Sobre essas coisas (que gosto e não gosto)

Sobre andar pela cidade, coceira e incongruência

 

Gosto de andar pela cidade

As coisas têm* mudado rápido. Carros já são estorvos em grandes cidades. Eu, que sempre preferi duas rodas (a bicicleta; a moto e, no futuro, a cadeira de rodas), descobri a terapia da trilha urbana.

Tenho perambulado para todos os cantos. Desisti do carro no dia-a-dia. Fico livre da preocupação com estacionamento, roubo, batida, furto de som, arranhão de flanelinha mafioso e outra infinidade de chateações, tudo pelo status de andar de carro (que, sintaxicamente, já é uma incongruência. Ou anda, ou roda no carro). A autonomia proporcionada pelo automóvel é ilusória, o motorista fica preso ao veículo.

Vi que sou um caminhante. Adoro andar. Tenho relaxado pelo aprazível boulevard W3 ao entardecer, de volta ao lar, enquanto aprecio o esplendoroso dégradé das árvores e a arquitetura do céu. Chega de trânsito.

Brasília foi feita para andantes, os pilotis são a prova, mas nem tudo é só alegria. Nos dias de chuva, por exemplo, a alternativa do ônibus não foge à regra de ser uma lata de sardinhas ambulante. Os calos, a sujeira nas barras das calças e o perigo de atropelamento também devem ser considerados (a faixa de pedestre é respeitada, mas ai do andarilho que botar o pé fora...). Ademais, eu moro perto do serviço, é um breve passeio de quarenta minutos. Quem vive fora do plano-piloto e trabalha no centro deve que incluir a distância entre os entraves do caminhante urbano. A cidade foi imaginada para andantes, mas projetada para carros, uma incongruência.

 

Não gosto de coceira

Os passeios ajudam a controlar as calorias e a aliviar as ressacas, mas cobram seus dividendos. O suor cozinha o pé dentro do tênis e produz um chulé digno de registro, mas não é o pior, há também a coceira, tanto a provocada pelas frieiras (da umidade de suor nas meias) quanto pelo grude das roupas ao corpo. As calças se colam às pernas empurrando os pêlos elipticamente de volta à pele, que a pinicam como uma miríade de galinhas ciscadoras, provocando uma vontade de se livrar das roupas mais forte que qualquer tesão juvenil.

Coceira é uma vontade que não se satisfaz, é a solução que piora o problema; é viciante, entorpecente e luxuriante, mas também é inconveniente e desagradável, principalmente se ela for alheia e íntima. É pior que doença: o sujeito tem câncer, mas o sofrimento é coceira; tá queimado, coça feito o inferno; tem pneumonia, coceira interna nos pulmões; micose, coceiraço; depressão, coceira não sabe onde. A coceira é o mal da maioria das enfermidades. Coceira é um saco.

 

Não gosto de incongruência

Por outro lado, a coceira pode ser a coisa mais agradável do mundo. As mulheres que me desculpem (por jamais entenderem), mas não há coisa mais gostosa que satisfazer aquela coceirinha no saco. Quando os pentelhos, suados, voltam-se à pele, naquela pinicação, e as bolas rolam pela cueca, bagunçando ainda mais o ninho de mafagafos que é a genitália masculina, daí, no auge dos tremeliques incômodos, o “roc-roc” salvador, a sensação sublime depois do orgasmo múltiplo, com a vantagem de se alcançar a coçada sempre que quiser.

Surge, então, inexoravelmente, a incongruência: como a coceira no saco pode ser boa se coceira, a princípio, é ruim? Da mesma forma que andar pela cidade é relaxante ainda que chulezento. Para cada prazer, uma conseqüência.

Felizmente, a coceira é um preço até baixo pela tranqüilidade de andar livre pela cidade. A incongruência seria permanecer “andando” de carro depois de conhecer toda a delícia dos caminhos pedestres, principalmente pela cidade-jardim Brasília, que tem natureza e civilização se tocando nas esquinas (!). Status, no século XXI, é ser engajado ecologicamente, um andarilho do novo planeta.

 

* este acento, por exemplo, já caiu.

fin

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