A vila ama zonas
O ronco da moto está monótono. Ainda com o dia claro tenho vontade de estacionar e dormir um pouco. Mas onde parar? Olho a estrada infinita, reta, silenciosa. Plantas rasteiras ao lado do asfalto e uma vegetação rala e retorcida por centenas de quilômetros nas planícies do cerrado. Não vejo ao menos uma sombra. Bato com os nós dos dedos no galão de gasolina na garupa, para conferir a reserva. Aumento a velocidade e me preparo para mais algumas horas de estrada. Ao anoitecer, percebo no horizonte uma mudança no relevo. Vejo uma grande cadeia de montanhas coberta por uma densa vegetação. A estrada não passa por ela. Sigo-a com os olhos e vejo que ela contorna a cadeia de montanhas, sumindo ao norte. Não tendo muito o que fazer, decido acampar na floresta. Poderei até passar uns calmos dias ali. Desço com a moto para uma estrada de terra. Acendo o farol. Vejo a vegetação engolindo o caminho, na medida que vou rodando. Paro a moto e a desligo. Escuto em silêncio. Alguns barulhos de animais. O vento sibila entre as árvores. Espero mais uns minutos. O som da natureza não aumentou. Há outro intruso neste habitat além de mim. Apago a luz e desço da moto. Fico parado, tentando escutar passos ou algum rosnar. Silêncio. Ligo a moto, acelero enquanto a fumaça sai do escapamento que grita alto. Buzino e acelero várias vezes, para chamar atenção. Corro para trás de um cupinzeiro e me escondo. Olho a moto de farol aceso e o motor ligado. Procuro pelos lados e vejo um movimento vindo do mato no outro lado da pista. Ele caminha mansamente, está seguro de si. Vejo que está só. Analiso-o e mesmo com o cair da escuridão, percebo que ele está sem nenhum ferimento. Parece estar bem consciente também. Noto que ele se esconde do farol da moto, que aponta para o meu lado. Ouço um rosnado contido quando chega perto o suficiente para atacar. Ele pula sobre a moto. O morto-vivo tenta morder o tanque. Não consegue. Coloca a mão sobre o motor. Imagino que não sente que está quente, pois logo que vê a fumaça subir dos dedos queimados, ele puxa a mão e a examina. Saio de trás do cupinzeiro já brandindo o facão. Eu o afiei dos dois lados e fortaleci o cabo com fitas de borracha de pneu. Ando abaixado, esgueirando-me até chegar perto do morto-vivo. Ele me nota e se vira. Tento cortar-lhe a cabeça, mas o talho no pescoço não alcança o osso. O sangue jorra em cascata. Tento bater novamente o facão, mas ele levanta os braços e se protege. Ele avança contra mim. Tenta segurar meu rosto. O morto agarra o facão. Puxo-o para soltar e sinto que decepo-lhe alguns dedos. Levanto o facão para bater novamente no pescoço, mas ele se protege mais uma vez. Esse é do tipo inteligente. Como ainda está fresco, tá sendo bem difícil de matar. Cravo o facão no braço do morto. Ele continua tentando me segurar e me morder. Ele é muito forte. Bato mais uma vez em seu braço e o arranco. Mais sangue. Rasgo o ar com o facão e o cravo no pescoço do morto-vivo. A cabeça fica presa apenas por alguns tecidos. Ainda assim ele avança, mancando e desengonçado. Corto os últimos pedaços de tecido que prendem sua cabeça. O corpo desaba junto. Lembro quantas vezes fugi de mortos-vivos inteligentes antes de aprender que eles lutavam para manter a própria existência enquanto tentavam comer os vivos. Diferentes dos outros mortos, que simplesmente atacavam sem nenhum regra, os mortos inteligentes entendiam que deveriam preservar o próprio corpo para conseguir se manter naquele estágio de vida. Estágio de vida. Ainda não sei direito como aconteceu, mas depois que li os registros na biblioteca do Senado, acho que já posso entender. Tudo começou com o pulso. Ninguém sabe de onde veio: se foi de origem extraterrestre ou uma reação da natureza que os humanos ainda não haviam experimentado, mas o planeta sofreu pulsos de energia em todas as aglomerações humanas. Cidades, vilas, lugarejos, em qualquer lugar onde milhares de pessoas estivessem reunidas, um pulso energético explodiu. A onda magnética alcançava dezenas de quilômetros ao redor e infectava todas as pessoas. Não destruía nada, embora o choque sísmico de cada pulso tenha provocado pequenos abalos. As pessoas ficaram apenas enjoadas a princípio. Menos de três horas depois estavam suando, tendo ataques nervosos, quase morrendo. Cinco horas depois do pulso, a morte. Bilhões de pessoas no mundo morreram. Os bilhões restantes estavam desesperadas. A morte dessas pessoas não foi, na verdade, a morte como a conhecíamos. Era uma espécie de morte. Um estágio de vida. Irreversível como a própria morte. O indivíduo perdia totalmente a consciência e agia com um único objetivo: sobreviver. Ele não sentia dor, fome, medo, nada. Sentia apenas a necessidade de viver. Para isso, se alimentava. Os documentos do Senado diziam que havia uma cadeia de raciocínio instintivo entre os mortos vivos. Eles queriam sobreviver como os próprios vivos. Tentando tornar-se vivo, o morto agia com a mesma lógica de um ameba, devorando aquilo que compõe o próprio corpo para manter sua vida. As pessoas que foram infectadas no pulso devoravam as pessoas vivas tentando tornar-se como elas novamente. Tivemos uma luta vã! Não conseguimos derrotar os mortos. Eu achei que teríamos chance de vencer. Lutei com ferocidade. De nada adiantou. Os mortos não se cansavam, não precisavam alimentar o corpo, não sentiam dor, não dormiam. Toda vez que um vivo levava uma mordida, em cinco horas morria e acordava doze horas depois com uma fome insaciável. Se não fosse devorado no local, é claro. Não dava para lutar contra isso. Durante algum tempo revi minhas ideologias e considerei duas hipóteses sobre essa maldição: o fim dos tempos, com os mortos andando sobre a terra como punição para os infiéis de algum deus vingativo; ou a arma final da raça que criou os humanos. Ponderei que talvez a vida na Terra tivesse sido uma experiência biológica alienígena. Alguma coisa deu errado e eles não se interessaram mais pela experiência. Talvez tivessem ido embora ou ainda estivessem nos monitorando, mas deixaram um anticorpo no planeta contra a espécie que dominou as outras, os humanos. O morto levanta e destrói o vivo até que todos estejam mortos. Não há precedentes na biologia sobre outro elemento tão auto-destrutivo. Escuto a natureza por alguns minutos. Um grilo pula perto de mim. Algumas pererecas coaxam ao meu redor. Vejo o vulto de algum animal perambulando no mato. Sou o único intruso, os outros animais estão calmos. Pego o saco de dormir no alforge da moto e o estico sobre uma moita de capim-gordura. Deito em cima e percebo que está bem macio. Acendo duas fogueiras, uma de cada lado da estrada, para espantar os animais. Sei que o cadáver do morto, finalmente morto, vai repelir os bichos, pois há algo nele que eles sentem e detestam, mas gosto de sentir o calor de uma fogueira. Encosto o cadáver sem cabeça e sem braço na roda traseira da moto, para usá-lo como mesa. Boto uma garrafa de cachaça presa em seu braço. Preparo uma refeição com queijo, carne seca e pão. Como e bebo a cachaça brindando com o cadáver. - Segura a garrafa para mim, meu caro. Vou dormir! Escuto o cadáver se mexendo. Assustando, abro os olhos mas o breu me confunde. Tenho que piscar várias vezes para saber se abri realmente os olhos. O céu está nebuloso, sem lua. As fogueiras estão apagadas. Apagadas? Levanto a cabeça a tempo de ver a bota acertando minha testa. Acordo. Tenho uma fome terrível. Abro os olhos mas tudo continua escuro. Tento me mexer mas não sinto meu corpo. Sei que estou me movendo. Estou apavorado. Tento me mexer com todas as forças. Tento sentir minhas mãos. Não tenho reação, porém sinto o suave movimento de um caminhar. Estou andando. Cego, surdo, sem controle dos músculos. Fui infectado. Sou um morto-vivo. Penso no que fazer. Devo seguir meus instintos de sobrevivência ou sucumbir finalmente à morte. A derradeira morte, bem entendido. Por algum tempo fico confuso, mas sigo meu lema de vida e decido deixar como está para ver onde as coisas me levarão. Relaxo. Fico calmo e procuro meus sentidos. Tento achar aquilo que me fará sobreviver. Li nos documentos que os mortos tem um sexto sentido para reconhecer a vida humana. Eles - ou nós - nem se importam com animais, insetos ou qualquer outro objeto. Apenas com o humano vivo. Também nem se apercebem de outros mortos. Estou pensando. Se estou pensando, alguma coisa está errada. Sinto uma dor aguda no saco. Ele está sendo comprimido e puxado. A dor passa pelo cu, sobe na espinha e atinge o pescoço. Não consigo respirar. As veias das minhas pernas queimam. A lava que corre por minhas veias atinge os braços e os dedos. A dor é forte, não consigo respirar. Aspiro com força e o ar entra rasgando nos pulmões. Tento absorver a queimação que passa para os músculos e se dissolve na pele. Respiro novamente. Sinto que vou melhorar. Algum tempo depois, abro os olhos. Estou numa cela. É de alvenaria e há grade na janela quadrada e na porta. Uma sala de dois metros por três. Estou deitado num papelão no chão. Peladão. Estou enjoado. Vomito ao lado do papelão. - Hei, - Uma voz de mulher - você é quem vai limpar essa merda, hein! Vomita no vaso. Vejo um vaso e uma pia no canto da cela, aos meus pés. Meus pés estão limpos e com as unhas cortadas. Olho minhas mãos e vejo que também estão limpas. Passo a mão no rosto e sinto que estou barbeado mas me deixaram o bigode. O bigode? Ele está grande mas bem aparado. Desce sobre as laterais da minha boca. Sinto os cabelos com as mãos. Eles estão penteados para trás e amarrados na nuca. Retiro o prendedor e refaço o penteado. Alguém me limpou, cortou minhas unhas e deu-me novamente uma aparência respeitável, mas de bigode. - Oi. - Chamo a mulher. - Por favor, quem está ai? Uma mulher de vestido azul e botas aparece na porta da cela. Peitos grandes e cabelo loiro falso. - A donzela acordou? - Onde eu tô? Por que tô preso? - Balbucio. A mulher sorri e olha para meu baixo ventre. - Você não sabe de nada, não é? - Não. - Bem, vai continuar sem saber. Tome um banho que vou trazer uma toalha. - Estou passando mal. - Não está não. Aquilo foi reação ao remédio. Você já deve estar melhor. Na verdade eu já estava perfeitamente bem, mas não achei que fosse me recuperar tão rápido. Olhei as feridas nos braços e nas pernas. Anos de quedas de motos e lutas contra cadáveres. Pareciam estar menos avermelhadas. - Que remédio? - Era um coquetel anti-bactéria, anti-fungo, anti-infecção, anti uma porrada de coisa. - Por que eu tô preso? Ela fecha a cara. - Eu já não disse para você tomar banho? - A voz era realmente autoritária. Tomei banho e me enxuguei com a toalha. Vesti uma camisão que ela me trouxe, parecia uma mini-saia. Eu a examinava quando a carcereira voltou, acompanhada de duas outras mulheres. Uma de saia jeans e camiseta e outra com um terninho bege. - Ele é forte. - Disse a de saia jeans. - Sim, mas não é muito bem dotado. - Disse a loira, minha carcereira. - Eu conferi quando ele foi capturado. - Riu-se. - Acho até que desmaiou quando eu estava fazendo a revista no seu saco. - Hei. - Falo. - Ele tava pequeno porque o chão tava frio. - Sorrio por dentro. - Ele vai lutar com as mãos ou com armas? - Disse a de saia jeans. - Quantos mortos estão guardados? - Perguntou a loira. - Muitos. - Disse a de jeans. - Quantos quisermos. - Ela pensou por instantes. - Ele pode lutar com armas. É mais divertido. A gente coloca três mortos de uma vez. Ele parece que dá conta de enfrentar três de uma vez. - Olhou para minhas pernas nuas. - Tem pernas fortes. - Olhou para o meio das minhas pernas. - E se não é bem dotado, não será bem recebido. Levantei o camisão e exibi meu membro. Elas o olharam sem mudar de expressão. - Isso daqui tá bom para vocês? - Perguntei. - É, é melhor deixa-lo apenas para a arena. Arena? As mulheres saíram. Estou só na cela e olho para meu pênis. - Acho que elas não gostaram de você, amigão. - Calma. - A voz veio da porta. - Se você for divertido, será aproveitado. - Era a mulher de saia jeans. Ela tinha cabelos pretos lisos. Por volta dos 30 anos. Esbelta mas não magra. - Eu sou divertido! Quer ouvir uma piada? - Falei. - Eu já me diverti. - Ela falou apontando meu pênis. - Porra, quer parar de dizer que tenho o pau pequeno. - Você não tem o pau pequeno. Ele é do tamanho normal. Aqui separamos apenas os membros gigantes. Os outros vão para a arena. - Que arena? - Você vai lutar contra alguns mortos. Se vencer, permanece vivo. - Se perder eu morro, é claro. - Vencendo, - Continuou a mulher de jeans. - alguma garota poderá até querer cuidar de você até a próxima semana. - O que haverá na próxima semana.? - Outra arena. - Ela falava com a voz suave. Não tirava os olhos do meu pênis. Colocou a mão entre a saia e acariciou a vagina. Olho para ela excitado. Ela passa a mão sobre os seios e levanta a camisa. São espetaculares. Sinto a reação no baixo ventre. Ela sorri. Vai embora. Deito-me para dormir. Espero que tudo se esclareça amanhã. - Coma para ficar forte! - Gritou a loira enquanto jogava uma vasilha de madeira na minha cela. - Hoje tem arena. Quero que você faça bonito. Como as bananas e o queijo. - O que tá acontecendo aqui? - Pergunto, com a voz ainda grossa de sono. A loira abre a cela e entra. Tranca novamente a grade e encosta na parede. - Presta atenção. - A loira inspira. - Vou te contar tudo. - Qual seu nome? - Eu a interrompo, fazendo meu olhar mais charmoso. - Lilith. - Ela responde, ajeitando a cabeleira por trás da orelha. - Cada uma de nós se apelidou com um novo nome. - Olhando-me com calma, inspira e fala novamente. - Depois do dia da morte... - Quando os mortos andaram? - Sim, o dia da morte. - Li em documentos que houve um pulso eletromagnético que... - Cala a boca. - Ela falou. - Quer ou não ouvir a nossa história? - Assenti e ela continua. - Depois do dia da morte e nos caos que se seguiu, muitos grupos se uniram tentando proteger suas famílias e seus conhecidos. - Ela olha para meus braços. - Pelas suas cicatrizes sei que você lutou contra eles. Assenti novamente, baixando os olhos. - Muitos grupos perdiam a luta contra os mortos pois eram traídos pelas pessoas fracas de cada grupo. Sempre havia alguém que não cumpria sua tarefa. - Ela fecha os olhos. Parece lembrar de dias atrozes. - Normalmente eram os homens que descumpriam suas tarefas. Os homens também brigavam muito entre si, querendo mostrar masculinidade ou sei lá o quê. - Lilith cruzou os braços. - Algumas mulheres líderes desses grupos se uniram e expulsaram os homens do clã. Decidiram que nos defenderíamos sozinhas. Um grupo armado só de mulheres? Eu já havia visto vários grupos de pessoas que se uniam para proteger fazendas, super-mercados e até prédios de apartamentos. Elas tentavam sobreviver nesses lugares ajudando umas às outras. Cada grupo nunca durava mais que seis meses. As brigas internas e as traições eram constantes. Eu mesmo logo aprendi que é melhor me proteger sozinho que me unir num grupo onde não sei quais serão as reações dos outros. - Vocês são as Amazonas? - Pergunto com ironia na voz. A loira desabotoa o vestido. Ele cai sobre a vasilha de frutas. - Você é mesmo divertido. - Ela se abaixa e segura meu rosto. - Bem que Nefertiti me contou. - Nefertiti é a de cabelo preto liso? - É. - Ela beija minha boca. Enfia a língua entre meus dentes. Correspondo. Fui praticamente estuprado. Não ofereci resistência, é claro. Posso até dizer que colaborei para o crime, mas quem negaria uma transada depois de quase um ano de abstinência? - Foi bom para você? - Pergunto, gargalhando por dentro. - Você realmente é divertido. Principalmente para que vai lutar contra três mortos ao meio dia. A loira me estupra novamente. Veste-se e sai da cela. - Você vai me ligar? - Pergunto, choroso. Escuto seus passos saindo da casa. Corro até a grade e procuro alguma falha. Nada. Olho para fora da casa, procurando outras celas ou alguém para me ajudar. Nada novamente. Penduro-me na pequena janela quadrada e olho para fora. Só o mato da floresta e o caminho de terra por onde a loira foi embora. Forço as barras da grade da porta, mas elas não vergam nem milímetros. - Li gibis do Conan demais. Sento-me no papelão e espero. Algumas horas depois escuto passos de várias pessoas. São muitas mulheres, com diferentes trajes. Elas falam entre si e me provocam. Algumas passam a mão na minha bunda e no meu pau. - A Lilith disse que se você vencer hoje, vai pedir para cuidar novamente de você. - Diz uma senhora com os peitos caídos. Ela segura minhas bolas. - Eu também vou querer ficar com você. As mulheres me levam para o quintal de uma grande casa de engenho. Vejo que o local deve ter sido uma grande fazenda de cana-de-açúcar. Há mais de duzentas mulheres gritando e brandindo armas e facas. Uma garota bem novinha chega perto e bate com uma colher na minha testa, exatamente onde havia eu levado a botinada da loira. Gemi. - Ih, esse medroso aqui não vai dar nem pra saideira. - Ela grita, sorrindo. Procuro outro homem e não vejo nenhum. As minhas condutoras me largam no centro do curral. São vários compartimentos, separados por porteiras. Em alguns há vacas e bezerros. Em outros há mortos, presos pelos pescoços com uma grossa corrente. Na parte da frente do curral, dezenas de mulheres se amontoam gritando e apostando. A garota bem nova tira meu camisão. Fico pelado em frente a dezenas de mulheres exaltadas e excitadas. Nem me importo. Depois do pulso, nada mais me surpreende. - Garotas! - A voz vem do alpendre da casa, um pouco distante, mas com visão privilegiada do curral. - Esse é o nosso novo homem. - As mulheres escutam com atenção a mulher que grita. Aperto os olhos e vejo que é a mesma que ontem me visitou na cela e não falou nada, a do terninho. - Apresento Bigode, - Como? - o homem do disfarce. Homem do disfarce? Bigode? Estou pelado na frente de dezenas de mulheres e sou chamado de Bigode? As palmas e os gritos me animam um pouco. Reverencio as damas. As que estavam atrás de mim gritam "gostoso" e "hoje você é meu". - Bigode, - A líder continua. - é um guerreiro experimentado. Enfrentará três cadáveres. - As mulheres gritam de satisfação. - Sem armas! Um breve silêncio me deixa assustado. Em uníssono, todas gritam. Uma grande algazarra de apostas. Fico apreensivo. Já lutei contra três cadáveres, sem armas, não tive dificuldades. Por que elas ficaram amedrontadas? Algumas mulheres correm até o curral onde estão os mortos. Vejo que separam três cadáveres usando grandes varas de bambu com laços na ponta. As porteiras são abertas e os três mortos correm para cima de mim. As mulheres ficam em silêncio, apreensivas. Elas são diferentes dos homens; eles estariam gritando palavrões. Abaixo quando o primeiro chega até mim. É um homem da minha idade, bem musculoso. Derrubo-o com o ombro e tento quebrar seu crânio com o calcanhar. Piso quatro vezes mas não consigo. O segundo morto é uma mulher com roupa de corrida. Ela é ágil. Empurro-a pelos ombros sobre o terceiro morto, um rapaz alto e magro. O musculoso levanta. Chuto-o com uma voadora. Pego a loira novamente e a derrubo sobre o rapaz. Entendi porque as mulheres estão apreensivas. É muito difícil quebrar o crânio de uma pessoa apenas com as mãos. Quando lutei desarmado contra mortos-vivo eu queria apenas me livrar deles, não matá-los. Tenho que traçar uma estratégia ou os mortos me atacarão até eu cansar de espancá-los. Corro para o ponto mais distante dos mortos, beirando a cerca. O que me alcança primeiro é o musculoso. Acerto seu joelho com um chute e ele cai. Seguro-o pelos cabelos e bato com sua cabeça numa grande pedra no chão. Na primeira batida a pele se abre. Na segunda sinto o crânio rachando. Na terceira a cabeça implode como um ovo rachado. A mulher chega perto. Seguro-a pelo pescoço e a levanto sobre mim com um golpe de judô. Jogo o corpo de cabeça contra a pedra. Ela fica do jeito que cai. O magro alto me olha com receio. Ele está com medo. Não gosto de vê-los aprendendo alguma coisa, muito menos sentindo alguma coisa. Parece-me a perversão da maldade. Pulo e acerto o pé em sua barriga. Ele cai. Corro por trás do morto e seguro sua cabeça. Torço o pescoço. Sinto-o quebrando. Torço para a esquerda para acabar de arrebentar os ossos. Seguro a cabeça e furo os olhos do morto. Grito de satisfação. Levanto o cadáver e o equilibro em pé. Sua cabeça pende sobre o peito. Bato palmas e ele vem andando para mim. Levanto os braços e grito novamente. Dominei os mortos e agora me divirto com eles. Faço meu show particular. As mulheres me olham caladas. - Violência exagerada! - Grita a mulher na varanda. - Os homens não aprendem que as mulheres gostam de sutileza. - Algumas riem. A maioria continua me olhando feio. - Peguem mais três cadáveres! - Ela ordenou, olhando-me nos olhos. - Será que você aprendeu alguma coisa? Uma mulheres empurram os novos mortos para o curral. São três mulheres os zumbis: uma senhora gorda, uma jovem loira e um garota magra. Detesto matar crianças pois sempre exagero no golpe fatal. Não sei o que fazer. A garota vem correndo para cima. Dou um passo para o lado e mantenho a perna no caminho. Ela tropeça e cai. - O que devo fazer? - Grito para a mulher da sacada. - O que deve ser feito. - Ela responde. Pulo e caio com os dois pés na nuca da garota. O pescoço quebra mas eu tropeço e vou ao chão. A jovem pula em cima tentando morder minha cara. Eu a seguro pelo pescoço e sinto suas unhas arranhando meus braços e meu peito. A senhora gorda abaixa-se calmamente tentando me morder como se eu fosse um doce pudim. Chuto o seu maxilar. Ela nem sente a pancada e tenta morder meu pé. A jovem, histérica, baba no meu olho. Não estou conseguindo mantê-la longe da minha cara. A garota que quebrei o pescoço se arrasta para cima de mim. Sua cabeça pendurada mexe os maxilares como se mastigasse algo saboroso. Ela segura minha mão direita. Luto para me safar. A senhora senta sobre minhas pernas para segurar meu pé. Estou quase imobilizado. Sei que a primeira mordida me infeccionará e morrerei em questão de horas. Só espero não ser devorado aqui. Deve doer demais. Vi muitas pessoas serem comidas vivas durante horas. Um martírio difícil de assistir. Sempre que pude, abreviei as mortes dos infelizes. Misericórdia para os moribundos.
Vejo uma jovem pular a cerca do curral com uma adaga na mão. Ela está de vestido branco e descalça. Os cabelos ruivos batem no ombro. Por segundos esqueço onde estou. O grito estridente da jovem morta perto do meu ouvido me tira do transe. A jovem crava a adaga no olho da senhora morta que está sobre minhas pernas. Ela cai para o lado e me solta. Bato os joelhos na histérica sobre mim e a empurro para longe. Solto a mão presa pela garota de pescoço quebrado. Pego a adaga presa no glóbulo ocular da senhora e rapidamente a enfio pelo nariz da garota, cutucando o interior do seu crânio. Ela pára de lutar. A histérica se levanta. Enfio a adaga embaixo de sua orelha até senti-la atravessando ossos e dilacerando tudo por dentro da cabeça. Ela morre finalmente. A líder, da varanda, espera as mulheres pararem de gritar e rir e fala para a ruiva que me salvou: - De novo, Coraline? - O nome da minha heroína. - Você sabe que não pode mudar as regras! - Regras o escambau! - Ela grita. - Vocês matam todos os homens que vem até aqui, menos o seu capacho particular de pau grande. - Forço os olhos e percebo que há realmente um homem entre as mulheres da varanda. Ele é magro e meio careca. Usa uma coleira e está de sunga. - Eu quero esse! - A ruiva aponta para mim. - Você alterou as regras! Ele continuará sendo de Lilith até a próxima arena! - Mas mãe... - Já disse que não! - Lilith corre em minha direção. Muitas mulheres entram na arena, gritando e batendo nos cadáveres. Minha dona me puxa para a porteira do curral. - Dá pra me arrumar uma roupa? - Peço, sendo levado pelo braço. Ela olha para meus olhos e depois para meu pau. - Não.
Minha carcereira me limpou e me alimentou. Ela não me levou para a cela novamente, me trouxe para sua casa. Tem uma horta embaixo da janela. Há galinhas e coelhos no quintal. Estou no quarto, um dos três cômodos, há também uma cozinha e uma despensa. - A casinha é lá fora! - Diz Lilith. - É muito difícil construir tubulações para fazer um banheiro. Decidimos voltar aos velhos e sadios hábitos do século dezenove. Sei que ela está puxando papo, tentando ser simpática. Acho que sei o que quer. - Vamos dormir? - Ela pergunta. Era isso mesmo que ela queria.
Passo cinco dias comendo e dormindo com Lilith. Ela não me deixa ajudá-la em suas tarefas pois acha que logo me cansarei dessa vida caseira. Está certa. Nem me deixa passear livremente pela vila. Sabe que serei assediado pelas outras mulheres. Acordo no sexto dia com os gritos . - Levanta, preguiçoso. - Não entendo porque ela está tão ríspida. - Venha falar com Solimar. - A líder está na casa. Entendo, então, a mudança de atitude da minha loira. - Bigode, - Diz a líder. - amanhã você voltará pra Arena. - Meu nome não é Bigode. - Cala a boca. - Seus olhos faíscam. - Você ainda não entendeu que é nosso prisioneiro? Claro que já entendi. Uma prisão muito agradável: comida, bebida e sexo a vontade. Tô odiando! - Amanhã você enfrentará sete mortos de uma vez. Sete? - A regra é sempre dobrar os mortos-vivos na Arena seguinte. - Ela fala com uma voz solene. - E acrescentar mais um. - Mas eu lutei já lutei contra seis! - Lembro a ela. - Contra três. - Ela diz. - Os outros três foram uma punição extra. - Vou ganhar pelo menos um canivete? - A adaga - A líder pára de falar - que te salvou. - A adaga? - Notei que havia algo mais. - O que aconteceu com a ruiva? - Ela não se intrometerá da próxima vez. - Virou-se para Lilith. - Mais tarde eu o quero na minha casa. - Hoje? - Retrucou Lilith. - Ah, droga, logo hoje que é o último dia? - Ela faz cara de choro. - Poxa, Solimar, fique com ele amanhã! - Amanhã talvez não sobre muita coisa dele. - Solimar me olha séria. Fico com vontade de rir. Mas me contenho pois acho que hoje vou me divertir com ela.
Entro na sala da casa de Solimar. Lilith me deixou na porta, cheia de ciúme. Estou aqui feliz, pois estava me cansando da fidelidade a Lilith. Tantas mulheres solitárias e eu servindo apenas a uma; isso é egoísmo. O capacho de pau grande e careca da líder me recepciona na sala. Ele também está pelado. Vejo que a ruiva não mentiu: ele realmente tem o pau grande. - Solimar te espera no quarto. - Ele diz. Tem a voz grave dos magrelos. - Falou. A casa não é muito grande. Uns três quartos além da cozinha e da sala. Vejo que um dos quartos é usado como escritório. O outro deve ser o dormitório do pirocudo. - Oi. - Solimar usa uma camisola com penhoar. Ela é loira, baixa e bonita. Deve beirar os quarenta anos. Sua cintura não é a mesma de uma menina, mas é melhor que a de Lilith. Ela está encostada na cama. - Entre e feche a porta. Cumpro as ordens. - Tire minha roupa. - Penso na vida antes do pulso. Por que as mulheres não agiam todas como as daqui? Obediente, também massageio as partes do corpo que desnudo. Ela segura minhas bolas e observa o pênis endurecer. - Por que você me quer se tem o pirocudo lá na sala? - Pergunto. Acho que a resposta me esclarecerá boa parte daquilo que nunca entendi sobre as mulheres. - Ele realmente tem o membro avantajado. - Ela lambe a ponta do meu pênis. - Mas além do pênis ele não tem nada de bom. - Ela fica muda. Eu gemo.
Acordo. O pirocudo está arrumando o quarto. Ele abre as janelas e as cortinas e depois some pela porta. Logo está de volta com uma bandeja com comida. Ele desperta gentilmente Solimar. Ela sorri ao vê-lo. Quando olha para mim, franze o cenho. - Ainda está aqui? - Como são volúveis essas mulheres. - Vá embora agora! - Ela ordena. Não vou cumprir essa ordem com a mesma presteza de ontem a noite. - Anda. Você tem uma a Arena mais tarde. Saio lentamente; não sem antes surrupiar o sanduíche de queijo.
Lilith me esperava na sala. Voltamos para sua casa. Ela me alimentou e me condenou por ter agido daquela forma. - Que forma? - Perguntei. - Você dormiu com ela a noite inteira. - Ela se virou. Estava vermelha de ciúme. - Aposto que transaram várias vezes.
A Arena parece estar mais cheia. Quase não vejo o curral, pois está apinhado de mulheres. A maioria conversa. Parece que todas falam ao mesmo tempo. A líder está na varanda, ao lado do pirocudo e da ruiva - que parece ser sua filha. Ela me vê e pede para Lilith me levar para o meio do curral. As mulheres gritam meu nome. - Bigode. Bigode. - Qual é o nome do pirocudo da Solimar? - Pergunto. - Atlas. - Diz Lilith. - Atlas? E eu sou o Bigode? - Tenho os braços atados nas costas e Lilith me empurra pelo pescoço. Quando ela fala, aproxima a boca do meu ouvido e seu hálito quente me dá tesão. - Ainda bem que você tá de bigode. - Ela fala e eu fico arrepiado. - Se te apelidassem pelo tamanho do seu pau você seria chamado de João Pequeno! - Ela gargalha. Uma gargalhada gostosa, sincera. Detesto a sinceridade dela. - Você acha meu pau pequeno mas ficou com ciúme de Solimar. - Ele é pequeno mas é o único que tenho. - Gargalha novamente. Não me importo. Na verdade também acho engraçado. Se não me divertir com bobagens como essa, do que poderei rir nessa vida louca? A líder se levanta e as mulheres se calam, esperando-a falar. - Garotas. - Alguns assovios e palmas. - Hoje o Bigode enfrentará sete cadáveres. - As mulheres sorriem e esperam pacientemente o resto do discurso. Olho para elas. São muito diferentes quando estão sozinhas. - Se sobreviver, será leiloado! - Ela grita a última palavra e as mulheres berram numa explosão de vozes. Assusto-me. Serei leiloado se vencer? - Que porra é essa de leilão. - Pergunto para Lilith. - É isso mesmo! - Ela está ríspida. - Você será de outra. - Ela me olha e completa. - Se vencer. - Ah, querida, não quero me separar de você. - Digo, olhando para o chão. Lilith me abraça forte e sinto seus soluços. Esforço-me para manter a seriedade. Estou, na verdade, pouco me lixando para ela, mas percebi que ela tem poder nessa comunidade maluca de mulheres. Preciso manter-me ancorado por todas que conhecer. Não sei até quando elas aceitarão minha presença. Minha carcereira solta minhas mãos no centro do curral. Solimar, da varanda, joga a adaga no chão. Enquanto me abaixo, ouço alguns assovios. A mais animada com minha bunda é uma senhora com os peitos na barriga e a barriga no joelho. Tomara que ela seja pobre. As vaqueiras de mortos-vivos conduzem sete cadáveres até a porteira do curral onde estou. A porteira é levantada e dois correm em minha direção. Os outros ficam desconcertados com os gritos das mulheres ao redor da cerca. Corro em direção ao primeiro morto, é um garoto com uns dezessete anos. Seguro-o pelo cabelo e enfio a adaga em seu olho. Ela atravessa o glóbulo ocular e corta o cérebro. O cadáver despenca. O outro morto é um senhor meio baixo e careca. Tento espetar a adaga em seu olho mas acerto a narina. Empurro com mais força e consigo cravar a lâmina até os miolos. Solto a adaga do nariz do morto e corro até uma grande mulher gorda. Aproximo-me pelas costas e enfio a adaga na nuca. Aprendi isso num filme sobre a guerra, está sendo útil nesses tempos. Procuro o alvo mais fácil entre os quatro mortos que sobraram. Tem uma moça branquinha e três camaradas. Eles são grandes e fortes, mas parecem já estar meio abobados. Resolvo deixar a moça por último. Corro até um moreno do meu tamanho e cravo a adaga em seu ouvido. Antes dele cair tenho que empurrar um homem loiro que tenta morder meus dedos. Prendo sua perna com meu pé e o empurro. Ele cai de costas. Piso no seu pescoço e enfio a adaga no olho. Solto o pé do pescoço e piso na adaga. Ela entra pelo crânio. Restaram um homem forte e lento e a moça. Puxo a adaga do crânio do último que matei para sempre mas ela está presa pelo cabo nos ossos da face. O grandão anda para cima de mim. Eu o derrubo com os ombros. Puxo a adaga com mais força e a desprendo. Seguro-a pela ponta e a arremesso mirando a cabeça do grandão. Erro feio. A mulherada cai na gargalhada. Corro para pegar a adaga e volto-me para o grandão. Vejo a moça parada, com as mãos sobre o peito. Ela não me ataca. O grandão está de joelhos, tentando ficar em pé. Finco a adaga em seu ouvido. O corpo volta pro chão. Aproximo-me da moça. Ela tem a pele bem branca, além de estar morta. Usa um vestido meio hippie amarelo-claro. Não tem ferimentos, apenas algum sangue nos dedos e nos lábios. Deve ter comido alguém nos últimos dias. - Calma, gata. - Ando para ela dobrando os joelhos, ficando menor. - Shh, oi. Calma. - Falo enquanto chego perto. As mulheres amontoadas na cerca ficam em silêncio, atentas com os acontecimentos. - Calma, calma. - A morta tem os olhos vagos. Na medida que vou falando, vejo que ela me reconhece. Chega a sorrir. Prendo a adaga na cintura e encosto a mão no ombro da morta. Passo os braços por sua cintura, abraçando-a. Ela não se move. - Shh. - Vou juntando nossos corpos e a abraço. Sinto eu rosto encostando no meu peito. Ela não me morde. Há um silêncio assustado entre as mulheres. Abraçado com a morta, distancio meu peito um pouco de seu rosto, abaixo minhas mãos de sua cintura e seguro cada bochecha de sua bunda. Posso sentir a tensão das mulheres na arena. - Nhé! - Grito ao apertar as nádegas da morta-viva. Ela berra, levanta os braços e pula no meu pescoço. Ouço outras mulheres da platéia gritando. Eu já esperava a reação da morta, então seguro-a com a mão no peito e cravo a adaga no topo de sua cabeça. Ela não cai. A adaga deve ter se posicionado exatamente entre os dois lados do cérebro da moça. Ela fica parada com a adaga na cabeça, como se fosse um unicórnio. - Solimar. - Grito, sem tirar os olhos da morta. - não me agrada matar mulheres. - Viro o rosto para a platéia. - Gosto de amá-las. O uivo estridente das mulheres assustou a morta. Ela corre para um canto do curral. Algumas mulheres pulam para dentro da cerca e acabam de vez com a moça. Uma garota me devolve o punhal.
O leilão foi uma desgraça. A infeliz da velha era muito bem relacionada e me ganhou na disputa. Ofereceu por mim dois porcos e dez pães de abóbora. Fiquei lisonjeado, principalmente depois que exigi os dez por cento de "luvas". Algumas riram mas ganhei um delicioso pão de abóbora. Disseram que receberei um leitão logo que os porcos fizerem amor. - Ame-me! - Diz a senhora que me comprou. - Dá não! - Estou no quarto de sua casa. Ela e algumas ajudantes preparavam velas para iluminar o ambiente decorado com panos coloridos e penas - onde elas arrumaram essas penas? - além da farta mesa de frutas e doces. - Sou seu, mas não tão seu, entende? - Não sei o que fazer. Estamos trancados aqui e a velha tenta pegar no meu pau. Ao menos ela não diz que ele é pequeno. - Veja bem, eu poderia ser seu neto. - Netinho gostoso, vem cá com a vovó! - Diz a tia tentando me abraçar. Velhinha fogosa.
Fui seviciado. A velha se aproveitou de mim, tive que dar no couro. Não foi uma das minhas melhores atuações. Digo até que me vanglorio de ter conseguido. Mesmo com os olhos fechados ainda sentia o cheiro de maça podre. Foi mais difícil que matar vinte e um mortos. No dia seguinte a velhinha dormiu até mais tarde. Uma ajudante, chamada Hespérides, contou-me as fofocas. - No próximo sábado você vai lutar contra quinze zumbis. - Ela tem a voz doce e a pele lisa das mulheres jovens. - Quinze? - Espanto-me. É um número considerável, mesmo com uma adaga. - Vou ganhar outra arma? Uma espada? - Não. - Ela não parece preocupada com meu destino. - E na outra semana lutará contra trinta e um. - Como? - Tenho que cair fora. - Talvez eu morra. - Reclamo. - Sim. - Ela termina de arrumar uma cesta com pães e tira as alças do vestido. Ele escorre pelo corpo moreno. As ancas arredondadas combinam muito bem com os fartos seios. Levanto-me. Já estou nu. E pronto.
Hespérides entra correndo pela porta. Estou tentando explicar para a minha dona que não posso fazer sexo mais de uma vez por semana, senão poderei morrer na arena. - Mas e sua vovó aqui, meu netinho gostoso, como é que fica? - Ela é uma senhora bastante agradável, mas não quero fazer sexo com ela novamente. - Bigode! - Grita Hespérides. - Nefertiti precisa falar com você. - Oba, penso. Vou deixar a velha e me encontrar com aquela gostosa da Nefertiti.
A casa de Nefertiti era a mais afastada da vila. Ficava na encosta do morro, cercada de muitas árvores. Fui conduzido por Hespérides. Ela falou durante todo o trajeto. Bem gostosa essa morena, mas meio burra. - Oi.- Diz Nefertiti da porta, onde me esperava. - Oi. - Respondo. Seguro os olhos para não descê-los até as deliciosas mamas da mulher. O cabelo liso está preso num coque na nuca. Usa apenas camiseta e bermuda de moleton. - Sente-se. - Ela aponta um sofá na varanda. Eu me sento. Hespérides passa por mim e se senta no braço do sofá de Nefertiti, que pousa a mão sobre as pernas da garota. - No que você está pensando? - Ela sorri. - Penso no cheiro dos seus cabelos. - Balanço os dedos numa brisa. - No sabor da sua pele. - Pare de pensar com o pau e pense com a cabeça, homem. - O tom é calmo mas incisivo. - Olhe para os lados. Você vê algum homem? Onde estão os homens? Eu realmente não havia pensado nisso. Estava mais preocupado em trepar com quantas vadias conseguisse. Já havia faturado bastante, mas o preço estava sendo alto. Tive que aturar a velha e as batalhas na arena. - Sim. - Recosto no sofá. - Onde estão os homens? Além do pirocudo da Solimar, não há outros homens vivos. - Não há outros homens vivos! - Ela sussurra. - Se você vencer a próxima arena, Solimar mandará repetir a batalha. Ela usará qualquer argumento estúpido como motivo. - Nefertiti alinha uns cabelos que caem sobre o pescoço. - No sábado você morre. Penso no meu destino. - Será que dá para a gente tomar um vinho antes disso? - Os olhos dela são castanhos muito escuros, mas não negros. - Um vinho? - Ela se recompõe rapidamente do convite. - Você quer beber comigo? - Sim, penso. Nefertiti abraça Hespérides e a escorrega para seu colo. Beija o pescoço e lambe a orelha da garota, que se arrepia. Quando percebo, ela já está com a mão na xoxota aberta da morena. Ela a acaricia e a penetra com o dedo médio. Beijam-se na boca. Levanto e rapidamente tiro o camisão. Olho a pintura formada pelo beijo da morena com a longilínea gata de cabelos lisos. Encosto delicadamente os dedos na vagina de Hespérides. Nefertiti sente meus dedos. - Hei. - Ela me nota minha nudez. - O que você tá fazendo? - Entrando na brincadeira. - Consigo segurar o "ué" ao final da frase. - Hoje vou te dar ajuda, não a bunda. - Elas se desprendem e se sentam delicadamente. Continuo pelado e armado no meio da sala.. - Você não tem o pau pequeno. Ele tem um bom tamanho e uma grossura agradável. - Nefertiti dá um peteleco na cabeça do meu pinto. - Não gosto mais de pau, gosto de xoxota. - Eu também. - Gemo silenciosamente. O peteleco doeu. - Temos algo em comum. - Sim, temos. - Ela resmunga enquanto me sento novamente. Continuo pelado. Já me acostumei a ficar assim. - Você me lembra meu último homem. Ele me traiu. - Esses canalhas. - Comento. - Com outro homem. - Completa Nefertiti. - E viados. - Digo, tentando consertar o furo. - Olha, eu nunca te trocaria por um pau. - Nem pelo seu próprio pau? - Hespérides falou pela primeira vez. Olhamos para ela e depois para o meu pau. - Por que vocês me chamaram aqui, afinal? - Reclamo. Não estou entendendo nada. - Precisamos de você e você precisa de nós. - Nefertiti está calma e fala com rapidez. - Você precisa de ajuda para fugir. Hespérides quer sair da comunidade, mas há uma regra que diz que não se pode sair. Ela seria morta por tentar escapar. Eu quero ser a líder, mas Solimar tem a aprovação do Conselho e da maioria da comunidade. - Eu tô fora. - Fala Hespérides. - Não gosto daquela vaca heterossexual. - Eu e Hespérides somos as únicas que não gostam da Solimar, na verdade. - Vocês querem que eu faça algo contra a Solimar?. - Sim. Antes da próxima arena, aproxime-se e mate Solimar. - As outras vão me prender. - Balanço a cabeça negativamente. - Fuja para dentro da casa de Solimar. Pule a janela do quarto - sei que você já andou por lá - e encontrará Hespérides com sua moto. Ela matará o consorte de Solimar para facilitar sua fuga. Eu surgirei após o assassinato e mostrarei que você e Hespérides planejaram toda a fuga. - As duas se olharam. - Assumirei a liderança. Se o Conselho quiser perseguí-los, conduzirei a caçada para o norte. Vocês vão para o sul. - Nefertiti ficará na comunidade e será a líder. Você me deixará numa cidade qualquer e ficaremos todos felizes. - Hespérides sorri alegremente. Elas não sabem que o mundo está muito diferente. Não sei há quanto tempo elas estão isoladas nessa chapada de montanhas, mas se imaginam que ainda existem cidades, deve estar aqui há uma grande temporada. Não quebro a ilusão da menina. - Preciso de mais detalhes, mas antes uma pergunta. - Sorrio. Olho a bela mulher na minha frente da cabeça aos pés. - Qual será meu prêmio por esse trabalho? Nefertiti sorri. Ela tira a camiseta num só movimento. Os seios são espetaculares. Conduz Hespérides para sua frente e tira a roupa da morena, peça por peça. Acomodam-se no sofá, beijando-se e acariciando-se. Armo novamente minha pistola. A sensualidade dos longos cabelos compridos se misturando, a plástica perfeita do toque de dois pares de seios, os lábios lutando com as línguas. Levanto-me do meu sofá. Ouço a voz de Nefertiti. Ela fala sem me olhar. - Seu prêmio será sua vida. Pode ficar olhando, se quiser.- Finalmente vira o rosto e me encara. - Pode até bater uma punheta. Amanhã de manhã conversaremos os detalhes do plano.
Passei a noite como um voyeur tarado. Assisti as mais loucas transas das duas lésbicas. Até bati uma triste e solitária punheta. Não sei porque fiz isso, acho que estava cansado e queria dormir. No desjejum escutei e memorizei os detalhes do plano. Eu deveria pedir uma audiência particular com Solimar logo depois que me entregassem as adagas para o combate na arena. Assim que me aproximasse de Solimar, deveria matá-la e depois correr para o seu quarto de dormir. Atrás da janela passa uma pequena estrada que leva até a rodovia. Hespérides estaria me esperando com minha moto. Até hoje não descobri onde essas mulheres a esconderam. Eu largaria Hespérides em qualquer lugar e seguiria viagem, feliz da vida. Nefertiti ficaria na comunidade das amazonas malucas como líder guerreira. Não gostei quando ela me explicou que adotaria a idéia de guerreira, lutando contra a presença masculina. No caminho de volta à casa da minha dona, abordo Hespérides. - Você confia em Nefertiti? - Claro. - Ela responde e me olha como se eu fosse um idiota. - Vai dar tudo certo, você vai ver. Concordei com a cabeça mas mantive a desconfiança. Alguma coisa naquela história não me convencia. Fiquei imaginando o quanto estavam expostas me contando o plano.
Chegou a hora da arena. Entro no curral cumprimentando as mulheres. Mando beijos para as mulheres que comi. Minha dona me abraça e tenta beijar minha boca. - Assim verei estrelas, boneca. - Seguro a boca da velha. - Preciso de concentração. Corro para o centro do curral. Ouço os gritos dos mortos no curral ao lado. Vejo que Nefertiti está sorrindo. Ela está ao lado de Solimar, na varanda da casa. Beijo a palma da minha mão e finjo jogar o beijo para Solimar. As mulheres da platéia gritam. Nefertiri assente, aprovando meu gesto. Ela sabe que conseguirei me aproximar de Solimar para matá-la. Solimar se prepara para falar. Ela levanta os braços e as mulheres ficam em silêncio. Arrumo o saco. Andar pelado causa assadura no escroto. - Garotas, hoje é um dia especial. - Ela pede algo para Coraline. A filha aparece na sacada com as adagas. Procuro mas não vejo Atlas. Ele deve estar ocupado com Hespérides. - Bigode, pegue as adagas. - As adagas caem aos meus pés. - Um presente das . . . Amazonas. - Como? - Seguro as adagas com uma mão e faço uma concha com a outra no ouvido. - Ama zonas? Um presente das . . .ama zonas? - Gargalho. Rio tanto que sinto até a barriga balançando. Muitas mulheres penduradas nas vigas do curral também riem. - Bigode, um pouco de respeito, por favor. - Solimar fala baixo e ainda assim escuto perfeitamente. Uma boa líder. Contenho o riso e fico em silêncio. Ela aumenta o tom - Hoje nossas regras serão alteradas. - Ouço um ronco distante. Logo percebo que é o motor da minha moto. Vejo Lilith pilotando-a até a cerca do curral. - Bigode me procurou mais cedo, - Solimar olha para as mulheres da platéia e discursa. - contando uma história de traição. Acreditei logo de início, conhecia a pessoa que iria trair. A história só seria comprovada, entretanto, se Hespérides estivesse com a moto de Bigode atrás da minha casa. - Apontou para a moto. - A moto estava atrás da minha casa. Hespérides a conduzia! Algumas mulheres suspiraram de susto, ouço outras dizendo que a morena é boa gente. Atlas apareceu na varanda com Hespérides amarrada e amordaçada. Ela me olha com raiva. Seus olhos, então, pousam em Nefertiti. - Eu seria traída! - Solimar quase gritou. Senti descontrole em sua voz. - A traidora seria Nefertiti. Quatro mulheres seguraram os braços de Nefertiti. Ela nem tentou se soltar. Seus olhos estão calmos, fitando os meus. Eu sei que ela me odeia. Considerei isso quando a dedurei para Solimar. Coloquei numa balança minhas possibilidades: matar Solimar e fugir da gangue das Ama Zonas ou dedurar Nefertiti, a única piranha que não dormiu comigo, e ganhar o respeito da líder? A conclusão não foi difícil. As mulheres conduzem a bela mulher de cabelos lisos para o interior da casa. Solimar joga uma trouxa para mim. - Suas roupas e equipamentos. - A voz está mais aliviada. Solimar está satisfeita por ter provas contra Nefertiti. - As armas estão na moto. Cai fora. - Nem um beijinho? - Enfio as pernas na cueca. Ajeito os documentos. Visto a calça. Com as bolas seguras curarei a assadura. - Nem a saideira? - Bigode, já estamos quebrando regras. - Solimar está séria. - Você não pode contar para ninguém sobre nós. - Contar para quem? - Estou exasperado. Ela não sabe que o mundo está quase deserto. Apenas poucos arautos como eu. Só há morte e mortos por todos os lados. Eu prefiro ficar aqui, com essa mulherada, mas Solimar tem regras rígidas sobre a presença de homens. Ela já tem seu pirocudo, então quer manter o lugar desinfetado da peste masculina. Uma vila apenas de mulheres e animais de roça. - Não há mais ninguém! Deixe-me ficar! Solimar me fuzila com os olhos. Gira nos calcanhares e me dá as costas. Termino de me vestir. Confiro a moto e as armas. Sento no banco e ajusto os espelhos retrovisores. Viro a chave no painel. As luzes acendem e eu aperto o botão da ignição. O barulho do motor mostra que a moto já está aquecida. Bato nos galões de gasolina na garupa. Ainda estão cheios. Acelero algumas vezes para fazer barulho. Algumas mulheres assoviam. Vejo Coraline e aceno. Não vou me despedir pessoalmente. Engato a primeira. Lilith encosta no punho do acelerador. - Tchau. - Ela fala com voz suave. - Tchau. - Respondo. Engato novamente o ponto morto e passo os dedos no rosto de Lilith. Acho que nunca nos veremos novamente. Ela ficará com as Amazonas e eu vou seguir meu nariz. Acelero a moto pelas estradas de terra para fora da vila das mulheres taradas e malucas. Quanto tempo passei com elas? Não muito e ao mesmo tempo passei tempo demais. Rodo até encontrar uma estrada de asfalto. Sul para a direita e norte para a esquerda. Paro a moto no encostamento. Puxo a manga da jaqueta de couro. Levanto o braço, tentando sentir a temperatura. - Acho que o tempo ainda está quente. - Engato a primeira arca e viro par a esquerda. - Vou para o norte.
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fin |
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