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Sobre o papagaio, o peixe e o quero-quero.
- oi. Não havia ninguém por perto, pensei que a voz esganiçada fosse imaginação. - loro dá o pé. Procurei, então, nas árvores. Um jovem papagaio me olhava de soslaio. - tá perdido, ô emplumado? – Perguntei. O papagaio espreguiçou as asas. Pensei em oferecer o dedo para ele subir, mas o bico afiado me demoveu da idéia. Além do mais, apareceu um amigo do meu irmão, quase bêbado. Ele sentiria menos a dor de uma bicada. O dono do pássaro, um japonês meio gago, perambulava desolado pelas ruas. Meu irmão o inquiriu sobre o que ele buscava e o levou ao nosso encontro. Sua satisfação era um misto de risadas orientais com trinados gagos nervosos. Inimitável! Menos para o papagaio que se derreteu em gracejos ao ver o dono. - o bicho se apresentou. Parecia pedir ajuda. – Comentei. – inteligente, né?!. - é-é-é-é-é um loro muito vivo! – Gaguejou o homem. - é-é-é-é loro vivo. Loro vivo. – Falou o papagaio. Quem disse que bicho não pensa? Certamente foi uma besta; no sentido pejorativo, chulo mesmo, pois falou besteira. Qualquer pessoa que já criou um animal de estimação sabe o quanto eles são espertos, como interagem com inteligência e se comunicam com facilidade. É uma relação mais sentimental que racional, claro, porém todas as outras relações humanas, principalmente entre pessoas que se gostam, acabam se tornando sentimentais. Os bichos pulam as etapas e vão direto ao ponto. Outro dia resgatei um cará filhote da vara de um pescador na beira do lago Paranoá. Levei-o para casa e o introduzi no aquário. Tímido, passou dias escondido entre a vegetação. Logo percebeu que ali não havia perigos e que a comida era farta. Descobriu também os caramujos. Em questão de horas comeu todos os tentáculos dos coitados. Fiquei puto! Eu ofereci redenção mas o pilantra exigia o paraíso. - vem cá, fominha! – Pesquei o cará com a redinha e o levei de volta para o lago. Eu poderia simplesmente jogá-lo na privada, o cemitério dos peixes de aquário, ou até mesmo mandá-lo para a panela: cará frito é ótimo acompanhamento para cachaça. Contudo, padeci do peixe. Ele não fez nada além de seguir os próprios instintos. Eu jamais iria puni-lo por agir como um peixe. Essa coisa de proibição contra ações naturais é inerente aos homens. Derramei o saco com o peixe nas águas do Paranoá. O bicho nadou num pequeno círculo, como se reconhecesse a região, e aportou à margem. - vá nessa. – Falei. O peixinho continuou parado, metade do corpo frágil fora da água, numa atitude imponderável. Agitei os braços para espantá-lo; tive medo que ele estivesse doente ou simplesmente melancólico. O peixe continuou estacionado aos meus pés. Agachei-me. Posso jurar que seus olhos me fitavam. - tchau, amiguinho! – Encostei levemente o dedo em sua cabeça. Ele se encolheu como se preparasse a arrancada e chispou dali. Me lembrou uma criança que sai esbaforida após receber o presente dos sonhos. Continuei passeando; avistei um quero-quero. O pássaro põe ovos em lugares abertos e passa toda a gestação protegendo as crias com ataques aéreos quase kamicases. Tentei contorná-lo pela esquerda mas apareceu o parceiro. Ou parceira, sei lá. Pela direita o lago impedia minha passagem. Caminhei mais uns passos. O quero-quero alçou vôo. Logo surgiria do céu e me bicaria o topo da cabeça. Resolvi deixar a fauna em paz e piquei a mula. Ponderei com o botão da minha bermuda (o único do meu vestuário): ora, o quero-quero não escolhe ser antipático, como alguns chefes que tive. Embora seus ataques me incomodem, ele age por instinto e não nutre rancor; quer apenas me espantar. Igual ao cará, acabou sofrendo com uma impressão errada por suas ações instintivas. Esperto é o papagaio; aprendeu a língua dos homens e consegue se fazer entender. Talvez, por sua compreensão, ele veja que os homens não alcançam os desígnios da natureza - já nos afastamos dela há tempos - e por isso não conseguem ver que todos os seres do planeta estão interligados, que o equilíbrio entre as espécies é a única forma de preservar a existência de todos. As más-ações dos seres humanos não são lógicas nem necessárias, não são naturais; existem por conta da falta de instinto e em favor de uma pretensa civilização evoluída, afinal, as atitudes humanas antipáticas ou agressivas são racionais. Só agimos sentimentalmente quando, calmos, desejamos agradar nossos semelhantes. Os animais nunca atacam com raiva. A fome e a auto-preservação são justificativas justas, diferente das razões insensatas dos homens. Estes, sim, não pensam. Talvez os bichos já saibam de coisas que nem imaginamos. Pode ser que compreendam que o importante é a harmonia, os bons sentimentos que impregnamos à alma durante a vida. A forma como eles acontecem não importa. Cada espécie preserva seu instinto puro esperando conquistar a feliz tranqüilidade. O que falta ao homem, talvez, seja este instinto nobre. |
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fin |
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