Desespero na Boate

A manchete: Desespero na Boate. Mil pessoas fugiram apavoradas de um baile funk no Gama quando um bandido encapuzado puxou duas armas e disparou contra a multidão. Dois mortos e quatro feridos.

- Tantas informações erradas... – Resmunguei. Peguei o capuz ainda manchado de sangue e o joguei na churrasqueira.

A polícia achava que era acerto de contas entre traficantes, os mortos tinham passagem pela delegacia. Nunca descobririam que eram os donos do pitt-bull que matou a filha de Flávia.

Ela chegou até mim através do anúncio na internet num fórum sobre legítima defesa. Fez contato por email, ressabiada, não queria confusão com a polícia. Era servidora pública, o anonimato seria essencial.

- Vou pesquisar suas informações. – Avisei no primeiro contato telefônico.

Confirmei a história nos processos do Tribunal de Justiça. A mulher e a filha brincavam no parquinho da rua, bem distantes dos dois idiotas que passeavam com o cachorro sem coleira. De súbito, o cão correu diretamente para o pescoço da menina. A mãe lutou como uma guerreira, chegou a rasgar a orelha do cachorro. Os donos fugiram. Um vizinho apareceu com um revólver e explodiu a cabeça do cachorro. Mas era tarde, a garota estava morta. O vizinho quase foi preso por posse ilegal de arma de fogo.

A mãe descobriu a quem pertencia o cão e informou a polícia. Não tinha, contudo, provas da propriedade. Os rapazes foram processados, o caso estava no tribunal, mas era apenas uma pasta esquecida na gaveta do preguiçoso sistema judiciário. A mãe queria justiça. Eu também.

- Vou fazer o serviço. – Avisei por telefone.

- Não. – Ela retrucou. – Eu é que vou. – Estava clara e decidida. – Você vai me ajudar.

- Eu – Sorri enquanto respondia, gostei da segurança. – não trabalho assim.

Ela não respondeu. Parecia ponderar.

- Então indique quem possa me ajudar.

- Você quer...

- Quero matar os assassinos da minha filha com minhas próprias mãos.

Estava ficando apaixonado, resolvi marcar um encontro. Dia e hora, apareceu uma figura singular. Era morena, metro e meio, seca como um graveto, a pele lisa e o cabelo enrolado. Esperava ansiosa. Aproximei-me.

- Oi.

- Agora não, garoto, tô ocupada. – Dispensou-me de bate-pronto, diminuindo-me a “garoto”.

- Não parecemos quem somos. – Resmunguei. A voz saiu rascante. Ela arregalou os olhos ao perceber quem eu era; usava bermudas abaixo dos joelhos, havaianas, camiseta escrito “eu te amo” e um boné meio de lado sobre os óculos escuros. Meus olhos me denunciariam a idade, madura, diferente do pós-adolescente grandalhão que estava parado em frente à mulher, mascando chiclete e dispensando qualquer suspeita.

- Você...

- Vou te ajudar. – Interrompi. – Já tenho até um plano.

No cerrado, entre Planaltina e Sobradinho, ensinei Flavia a atirar, nada aprofundado, ela só precisaria acertar um tiro com cada mão. Aprendeu rápido, o desejo é o melhor professor.

Expliquei o plano. Na sexta, fomos para o Gama. Saiu do meu carro uma linda mulher, produzidíssima, loira e bronzeada, num vestido branco decotado, os grandes seios protegidos pelo espartilho. Piscou para mim e entrou na boate. Ofereceu-se para a revista mas o segurança não se atreveu. Mesmo que ousasse pousar nela as mãos, nunca desconfiaria dos seios cobertos por próteses recheadas com Berettas calibre quarenta milímetros.

Na boate, dançou com tantos garanhões apareceram para galanteá-la. Logo descobriu a gangue de suas duas vítimas. Ainda dançando, memorizou o lugar e armou o bote.

- Desculpe, gatinho, vou ao banheiro. – Beijou um cara na bochecha e sumiu. No banheiro, trocou o vestido pela bermuda com moletom que estavam enrolados em volta das armas. Tirou as sandálias e a peruca e os guardou nos bolsos. Escondeu cada arma dentro das mangas do moletom, prontas para disparar e foi para o salão.

Havíamos treinado o movimento várias vezes. Bastava levantar os braços, apontar cada Beretta para uma vítima a menos de três metros, soltar a respiração e apertar o gatilho. A pequena e poderosa pistola faria o trabalho, arrombando o peito do alvo como o buraco de um tatu. Não sobreviveriam. Na seqüência, deveria disparar mais duas ou três vezes para acertar tantos parceiros dos canalhas conseguisse. Eu não gostava desta parte, mas foi ela que assim alterou o plano.

Avistou as vítimas. Tremia. Era ansiedade, não medo. Queria ter certeza do resultado, não admitiria erro. Acalmou-se, respirou fundo. Parada no meio do salão, vestida de capuz e bermuda, descalça, armas em cada mão, temeu não conseguir cumprir sua missão. Sentia-se, agora, enjoada. Pensou em desistir, afinal, era deus quem deveria julgar e condenar, não ela, uma pobre mãe sofredora. Sabia que não mudaria em nada a morte dos rapazes, outros continuariam criando cachorros que matariam novas crianças. Sua vingança serviria apenas a si, ao seu desejo de sangue, de reparação pelo desperdício da vida de sua filha.

Pensar em sangue e depois na sua filha a fez dissipar quaisquer elucubrações filosóficas sobre o correto e o justo. Queria vingança. Guardaria os pensamentos improdutivos para depois, quando estivesse analisando o prazer de fazer as coisas por si própria.

Seguiu à risca o movimento ensaiado. Apontou as armas e atirou. Duas balas num único pipoco. Dois cadáveres. Apertou os gatilhos mais umas vezes, os atingidos ficaram apenas feridos. Não gostaria que ela os tivesse matado. Não estamos em guerra, não há baixas aceitáveis. Meu ofício é limpar as latrinas da sociedade de seus dejetos mais torpes, finalizando-os definitivamente, como instituição formal nenhuma pode fazer. Julgo e executo sem contraditório e nem ofereço defesa. O direito do bandido é a escolha de não infringir a vida. Matou, morreu. É a minha lógica. Sempre sem erros, sem vítimas, apenas a justa desforra.

Flavia andou normalmente para a porta, como combinamos, sem correria, sem agitação. Um segurança, porém, a interceptou. Não havíamos previsto isso, imaginei que na bagunça do tiroteio ninguém veria a autora, contudo o homem a segurou pelo colarinho e quase a esmurrou. Ela apontou as duas armas para o rosto do cara. Ele a soltou. Ela veio ao carro e fomos embora.

- Se o segurança não me soltasse, não sei o que faria. – Confidenciou-me mais tarde. – Eu nunca atiraria num inocente.

Acendi a churrasqueira. O cheiro do moletom queimando me deu vontade de fumar um baseado.

- Mas você atirou nos amigos das vítimas. – Murmurei. - Eles eram, a rigor, inocentes.

Ela me fitou com olhos vesgos, o pensamento ia longe. Talvez alcançasse as tais elucubrações improdutivas sobre o direito de vingança e suas conseqüências.

- Porém, – Tragou o cigarro de maconha que eu acabara de oferecer. – uma mãe desesperada é capaz de atos insensatos.

Eu nunca seria mãe, não poderia julgar aquela afirmação. As mulheres são estranhas, regidas por hormônios que se alteram todo mês, a perda da filha poderia ter um significado completamente inalcançável para mim.

- Tá com sede?

- Sim. – Tragou mais uma baforada. – Muita sede.

Servi um grande copo de coca-cola com gelo. O veneno Mão Branca, composto de chumbinho, que intoxica o sistema digestivo e faz vomitar sangue até a morte por colapso químico, guardei de volta no bolso. Iria colocá-lo no copo da mulher. Desisti no último segundo.

fin

Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca

<Voltar