Uma coisa que gosto é a Força e uma coisa que detesto é o lado negro.

 

Uma coisa que gosto é a Força

Sabe aquela história de Jedis, Guerra nas Estrelas e “que a Força esteja contigo”? Poisé, é a minha religião. Acredito na Força!

- Força? – Questionou o tagarela do meu secretário. – Fala sério...?

Tô falando! Afinal, entre tantas idiotices, prefiro crer naquilo que me parece mais correto. Jamais vou aceitar um deus todo-poderoso ou espíritos com níveis de desenvolvimento ou qualquer entidade constituída basicamente por fé e crendices.

A Força, que une todos os seres vivos, não é consciente, ou seja, não é uma entidade. É a energia que gera e mantém a vida dos seres do universo. Sua única pretensão é alcançar o equilíbrio entre a luz e o lado negro.

- Comprei um casaco para você. – Falou minha mãe ao telefone.

- Para que?

- Achei que estivesse sentido frio. – Respondeu. Por que ela imaginou isso?

- Foi a Força. – Expliquei. – Hoje, mais cedo, perdi um casaco. - Ela achou engraçada minha conclusão.

Minha mãe sentiu a perda e agiu de forma a me proteger, mesmo sem saber. Nossa ligação é mais sensível por motivos óbvios. Assim é a Força, unindo as pessoas por energia.

- Bah, que bobagem. – Riu-se o secretário quando contei a história. – A mãe da minha filha também acredita nessas besteiras.

O telefone tocou.

- Alô? – Ele atendeu. - Oi, Karem. – Era a mãe de sua filha. Eu nem tinha contado para ele que, quando lembramos de alguma pessoa sem motivo aparente, na verdade é a Força nos avisando que essa pessoa está nos procurando. – O que? Pneumonia? – Desligou e me olhou. – Posso sair para levar minha filha ao médico?

-Claro. – Ele disparou da sala. – Espere! – Gritei. – Não esqueça o casaco.

 

Uma coisa que detesto é o lado negro.

Telefone tocou às sete e meia da madrugada. Corri para atender, era minha mãe:

- Ah, você tá bem... – Aliviou-se.

- O que houve? – Pensei num milhão de bobagens, coisas tristes, e percebi que ela viu algum acidente de moto e achou que fosse comigo.

- Vi um motoqueiro atropelado. Parecia você.

Fiquei com raiva. Não queria que ela se preocupasse tanto, se sente mal.

- Me escute! – Fiz uma pausa. – Eu nunca vou cair!

- Não é você! – Ela respondeu na lata. – São os outros. Podem te acertar.

- Confie... – Interrompi a frase. Ela não gostaria de ouvir “confie na Força”. – Confie em mim. Eu me cuido.

- Tá... – Sua voz não era convincente.

Vesti-me da armadura de motoqueiro e fui para a SilverFênix. Iria pegar a serra. Subi na moto, parei e pensei nos sinais, os avisos da Força. Eles me diziam para ficar sempre alerta. Acariciei o tanque, apertei a partida e arranquei. O motor roncou suave, como sempre.

Pilotei defensivamente, distante dos carros, usando a potência do motor para acelerar para longe. No caminho vi um acidente com um motoboy. Minha tia deve ter me confundido com ele. Motoboy não é motoqueiro, apenas um profissional de entregas com motocicleta. Não tem a alma em duas rodas.

Fiz uma curva longa e rápida. Lá estava ela, a pedra. Tentei sair da tangente mas não havia espaço, eu havia escolhido aquela por estar entre faixas de óleo que vazam de caminhão. Nem cogitei frear ou reduzir, na moto é escorregão com a roda de trás na certa, e escorregão em curva longa é chão, queda, acidente.

Fiz o que devia, eu estava preparado para percalços, a Força tinha me avisado. Mantive o percurso, logo antes de atingir o paralelepípedo - como ele foi parar no meio do asfalto? – acelerei com força e puxei o guidão. A leve empinada me ajudou a saltar a pedra, pousei meio troncho mas mantive o equilíbrio. E equilibrei-me até aqui.

O lado negro incomoda, atrapalha a vida, porém, com isso, acaba ajudando no amadurecimento e na concentração. Melhora a gente.

 

fin

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