Sou brasileiro e não me orgulho nunca

Parte XI

 

O Brasil não tem problemas. O país é um problema. O mais hipócrita deles é a Justiça.

- A Justiça só funciona com pretos, pobres e lascados.

- Nem isso. - Retruco. - Hoje só funciona para pagar bons salários aos que fraudaram os concursos de admissão.

Todos os dias vemos notícias de crimes cometidos por bandidos que foram soltos das prisões por algum motivo técnico. Demora do julgamento é motivo para soltar o bandido.

- Mas antes de sair, - pede o Juiz, - assina aqui dizendo que vai voltar para o seu julgamento de assassinato.

- Valeu, seu doutor. Se precisar encomendar algum pulha, pode falar comigo.

- Onde eu te encontro? - Pergunta o magistrado.

- Pode deixar que eu encontro você.

Li nos jornais que houve a execução de um conhecido bandido de apenas 25 anos. Os atiradores foram presos.

- Se eu fosse a polícia, não prenderia esses caras. Eles solucionaram o problema da Justiça. Sem criminosos, sem julgamentos, todo mundo na mordomia.

Dizem que o país está andando para frente. Queria apenas que saíssemos dessa estrada para o abismo.

- Gente rica não é presa no Brasil? - Pergunta um etê.

- Claro que não. Os ricos cometem menos crimes.

- Quem disse isso?

- A Justiça.

Errados estão os corretos. Eles cumprem as normas, pagam os impostos, não se aproveitam de nada e ao final recebem por agradecimento apenas o escárnio daqueles que são incorretos e se dão bem. O pior é saber disso tudo e ainda possuir uma mortal tão rígida que o impeça de fazer besteiras.

- Eu queria roubar. - Angustia-se o raro homem honesto. - Mas não consigo.

- Faça como eu: não roubo, apenas não impeço que outros roubem. Recebo muitos benefícios por isso.

- Meu problema não é o roubo. - Reclama o probo. - Mas de quem se rouba.

- Eu só vejo roubarem do Governo! - Defende-se o conivente.

- Mentira! Você vê, na verdade, roubarem de todos, dos pobres, dos inválidos, das criancinhas abandonadas. De mim, que sou correto.

- Então por que você não reclama?

- Reclamar para quem? - Indago, insólito. - Sou brasileiro e não me orgulho nunca.

 

fin

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