciada em Internet. Ficamos bebendo e trocando Sites até a hora de nos beijarmos e decidirmos se iríamos para um motel ou se deixaríamos isso para o segundo encontro. Ficou para o segundo encontro pois ela estava com uma amiga e não queria deixá-la sozinha. Boa forma de se prestigiar. Trocamos e-mail (sim, e-mail, nada de telefones. Somos pessoas modernas) e fui-me embora. No outro dia, recebo um mail seu dizendo que tinha adorado a noite passada e tudo o mais. Ela pergunta se eu não havia visto o seu talão de cheques, que ela imagina ter sido roubado. Eu sinto até uma pequena desconfiança no tom das letras da sua mensagem, mas deixo passar. Passam-se alguns dias, saímos, fazemos tudo o que os casais modernos fazem, isso inclui ir finalmente ao motel e o homem nunca mais ligar, e voltei à minha pacata vidinha. Meses depois, eu a encontro. Ela conta que foi para Cancun, coisa e tal, se divertiu, blablablá. Ficou falando os minutos iniciais da conversa, como é de praxe das mulheres. Eu só escutando, ou melhor, fingindo. Estava mais ligado numa música ambiente que estava tocando. Ela pergunta se eu me lembro do cheque dela que tinha sido roubado quando nos conhecemos. Sim, por que? Bem, ela me conta que sustou-os junto ao banco, que alguns voltaram, que eram compras absurdas em lojas de grife, que a pessoa que roubou gostava de freqüentar os mesmos lugares que ela, que seu nome ficou sujo no SPC durante semanas e mais um monte de coisas. Finalmente diz que, em Cancun, estava procurando cigarros na bolsa quando notou um zíper que nunca havia visto antes. Abriu o zíper e o quê encontrou? Claro, o talão de cheques. Ah, mulheres...será que alguma vez eu vou compreendê-las? Só espero que nenhuma delas me perca dentro do seu próprio carro. Como eu faria para sair de lá?
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Estava eu, feliz e contente, passeando em uma feira de exposições repleta de pessoas. Todos os espaços estavam ocupados por gente dos mais diversos tipos. Como é normal nesses ambientes lotados, todas as pessoas queriam ir para direções e sentidos diferentes. Alguns até ficavam andando em círculos apenas para engarrafar ainda mais o lugar. De repende, uma garota que estava na minha frente estica a mão para trás e, na maior intimidade, encontra a minha e a segura. Ela sai me puxando sem olhar e aponta para uma loja de bebidas. -Ali, amor. Vamos tomar um drink. E continua me arrastando. Eu, como bom cretino, vou caminhando alegremente com a desconhecida. Ela fala ainda sem se virar: -Sua mão está grossa... - e se vira. Qual não foi o susto da distinta ao ver que eu não era seu namorado, noivo, marido ou seja lá o que for. -Quem é você? - Me pergunta. -Sou aquele que buscou, ao seu dispor! - Ela não entende a ironia. -Cadê meu namorado? Perdi meu namorado? - Ah, era namorado! -Não faço a mínima. Que drink você quer? - Ela, coitada, continua sem entender. -O que você está fazendo? - Que garota mais perguntona. E tudo isso sem soltar minha mão. -Estou pedindo seu drink. O que você quer? - Ela olha para a direita, para frente, para a esquerda. Pensa um pouco, me pergunta se eu não vi seu namorado. Posso até ter visto, mas eu não sei quem é o figura. -Acho que eu quero um vinho branco. -Garção, uma taça de vinho branco para a senhorita aqui e um whisquezinho para mim. Fomos embora da feira de exposições juntos e de mãos dadas. Ela na frente e eu atrás, segurando fortemente para não me perder. Também.
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Uma amiga sempre diz que a melhor forma de não se complicar é dizendo a verdade, sendo sincero. Principalmente nos relacionamentos amorosos. Bem, nunca tive problemas em dizer a verdade. Mas a verdade nem sempre deve ser dita a todos. Nem todos estão prontos para ouvir. Eu tinha uma namorada. Tinha é o termo certo, pois certa vez viajei e acabei me envolvendo sexualmente com uma moça não muito distinta. Eu estava sensivelmente influenciado pela amiga que gosta de verdades e acabei contando para a namorada o caso, esperando que ela me perdoasse e esquecesse. Ela era cristã, mas o perdão não era sua maior virtude. Um tempo depois, solteiro, estava saindo constantemente com um casal de amigos e namorados entre si. Conversávamos, bebíamos, ríamos e voltávamos para casa. Cada um para a sua, lógico. Mas certo dia, o namorado (da minha amiga, bem entendido), ficou sem carro e fomos todos no meu automóvel. Chamo de automóvel pois ele se move independente de uma força externa, mesmo que às vezes precise de uns empurrõezinhos para se lembrar como faz isso. Cumprimos o ritual noturno e voltei dando carona para o casal. Como a casa do amigo era mais próxima do bar que a casa da amiga, deixei-o primeiro e logo depois fui deixá-la. Na entrada do prédio, para minha surpresa, ela contou que estava desiludida com o relacionamento. Perguntei o motivo. Ela disse que ele não era capaz de proporcionar orgasmos quando faziam amor. -Vocês fazem amor? - Perguntei, em minha infinita cretinice. -Mas que coisa! Eu gosto mais de transar. Sempre achei que fazer amor é transar com o objetivo de conceber crianças. Prefiro fazer um sexozinho animal. É mais divertido. - Eu estava tentando descontrair o ambiente, fazê-la parar com aquelas confissões inconfessáveis sobre meu amigo. Detesto saber da intimidade dos outros. Acho desgastante. - Quer subir para tomar um café? - Epa! Meu instinto masculino entrou em estado de alerta. Mulher que oferece café, de madrugada, a um homem solteiro, logo após uns birinaites em um botequim, não está querendo somente ser gentil. Mas ela era namorada de um amigo e não me preocupei. Subi, transamos, não consegui também proporcionar um orgasmo, desci e fui-me embora. No outro dia, ainda sob influência da amiga que gosta de sinceridade, contei tudo para o namorado traído. Para resumir o fim da história, ele não era mais namorado, ela não era nem namorada nem amiga e eu não tinha mais o rosto sem hematomas. Uma semana após o infeliz incidente, estava dolorosamente apoiando o rosto nas mãos em uma praça de alimentação de um Shopping vendo a vida passar, quando encontrei um ex-colega de universidade. Falamos um tempo sobre coisas que não interessavam nem a mim e muito menos a ele. Perguntado sobre o motivo do olho roxo e da pele cortada, contei a história. Não citei nomes. -É mesmo? Que coisa! Isso também está acontecendo comigo. Lembra da Edilene? Ela está casada com o Marçau e transando comigo. O pior é que eu acho que não é só comigo. Aquela mulherzinha é insaciável. E meu ex-colega contou mais algumas aventuras amorosas antes de ir-se embora. Fiquei matutando com o botão da minha calça. Poxa, coitado do Marçau. Eu pelo menos contei a verdade e ficou tudo em cartas limpas. Não tive dúvidas. Descobri o telefone do Marçau e contei o que sua mulher estava fazendo. A sinceridade é linda, diria minha amiga. Uns dias depois, fiquei sabendo que Edilene e Marçau haviam se separado e que meu ex-colega da universidade estava me procurando. Queria me matar! A vida é um aprendizado, diria um filósofo qualquer. Aprendi que se quisesse ser sincero, deveria ter contado para o amante da Edilene e ex-colega de universidade que traí minha namorada, falado para meu amigo e namorado de minha amiga que a Edilene estava traíndo o marido e dito para minha namorada que minha amiga havia tentado conseguir um orgasmo fora do relacionamento, pois dentro não estava conseguindo. Assim, minha namorada ainda seria minha namorada, meu casal de amigos ainda seriam meus amigos e o homem estaria metaforicamente avisado que as mulheres traem os parceiros e meu ex-colega de universidade saberia do meu caso extra-conjugal com a moça nada distinta, servindo como minha válvula de escape. E Marçau e Edilene ainda seriam casados. Aprendi, ainda, que muitas vezes perdi a oportunidade de ficar calado.
Ps.: escrito em 1998 |
fin |
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