| A faca preta
Eu cutucava uma lacraia com uma varinha quando meu tio me chamou lá da casa da fazenda. Subi no Rebelde - o cavalo que eu montava - e galopei de volta. Meus pais estavam ao lado do tio Lavim e minha mãe logo reclamou. - Ele está correndo muito com esse cavalo. - O Rebelde é bom cavalo! - Disse tio Lavim, segurando o freio na boca de Rebelde para eu desmontar num pulo. - Não importa. Ele só tem sete anos! - Não entendi a reclamação. Sete anos era a idade de toda uma vida. - Sete? - Perguntou o tio. - Então tá na hora de ganhar um presente. - Ele voltou-se para dentro da casa. Depois eu soube o que ele fez; como grande fazendeiro, sempre ganhava presentes dos comerciantes e industriais que se relacionava e sempre redistribuía esses presentes. Trouxe de dentro de casa uma faca de 20 cm com bainha de couro preto. O cabo era de madrepérola - imitação, é claro - também preto. A lâmina, com uns 14 cm, era de metal vagabundo, mas para mim o presente era mágico. Uma faca preta! Olhei a bainha de couro e percebi que ela tinha um contorno arredondado, com várias pregas. Parecia a capa do Batmam! Nem liguei para a propaganda da casa de ferragens que presenteou o tio Lavim com a faca. Logo raspei a tinta. Colocava a faca presa ao cinto da bermuda e me embrenhava nos matagais da fazenda. Algumas vezes cortava o mato com a faca, como os caçadores de safári que via na tv. Usava a faca para abrir e limpar os peixes que pescava. Algumas vezes amarrei a faca na ponta de uma vara e a fincava nos peixes como os índios sioux, dos livros dos Texas Rangers. Dava trabalho, mas eu tinha todo o tempo do mundo. A faca era minha companheira inseparável. Mesmo quando voltava para a cidade, durante a semana, eu a guardava no estojo de lápis de cor. Nunca pensei nela como uma arma, mas como a ferramenta mais útil em qualquer situação: apontava lápis, limpava o barro do tênis, descascava frutas, cortava papelão - para descer escosta de gramados, oras - e muitas outras coisas. As professoras nem ligavam para a faca, nem minha mãe, mas meu pai ligava. - Isso é uma arma branca! - Ele disse. Uma arma branca. Fiquei até meio apreensivo em relação à minha faquinha. Decidi usá-la apenas na fazenda. Um dia fui ao quintal da casa da fazenda atrás da casinha. Meu tio tava lá. - Vai demorar, tio? - Moleque, - Gritou meu tio de dentro da casinha. - vá cagar no rio! - E gargalhou. - Pô, tio, anda logo. - Gemi. Ouvi uns peidos espremidos e logo meu tio abriu a porta. - É melhor você acender um fósforo. - Alertou-me. - Eu não fumo. - Então tá lascado! - Riu novamente, de boca aberta, mostrando os fortes dentes amarelados. - Olha, tira a faca da cintura para cagar! Nem prestei atenção ao aviso. Será que ele me considerava muito criança para usar a faca enquanto cagava? Fechei a porta. A luz vinha apenas das frestas entre as tábuas do teto. A casinha era toda construída com tábuas. O piso ficava sobre uma fossa sanitária. No meio do chão da casinha havia um buraco do tamanho do pé de um adulto. Ao lado, pendurado por um barbante, um papel higiênico. O interior era meio escuro, quente e definitivamente fedorento. Abaixei as calças e posicionei a bunda sobre o buraco. Antes de soltar qualquer coisa escutei um tchibum na água. Nem precisei olhar para a fossa para ver o que havia caído. Olhei diretamente para a bainha de couro. Eu não a havia fechado corretamente e a faca preta havia caído na fossa, logo após uma cagada do tio Lavim, o homem que me presenteou com a faca. Ponderei rapidamente sobre minha próxima ação. Subi as calças sem fechá-las e corri para fora da casinha. Abaixei ao lado de uma árvore e fiz o que devia ser feito. - Se eu tivesse cagado aqui não estaria com esse problema. - Falei em voz alta. Como eu havia esquecido o papel dentro da casinha, voltei com as calças pelos joelhos de volta para a casinha para limpar a bunda. Limpei-me e voltei para o lugar onde havia cagado para deixar o papel sujo. - Não vou cagar sobre a faca. - Eu me explicava meus atos. - Nem jogar papel higiênico sujo. - Olhei de volta para a casinha. - Inda mais agora que tenho uma missão de resgate.
Anos depois, meu tio contou que aquele dia me viu saindo da casinha, cagando no mato, voltando para a casinha com as calças arriadas e depois voltando para onde havia cagado com os papéis sujos na mão. Disse que quase morreu de rir. Achou que a própria cagada havia sido tão fedida que eu não havia conseguido fazer o serviço dentro da casinha.
Aprontei-me! Peguei um pedaço de corda no curral e voltei para a casinha. Amarrei a corda numa viga de madeira que sustentava o piso e enfiei-me entre as tábuas, segurando na corda, atrás da minha faca. Desci mais de um metro mas a escuridão me assustou. Voltei para fora. Procurei na casa da fazenda alguma lanterna, mas a que achei não tinha pilha. Peguei uma vela e uma caixa de fósforos. Risquei um fósforo dentro da casinha para me certificar que não haveria nenhuma explosão. Joguei o fósforo pelo buraco e o vi apagar-se na água cheia de bosta a uns dois metros abaixo. Guardei o fósforo e a vela no bolso. Fiz um nó na ponta da corda para prender os pés e a joguei no buraco. Ela acabava a um palmo da água. Agilmente me enfiei novamente entre as tábuas e desci pela corda até o final. Prendi os pés no nó ao final da corda e peguei a vela e o fósforo. Acendi a vela e olhei ao redor. Um buracão escorado por vigas de madeira. A água do buraco na verdade não era uma água; era uma gosma formada por urina e umidade de cocô. O fogo da vela queimava o cheiro do lugar, mas o aspecto era inacreditável. Fiquei uns bons minutos ali observando as esculturas multicoloridas feitas pelas bostas e pelos fungos que proliferavam. Alguns vermes e outros pequenos insetos andavam nas margens, não muitos, pois meu tio derramava cal de tempos em tempos. O cal servia para "limpar a bosta", como dizia ele. Procurei pela faca. Sabia que ela devia estar de ponta para baixo, fincada no fundo do buraco, atolada de merda. Eu estava já sem camisa, pois imaginei que tivesse que melar os braços. Prendi os pés firmemente no nó, segurei-me com a mão esquerda e estiquei o braço direito em direção à água, preparando-me para submergi-lo e procurar a faca. De repente um brilho metálico chamou minha atenção. Olhei com mais atenção e consegui ver a lâmina da faca ao fundo da fossa. A iluminação da casinha batia exatamente na faca ao fundo do buraco. Prendi-me melhor na corda, limpei a superfície da água, empurrando os cocôs que flutuavam para longe de mim e mergulhei a mão na água. Nem tive tempo de reagir quando meus pés se soltaram do nó e cai de uma vez. Submergi completamente na fossa sanitária. Tive a sensatez de fechar os olhos e a boca. Ainda de olhos fechados tateei o fundo e segurei o cabo da faca. Prendi-a na bainha, usando o fecho e conferindo para ver se estava realmente travado. Limpei os olhos com as costas das mãos. Segurei na corda e comecei a me puxar para cima. No meio da subida, cai novamente. Minhas mãos estavam escorregadias por causa do musgo de bosta, mijo e outras nhecas. Sai da casinha. Eu não me atrevia a conferir meu estado. Vi meus braços marrons de cocô e minhas pernas com pedaços de bosta escorrendo para dentro da bota. Corri para o rio para me limpar. A cada pisada no chão sentia algo escorrendo pelo meu corpo. Vi um grande pedaço de merda enrolado na minha meia. Tentei livrar-me dele chutando o ar, mas ele acabou voando para cima e quase acertou meu rosto. Ao menos eu havia recuperado minha preciosa faca.
Meu tio também contou que me viu tomar banho no rio de bermuda e bota. Achou que eu estava mais moreno que o costume mas nem ligou para isso. Eu tava sempre aprontando alguma coisa.
Guardei a faca com carinho. Cresci. Com quase dezoito anos e já saindo da tropa escoteira, recepcionei um jovem papatenra que queria ser da minha patrulha. No primeiro acampamento descobri que ele não possuía faca nem canivete, a ferramenta mais utilizada por um escoteiro. Ele era de uma família carente. Na reunião seguinte entreguei-lhe minha faca preta. - Isso é só um empréstimo. Você usa a faca quanto tempo precisar. Um dia me devolve. - Contei para ele a importância daquela faca. - Obrigado. Tomarei todo o cuidado com ela. Tem minha palavra. Anos se passaram. Nunca mais vi o papatenra nem minha querida faca preta, mas sei que um dia a encontrarei novamente. Essas coisas acontecem!
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fin |
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