Uma coisa que odeio é engravatado.

Ontem fui almoçar perto do BC, pois estava estudando na biblioteca. Fiz meu prato com legumes e carnes e procurei um lugar para sentar no restaurante lotado.

- Posso? - Os três caras da mesa assentiram.

- Claro, senta ai! - Disse um.

Ataquei o prato enquanto procurava com os olhos algum "tipo estranho" para ficar observando. Achei três engravatados na mesa da frente. Tinham mais de quarenta anos mas ainda eram jovens.

Um homem, de aparência humilde, aproximou-se com prato e talheres na mão e pediu para sentar no lugar vago.

- Eu preferia que não! - Respondeu o grandalhão da mesa, dentro de seu terno e com sua estúpida gravata prendendo seu pescoço roliço.

O homem ficou desconcertado. Olhou em volta para ver se alguém notou sua humilhação. Eu estava disfarçado com meus óculos escuros. Ele saiu à caça de outra cadeira para almoçar, mas não havia outro lugar.

- Hei. - Chamei o homem. - Sente-se aqui.

- Mas você ainda não acabou. - Ele comentou.

- Ainda não. - Respondi e sai com meu prato na mão.

Sentei-me na mesa dos engravatados.

- Posso? - Perguntei já sentado.

Os homens não gostaram, mas se calaram.

- Você gosta desse bife acebolado? - Perguntei ao grandalhão.

- Gosto. - Olhou-me irônico. - Se eu não gostasse não o teria colocado no meu prato. - Riu-se de mim.

- Eu também gosto. Posso? - Enfiei meu garfo no bife e o botei em meu prato. Cortei um pedaço.- Quer um taco?

O grandalhão me olhou incrédulo. Recompôs-se e voltou a comer.

- Você gosta dessa batata?

- Claro que gosto.- Respondeu rápido.

- Eu também. Posso? - Peguei a batata do prato do cara. Cortei um pedaço e o ofereci ao engravatado da minha direita. Ele recusou.

- Você gosta dessa banana frita?

O homem me olhou e pensou.

- Não, não gosto.

- Ah, que pena. Eu gosto. Posso? - Peguei a banana.

Ele se enfezou e empurrou seu prato, falando alto e gritando comigo. As atenções do restaurante voltaram-se ao engravatado grandalhão.

- Você gosta de brigar? - Perguntei, limpando minha boca e me levantando.

Vi que o engravatado me olhou no fundo dos olhos. Pensou por instantes. Não me respondeu. Saiu da mesa reclamando.

- Não se esqueça de pagar a conta! - Alertei-o antes de sair.

Olhei para os outros engravatados.

- Eu nem conheço ele direito. - Disse-me o que recusou a batata.

Uma coisa que adoro é vaga em estacionamento lotado.

Eu tenho dois poderes mutantes, um deles é achar vaga em estacionamento lotado. O outro explico outro dia.

Rodo com o Al (minha caranga) bem devagarinho em frente ao lugar onde quero estacionar. Vejo que está lotado, mas sei que algo acontecerá. Sempre acontece. Ou alguém começa a dar ré bem na hora que estou passando ou enxergo uma vaga que ninguém conseguia ver por algum problema de ilusão de (idi)ótica. A patroa fica extasiada!

- Vamos dar uma volta em algum lugar lotado só para ver seu poder mutante funcionando? - Já me pediu algumas vezes.

Algumas vezes o poder não funciona de imediato. Nessas horas preciso expandir meus horizontes: olho para o outro lado da pista. Thanãn! Sempre encontro um buraco onde posso meter o Al!

O mais divertido de tudo é que o poder funciona mesmo quando estou com a Silver (minha motoca). Várias vezes quando estaciono numa vaga - normalmente usada por carros - algum motorista estúpido reclama que a moto está ocupando seu espaço.

- Você paga IPVA? - Pergunto a esses imbecis.

- Claro.

- Eu também! Posso? - Desmonto da moto e sigo meu caminho, feliz com meu poder mutante.

fin

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