Inundação no Lago Paranoá Chuvas em janeiro, coisa normal na cidade. Mas as chuvas não pararam. Entraram em fevereiro e março. Muita água. O lago Paranoá começou a subir. - Saiam dos clubes! - Gritavam os salva-vidas. - Oh não! Esqueci meu balde de areia! - Lembrou-se um moleque no Iate Clube. - Não há mais tempo, jovem, logo ele será tragado pelas águas do lago. - Consolou-o um bombeiro militar. Os candangos, inicialmente, não se intimidaram. - Que faremos? - Eu sei o que fazer! - Respondi. - Vou parar de pescar! - Como é? - Já era difícil achar peixes no lago. Agora que aumentou a água ficará impossível! Minha solução não foi importante. As águas continuaram subindo. Atingiram as casas das penínsulas. - Ao menos não preciso mais regar minhas azaléias! - Pensou uma dona no Lago Norte. - Pô, os jacarés irão fugir do meu espelho d'água. - Chateou-se um deputado do Mato Grosso no Lago Sul. - Glub, glub, acho que tá na hora de sair daqui! - Tentou falar um morador da ponte Costa e Silva. A água do Paranoá alcançou a L2. Já tinha engolido a Unb, a Academia de Tênis e a Esplanada dos Ministérios. Perdemos cultura, diversão e outras coisas que não importam tanto. Os apartamentos das Asas estavam lotados com os refugiados das Penínsulas e de outros locais à margem do lago. - Não se preocupem! - Explicava um síndico. - A cidade é plana. A água só atingirá até os primeiros andares. - E a gente? - Perguntou o líder dos porteiros, ali reunidos. - A gente mora no térreo. - Mudem-se para as coberturas! - Finalmente reconheceram nossa importância! - Disse o Evangelista, que além de porteiro era vigia de garagem. Entediados, os brasilienses organizaram competições de caiaque pela Esplanada, aproveitando os declives ao lado do Congresso como cachoeira. Era a parte radical do esporte. As chuvas aumentaram e logo toda a extensão da cidade estava submersa. Os carros foram trocados por lanchas, barcos à vela e até jangadas, montadas com colchões e almofadas de sofás. - Vou à padaria. Cadê o remo? O cotidiano da cidade se alterou. A diversão da molecada não eram mais as peladas nos gramados da cidade e sim os mergulhos em garagens. Com lanterna e tudo, pois a cidade estava sem energia elétrica. Os habitantes se acostumaram a se encontrar nas coberturas dos prédios para partilharem os alimentos e o tempo. - Hei, cuidado. Isso é a minha sala de estar! - Reclamou o seu Antônio, porteiro bem velhinho que estava adorando dormir na cobertura. Os edifícios se adaptaram ao novo mundo: construíram portos para a ancoragem de barcos. O governo editou uma medida provisória mudando a vestimenta padrão de terno para sunga e de taileur para biquíni. As gordinhas podem usar também maiôs. Surgiu novamente o sol, em meados de maio, porém o nível de água do Paranoá manteve-se o mesmo. O lago mudara de tamanho. - Já sei o que fazer! - Anunciei! - O que? - Olharam-me entre desconfiados e esperançosos, a maneira como me olhavam sempre. - Como a cidade está toda alagada e não vai voltar à antiga forma, vou pescar da janela do meu apartamento! - Expliquei. Alguns me olharam irritados. - Mas tem um problema! - Continuei. Os que me olharam irritados ficaram confusos. - Não sei onde vou achar as minhocas para botar no anzol. Tá tudo alagado! - Lembrei. |
fin |
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