Mecânico Chicão

 

A caranga enguiçou. Empurrei até a oficina do chicão. Tava sem grana pra reboque.

- assim que parou, pensei: vou pro meu mecânico!

- teu mecânico é o cacete. - retrucou chicão. - eu já troquei o óleo da tua bunda?

- calma. É metáfora.

- meta porra nenhuma. Só entendo de parafuseta, sacou?

A irritação do sujeito era visivelmente originada em algum problema pessoal. Ele vociferava.

- cara, conte o que houve. - falei. - você sabe que sou seu amigão de todas as horas.

Ele se virou e os olhos avermelhados de choro explodiam em seu rosto. Pensei que fosse se jogar desfalecido em meu peito. Mas era macho, a despeito das repentinas lágrimas. Resistiu.

- a minha mulher me deixou.

Eu sabia que era alguma merda do tipo.

- aquela vadia foi embora com um advogado. Dizia que eu não era ninguém, apenas um mecânico de bosta. - Debulhou-se. Senti dó.

- porra, chicão, quem você acha que é mais importante: um mecânico ou um advogado?

- é claro que é o dotô.

- bem, eu nunca precisei de advogado; de mecânico, ao contrário, é quase todo mês.

Minha rasa filosofia fez efeito. Chicão se levantou e atacou meu carro. Assoprou uma peça, deu umas cutucadas numas válvulas e, como um mágico em seu show final, ligou o motor que zuniu suave e regulado.

- tá vendo! - intervi. - se fosse um advogado, iria entrar com uma ação no tribunal de causas automobilísticas da vara do bambu do urubu com caju e o problema se tornaria eterno. Quanto?

 - Você paga a cerveja. - ele me olhou com a memória da ex-mulher refletida na retina. - ou as cervejas.

Entre a primeira e a segunda caixa pensei em reclamar que o conserto do carro acabara ficando muito caro. Me contentei em pensar que tudo o que gastávamos era por uma boa causa. Ele chorou e, entre um gole e outro, rememorou: "Adriana Sette, você era uma filha da puta, mas trepava como ninguém."

Algumas semanas depois o encontrei no mesmo bar. Estava excitado.

- uma dona foi à mecânica para arrumar uma bobagem. Solteiro, joguei um charme. Ela topou. Entramos no escritório e mandamos brasa. A mulher é uma dama, mas adora uma sacanagem. Apareceu toda tarde na loja e me sugou até o caroço. Ela fala sobre fetiches e o escambau. Tô apaixonado.

Bebi a primeira dose. A pressa na confissão me deixara aturdido.

- e seus filhos? - chicão foi casado com a vadia da ex por dezessete anos. Têm um casal de gêmeos. Uns meses atrás o garoto se meteu com o mala da região. Tomou uns cascudos, foi ameaçado de morte. O mecânico teve medo do marginalzinho. Pensou até em sumir de Brasília. Eu me meti.

Não foi difícil encontrar o sujeito. Era um garotão de dezenove anos, com revólver na cintura e pose de malandro. Achava que sabia das coisas mas era apenas um ignorante, um típico pé-de-chinelo. Tomei umas cervejas no quiosque ao lado da estrada federal em que ele e seu grupo extorquiam bebidas. Até ofereci uns goles de cachaça quando ria com alguma besteira que falavam. O mala que eu perseguia foi o primeiro a beber. Achou que eu estava bêbado e imaginou que poderia obter lucro comigo. Paguei vários drinques, deixei que rissem da minha inocência. Enchi a última dose de uísque, com bastante gelo, e a ofereci ao bandidinho. Ele já demonstrava a arrogância dos idiotas: nem agradeceu. Talvez quisesse me informar que merecia mais aquela bebida que qualquer outra pessoa, era superior, já se sentia no mundo do crime. Estava certo, no fundo. Eu havia colocado veneno Mão Branca no copo. Dissolvia melhor em álcool. O sujeito dobrou as mãos na barriga e atravessou a pista para vomitar. Foi atropelado por um caminhão. Morreu ali mesmo. Nem me deu o trabalho de fingir levá-lo ao hospital com minha camionete para sumir com o corpo. Pensaram que ficou mal por conta da bebida. Esta era a arte do meu ofício de matador de canalhas.

- já a conhecem. Adoraram! - sorriu.

- então qual o problema?

- não tem problema. - Chicão serviu-se de cachaça e depois encheu meu copo. - vou me juntar. A dona é bem de vida. Vamos morar na casa dela. - suspirou. - será bom para meu filho, ficar longe daquele lugar. - ele nunca soube o que fiz, era parte das regras de segurança que me mantinham longe da lei.

- parabéns, meu caro. - brindei.

- preciso da sua ajuda.

- pode falar.

- a ex voltou. Me pediu desculpa. Disse que a chamaram de piranha, de mulher de mecânico, de burra, de alpinista social. Ela nem sabe o que é isso, é burra mesmo. Não quero mais olhar para ela, mas é a mãe dos meus filhos.

- que quer que eu faça?

- me arruma um advogado!

Sorri. Soltei o ar que estava preso no pulmão. Era só isso? Supus que ele tivesse descoberto alguma coisa sobre o tal malandro e quisesse que eu agisse novamente, porém de forma vingativa e cruel, não como o justiceiro altruísta que me imaginava. De acordo com minhas regras, deveria reverter a vingança injusta àquele que a promovia.

- na hora. - respondi. - faço qualquer coisa por você, meu amigo. - cocei o queixo revendo minha afirmação. - qualquer coisa é uma metáfora, você entende.

Ele riu.

- sim, claro. Eu jamais pediria para trocar o óleo da tua bunda.

fin

Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca

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