A palavra final

E aqui estou de novo. Pensando. Algumas vezes falo em voz alta, só para ouvir o som de voz humana, sem que seja um grunhido. Sei que tenho falado tanto comigo que já me respondo e acabo discutindo comigo mesmo. Estou expondo cada pensamento através da falação. É porque tenho muito tempo livre. Preciso ocupá-lo.

Hoje ando de moto. Deixei de lado os carros e os outros veículos. Fico só com a moto. Ela me atende e me dá toda a segurança que preciso. Se algum deles aparece, arranco-lhe a cabeça ou estouro-lhe o crânio mais rápido que ele consiga me ver. Ou sentir. Já não tenho medo. Nem ódio. Apenas passo meus dias. Vivo-os um atrás do outro.

Nem levo mais muita coisa comigo. Antes eram caminhões de cacarecos, centenas de trecos e muitas mochilas. Hoje ando na moto, tenho as espadas, o rifle e a pistola, um saco de dormir, umas mochila com uns bagulhos, a jaqueta de couro e os óculos escuros. De resto, apenas carrego a poeira.

E os dias vão passando. Há tempos não vejo ninguém. Aliás, há anos. Nem procuro mais. Ou nem quero procurar. Tantas vezes achei que ia dar certo, que daria para viver daquele jeito. Mas sempre acontecia algo ou simplesmente os interesses eram diferentes. E iam todos para seus lados. Ou acabavam mortos ali mesmo. E eu que sempre enfrentei a morte agora não a temo. Ela será a última das amantes.

O ronco do motor é monótono, mas eu gosto. A potência me anima. Vejo, ao longe, um deles. Deve ter ouvido o barulho do motor. Foi por isso que troquei o escapamento, para o barulho da moto alcançar o maior espaço possível. O inconveniente é este, os sacanas.

Ele escutam algo não-natural e já se mexem. Vão ouvindo o som e vão atrás. Se conseguem enxergar, procuram movimentos e luzes. Quando ainda estavam frescos, o olfato era potente. Acho que por não darem preferência à visão, aprenderam a usar o olfato para achar o que procuravam. Mas depois de uns anos os corpos foram ficando velhos e o olfato deixou de ser uma arma contra nós. E ainda hoje me espanta vê-los andar e tentar vir me comer.

Paro a moto, desço o cavalete e saio. Pego a katana. Olho pro bicho. Ele tá meio lento. Pego a cimitarra. Não, ele ainda tem os braços. Pego a insurance. Vou em direção ao meu novo adversário. Separo as insurance. Uma espada igual para cada mão. Fico parado esperando. Ele vem babando (se conseguisse babar). Grunhe alguma coisa. Eu me preparo. Levanto as espadas. Ele chega perto. Decepo a mão direita do bicho. Ele não entendeu. Decepo o antebraço esquerdo. Ele continua vindo e tenta me abraçar com os cotocos para me morder. Dou um passo para trás para lutar melhor e, afinal, tenho que prolongar a luta pois tenho muito tempo.

Ele tenta de novo me abraçar e me morder. Dou outro passo para trás e levanto o braço direito em forma de arco e estico o esquerdo. Ele avança e eu paro seus movimentos com a insurance da esquerda. Ele continua tentando vir e a espada começa a entrar na garganta. O sacana pára, anda pro lado e avança de novo. Ele é um dos que pensam, um pouco mais difícil de matar. Mas quando tá só em um, como este, eu demoro dois segundos ao invés de um para matá-los. Quando ele chega perto eu dou um passo para o lado direito e o empurro pelas costas. Ele se vira e vem de novo. Eu dou um passo para a esquerda e ele passa. Se vira de novo e vem. Fico variando entre um passo para direita e dois para a esquerda. Ou mudo a valsa. Poderíamos ficar assim por anos. Foi por isso que eles venceram.

Eles venceram.

E para mim não sobra nem uma migalha. Se eu encontrasse uma mulher ao menos seríamos os novos Adão e Eva. Mas nem esse legado sobrou a nós, humanos. E olhando para ele, sempre vindo, mutilado, tentando me morder e me comer, patético, nojento, e vencedor, mesmo sem saber. fico cansado. Decepo os cotocos de braço que faltam. Ele vem. Corto sua perna direita. Normalmente eles caem mas este, inteligente, consegue se equilibrar. Olha para o chão para conferir se vai conseguir chegar até mim e suplica com os olhos para chegar até mim.

É nessas horas que me dão medo. Parecem vivos.

Num golpe rápido, decepo a perna restante. Mas, curiosamente, o golpe foi rápido o suficiente para mantê-lo sobre o osso alguns segundo antes de se esborrachar no chão.

O tronco balança para cima e para baixo. Viro-me para olhar e o vejo tentando se arrastar até mim com o queixo. Não agüento mais. Eles foram gente.

Será que eu virarei um deles? Acho que não. O contágio só acontecia se houvesse a mistura de sangue e saliva. A mordida. Por que será que eles queriam nos comer, mesmo sem intestinos? E eles já estavam mortos, o cérebro não funcionava, não dava para eles terem um “instinto”. E sempre tentando nos comer. E a cada mordida um dos nossos morria e se tornava um dos deles. Eles não podiam ser mortos. Fazer o quê? A luta era desigual. Venceram. E nem sabem. Mas por que a mordida? Não existe nem vírus, nem radiação, nem nada. Só a mordida e o vivo virava morto-vivo. Parecia haver alguma razão lógica para a mordida transmitir a ... maldição. Será que é mesmo o fim dos tempos e sãos os seres do inferno caminhando sobre a Terra?

Por misericórdia, ou sei lá, enfio a insurance dentro do seu crânio e estrago tudo lá dentro. Ele morre. De novo. E pra sempre. Será?

Volto pra moto.

Vou andando por dias. Encontro o que procurava. O penhasco. Eu havia passado por aqui há tempos. Ele continua igual. Só as alterações que o homem fez é que diminuíram. Mais ruínas e mais mato. O mar parece mais forte. O barulho, enorme, estrondoso, e solitário. Não desligo a moto. Fico olhando o penhasco, o nada... o tempo passa. Sinto fome. Pego no alforge da moto umas lingüiças secas. Pego também uma garrafa de cachaça. Antiga, boa, forte, pura. Bebo e como. Bebo mais que como. Ao entardecer, volto com a moto por uns 300 metros. Acelero a bichinha. Serviu-me tão bem.

Freio o pneu da frente e acelero. Ela patina. Quando a poeira alcança meu nariz, solto o freio. Ela empina e dispara. Vou correndo. Acelerando ao máximo. Abaixo os olhos. Sorrio. Os óculos escuros protegem meus olhos da poeira, mas mesmo assim algumas lágrimas escorrem. Aperto os dentes. A moto salta o alambrado do penhasco.

Estou voando. Sabia que seria assim. Voando. Não escuto a moto. Vejo o sol. O mar. E as pedras.

fin

Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca

<Voltar