Guarda bacana

 

Eu acelerava tranqüilamente a moto, sentindo o vento riscando minha jaqueta de couro. Vi a blitz no posto policial de longe. Um guarda alto e encorpado acenou para eu encostar. Parei e entreguei os documentos: minha carteira de motorista e o registro da moto.

- Você sempre anda com o farol apagado? – Perguntou o guarda.

Olhei para a luz do painel da moto.

- É, tá apagada. – Empurrei o botão e o farol acendeu. Iluminei o dia, eram nove da manhã.

- Você será notificado! – Anunciou e correu para dentro do posto policial.

Eu o segui, cansado.

- Vou receber uma multa por estar com o farol apagado? – Eu não havia entendido direito.

- Você sabe muito bem que deve andar com o farol aceso. – Disso o guarda, petulante.

Não questionei a lei, ela é mesmo idiota. Porém o guarda estava agindo com excesso de preciosismo.

- Eu sempre ando com o farol aceso. – Justifiquei. - Alguém pode ter mexido no painel.

- Não importa, vai ser notificado.

Abaixei a cabeça, amuado.

- Qual o valor da multa? – Comecei a calcular meu prejuízo.

- R$ 483,00.

- Hein?

- E você terá sua Habilitação apreendida? – Ele falou com um leve sorriso nos lábios. – É uma infração gravíssima!

- Tudo isso por que eu tava com o farol apagado?

- Você sabe muito bem que deve andar com o farol aceso! – Pegou um código de trânsito todo surrado e apontou um artigo. – Veja aqui...

Nem dei atenção à argumentação do guarda. Por mais correto que ele estivesse ao cumprir a lei, deveria ponderar a verdadeira necessidade de sua imposição.

Sai do posto e fiz como Paulo Coelho: sentei à beira do caminho e chorei. Outro policial se apiedou de mim, ou não agüentou ao ver um marmanjo do meu tamanho aos prantos, e intercedeu junto ao guarda que me multou.

Depois de um sabão, fui liberado sem multa e ainda com minha Habilitação na carteira. Segui acelerando pelo asfalto e cheguei ao trabalho. Uma denúncia de invasão de área pública me fez vistoriar uma grande loja de lingeries no centro da cidade. Notifiquei o estabelecimento e o intimei a demolir a invasão.

- Você querer resolver problema, non? – Perguntou o turco dono da loja. – Eu falar com sobrinho, político forte.

De tarde o sacana já tinha uma autorização ilegal para ocupar a área. Era treta, mas ela vinha de cima e não pude fazer nada.

No meio da tarde outro evento me tirou do tranqüilo vislumbre da janela da minha sala. Uma ação surpresa despejaria vários invasores de uma área residencial. Despencamos para o local, auxiliados por um caminhão da administração, seis trabalhadores braçais, oito policiais militares e quatro fiscais.

A retirada seria de dois barracos de um cômodo, apoiados fragilmente um ao outro, próximos a uma área residencial muito pobre. Quando viram a polícia e a fiscalização, os moradores se desesperaram. Sabiam que seriam despejados, ficariam sem um teto para morar.

Com a dose necessária de truculência os barracos foram jogados ao chão e os dois chefes de família foram presos, pois tentaram impedir a destruição de suas casas. Passaram a noite em cana, ao lado de bandidos escolados no crime.

Voltei para casa pensando no disparate social. Quem tem grana consegue até mudar as normas. Quem é pobre toma porrada e vai preso, pois alguém tem que ser preso para validar a existência da Justiça.

Passei mais uma vez pelo posto policial. O guarda parrudo mandou que eu parasse novamente.

- Tá com o farol aceso, né?! – Falou com ironia na voz. Nem respondi, esperei para ver o que ele queria. – Aprendeu que a polícia é bacana! – Concluiu, soberbo.

Bacana? O filho da mãe quis me multar por uma bobagem, pagou um grande sapo e agora quer tirar onda de gente boa?

- É! – Concordei. – O problema, na verdade, tá nas pessoas.

O guarda, estúpido, me cumprimentou e fui embora. Deve ter pensado que concordei com ele, mas eu quis dizer que os entraves que encontramos sempre são causados por pessoas idiotas, desvirtuadas ou simplesmente desonestas.

Idiotas. O mundo tá cheio deles. O chato é ver esses idiotas pensarem que são importantes socialmente ou, no mínimo, partes do conjunto. Na verdade eles não passam do refugo da civilização. São simplesmente etapas na evolução humana, grupos de energúmenos que não servem para nada.

São como o guarda que se acha bacana.

 

fin

Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca

<Voltar