Sou brasileiro e não me orgulho nunca

 

Decidi ser um brasileiro autêntico e viver como a maioria da população.

A primeira coisa que fiz foi ficar vários dias sem comer. Fiquei esfomeado. Sai pelas ruas procurando a famosa hospitalidade brasileira.

- Um trocadinho para eu comprar pão. - Pedi a uma velha.

- O que?

- Um trocadin pra mim comprar pão. - Repeti.

A velha me olhou de cima a baixo.

- Você é de onde?

- Daqui.

- Bah. - A velha balançou a mão como se espalhasse um peido e foi embora.

- Espera! - Gritei. - Yo soy argentino. - Não insisti na mentira pois outros pedintes me encararam ameaçadores.

Mendiguei para todos que passavam. Só consegui reclamações.

- Um homem forte como você...

- Eu não consigo trabalho, minha senhora!

- Quem falou em trabalho? Tô pagando cem pilas e o motel.

Faminto, passei para a segunda fase da brasilidade: fiquei doente. Fui a um posto de saúde de ônibus.

- Esse ônibus vai até o hospital?

- Você tá doente? - Perguntou o motorista.

- Sim.

O filho da puta me botou para fora. Disse que eu poderia contagiar os outros passageiros. Peguei outro ônibus. Sentei-me. Vi um velhinho todo tremedeira em pé.

- Quer sentar, meu tio?

- Não sou seu tio.

- Quer sentar, senhor?

- Onde?

- Aqui!

- Moleque tarado! - O velho quase me deu uma bordoada. - Não vou sentar no seu colo.

No hospital, após a hora de espera, o médico me atendeu.

- O que você tem? - Nem tirou os olhos das anotações que fazia.

- Não sei...

- Se você não sabe, volte quando souber. - Respondeu o "dotô".

- Acho que tô fraco de fome.

Ele rabiscou numa receita e me entregou, chamando o próximo. Estava escrito comida.

- Comida?

- Isso. E beba alguma coisa também..

O médico devia fazer parte do Fome Zero.

Voltei para casa pensando em espancar meus filhos, como parte da brasilidade, mas não tenho filhos. Tive que descontar na minha esposa.

- Que porra é essa? - Gritou a patroa no primeiro tapa.

- Coisa de brasileiro.

- Você tá cachaçado?

- Não.

- Tá fugindo da polícia?

- Não.

- Tá devendo pra agiota?

- Não.

- Então que história é essa? Tem que ter alguma decepção para bater na mulher. - Explicou minha mulher, muito sábia nessas coisas de Brasil.

- Tô doente de fome. - Lembrei.

- Se tá doente, tá fraco. - Concordei. - Se tá fraco, não consegue reagir. - Concordei novamente. - Se não consegue reagir, vai apanhar.

- Por que? - Perguntei, assustado.

- E tem que ter motivo?

A barulheira da minha surra alertou os vizinhos, que chamaram a polícia.

- O que aconteceu aqui? - Perguntou o cana.

- Aqui? Nada. - Eu esfregava languidamente o olho roxo.

- Ouviram barulho de briga.

- Não aconteceu nada não...

- Você apanhou da sua mulher? - Fiquei envergonhado, mas assenti. O policial girou nos calcanhares.

- Ué? Você não vai fazer nada?

- Ah, mané, toma rumo na vida e deixa de ser otário.

Acho que é isso que eu preciso. Tomar rumo e deixar de ser otário. Vou tomar rumo de outro país e deixar de ser brasileiro.

 

fin

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