A RESSACA I Não bebo nunca mais. Essa é a idéia que domina o pensamento do jovem ébrio ao acordar no meio da manhã do dia seguinte. Um pensamento que se repete toda maquiavélica manhã de ressaca. E não são poucas. Nos primeiros instantes de consciência, ainda com os olhos fechados, ele percebe que estava dormindo e não pensa mais em nada. Sente medo de abrir os olhos e sentir a claridade do quarto. Abre os olhos desordenadamente, um de cada vez. Pisca várias vezes antes de conseguir distinguir as formas do quarto conhecido. Nota estar com a face esquerda do rosto afundada no travesseiro, de boca aberta, com a coluna torta e as mãos soltas. Usa somente cueca. Lembra que tem que respirar. Respira e com isso se mexe todo na cama. Pronto, acordou. Agora vai ter que se levantar mesmo, sabendo que não vai conseguir encontrar a posição antiga e confortável. Tenta levantar a cabeça e sente que ela está um pouco pesada. Uns trezentos quilos. Enfim consegue sentar na cama com os olhos abertos, enquanto a falta de sangue no cérebro escurece a visão e torna a aparecer aos poucos. Esta sensação é bem conhecida estas manhãs. Passa os olhos pelo quarto à procura de suas roupas. Tenta lembrar-se de como chegou em casa, mas não consegue. Tenta ao menos lembrar-se do que fez na noite anterior. Nada. Amnésia alcoólica. Ele é da teoria que esquecer do que se fez é totalmente possível, mas no momento em que estava fazendo, mesmo super bebum, sabia-se perfeitamente. Ou seja, jamais alguém pode dar a velha desculpa que ficou com aquela mulher horrorosa porque estava bêbado. Não encontra as calças, então já sabe que entrou e foi tirando as roupas pelo caminho e jogando-as a esmo. Estava pior que pensou. Tenta se lembrar da camisa que estava usando. Não consegue, mas sabe que vai ter que tirá-la de cima da estátua da Madona Romana que fica ao lado da porta. Ele adora a estátua. Principalmente depois que ficaram íntimos, após de uma noite muito parecida com a de ontem, quando chegou em casa e ficou conversando com ela contando seus problemas esparramado no sofá. A estátua foi de uma simpatia única, ouvindo tudo o que ele tinha a dizer. Ela foi até um pouco analista terapêutica, concordando com os aforismos dele sobre o mundo. Dizem que quem cala, consente. Com um esforço Olímpico, consegue se por de pé. Sorri de leve ao achar engraçado como o quarto balança, roda e gira. Parece um caleidoscópio. O sorriso morre no mesmo instante que o estômago dá sinal de resistência. Oi, eu tô vivo e quero virá-lo do avesso. Consegue. Ele tenta andar rapidamente para o banheiro mas sabe que não vai dar tempo. A janela, sua última chance. Sem saber porque, se sente um pouco o Indiana Jones puxando o chapéu por baixo de uma porta de pedra que se fecha. A janela é aberta juntamente com a golfada de vômito que esguincha para fora. O exorcista. A pressão do estômago é tão intensa que ele pendura no peitoral para passar a agonia. Ah, o alívio entre os espasmos chega quase a dar prazer. Ele olha o vômito escorrendo e, hilariamente, fica tentando diferenciar dentro da gosma esverdeada o que ele comeu e bebeu no dia anterior. Pode ser nojento, mas devido à sua experiência com esta situação, ele desenvolveu através do vômito uma técnica de pesquisa alimentar bastante pragmática. A teoria é quase uma tese de mestrado. Ele é um mestre em vômito. Quanto mais grosso, maior a quantidade de comida foi consumida. Quando fino, só bebida. Colorido significa mistura de drinques. Amarelado e espumante é cervejada. Amarelado e sem espuma, churrasco. Grosso e muita quantidade também quer dizer que teve muita bebida, pois vomitar com a barriga cheia tem que ser um grande porre. Olha o vômito e conclui: comeu, bebeu muito e misturou tudo. Grosso e verde. Enquanto cospe e respira ofegante, espera ver a gosma sair voando e gritar com a voz esganiçada -Hei, Pete, o Ray e a Geanine já estão no Ecto 1. O Winston e o Egon foram buscar os aceleradores de prótons para enfrentar o Monstro de Mashmelou. Ele chega até a escutar a musiquinha dos Caça-Fantasmas. Tã nã nã nã nã. Sai da janela olhando para os lados, para ver se algum vizinho notou que é ele o famigerado vomitador de calçadas. Está salvo até o próximo porre. O Geléia vai ficar na calçada esperando o porteiro vir limpar. Vai andando trôpego para o banheiro e solta os primeiros sons lógicos do dia. -Nao bebo nunca mais. Entra no banheiro e mecanicamente acende as luz, mesmo não precisando. Olha o espelho e quase não se reconhece. Não fica espantado. Ele sabe que só poderia se assustar se olhasse no espelho e se visse negro. Nada contra os negros. Ele já se viu em todas as raças e para cada uma tinha uma explicação lógica. Se viu japonês, quando estava inchado depois de uma briga injusta entre ele e os três caras que se moviam igualzinhos. Na verdade era só um, mas ele prefere pensar que eram três. Índio de pele-vermelha numa vez que bebeu até dormir na praia ao meio-dia. Ficou ruivo, certa vez que acordou na casa de uma cabeleireira que tinha fantasias sexuais usando tinta de cabelo. Fica olhando-se no espelho e lavando o rosto com água fria. Assoa o nariz e molha o rosto umas vinte vezes antes dos olhos desembaçarem. Passa a língua no céu da boca e sente um gosto azedo misto de vômito e cinzeiro, tudo em cima de uma lixa. Ri, este gosto é um velho conhecido. Subitamente, incontrolavelmente, sente vontade de ficar limpo e vivo. Tateia a pia e busca do pente, da escova de dentes e da pasta. Acha. Instintivamente, com os olhos pregados no seu reflexo no espelho, espreme o tubo de pasta na escova e passa o pente nos seus cabelos desgrenhados. Sente que algo está errado e olha para o topo da cabeça. Ele passou dentifrício no pente e agora os cabelos estão sujos. A escova está limpinha em cima da pia. Desiste de tudo e resolve descansar. Pensa em água e na privada. Não sabe se quer beber a água da privada ou aliviar-se nela. Ele faz um xixizão na privada e vai para a cozinha beber água. Confuso, fica pensando se fez a escolha correta. O dia termina. Mas a agonia da ressaca continua firme. Ela já não é mais forte como de manhã, porém ainda se faz presente. O telefone toca. É um amigo dizendo que vai ter hoje uma grande festa e ele está convidado. Ele, cabreiro, diz que está de ressaca. O amigo lembra que nada como uma bebida para curar uma ressaca. Ele concorda. Se veste e vai para a festa. II. Não bebo nunca mais. Este é o pensamento que domina o jovem ébrio ao acordar no meio da manhã do dia seguinte. A vida é sempre um dia seguinte.
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fin |
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