Sobre anarquia, super-homem e orgasmos

 

- Você é anarquista? – Espantou-se a incauta.

Claro, pensei. Imagino no futuro o super-homem de Nietzsch senão restará à humanidade o auto-extermínio. Homens voadores de cueca, vestidos de bandeira do EUA, são facilmente derrotados por kriptonita. O que precisamos realmente é do ser humano melhorado, capaz de ajudar a si ao próximo com o mesmo ardor. Que privilegie o bem comum e não admita discriminação. - Sim.

- Então você aprecia o caos. – Arqueou o olhar.

- Uma família é a melhor expressão da anarquia: é um caos mas é justa e perfeita.

- Nunca funcionaria... – Desdenhou.

Claro, pensei. Com pessoas egoístas e estúpidas qualquer forma de convivência humana é irascível, mas com super-homens a coisa seria diferente. O conceito principal é a percepção da irmandade entre todas as pessoas do planeta Terra. Uma gigantesca tarefa, utópica, porém imprescindível à anarquia. Se todos percebessem que pertencemos à mesma raça e notassem que proteger seu irmão é a única maneira de eliminarmos a miséria e as ansiedades que distorcem a calma dos homens, certamente todas as outras relações se humanizariam, as intrigas perderiam sentido, disputas se mostrariam tolas, desejos seriam fúteis. – Nunca funcionaria... – Concordei.

- Não daria para controlar todo mundo.

Claro, pensei, principalmente porque o super-homem não precisaria de controle. Ele mesmo possuiria uma inserção tão nobre à idéia da comunidade livre que não tomaria atitudes que fossem deliberadamente ao encontro de outros interesses. Quimera, eu sei, mas é uma teoria linda. O homem respeitando o outro como a si mesmo. Já disseram isso em outras palavras.

Ademais, se houvesse a necessidade de um registro para a organização dos cidadãos do planeta (claro, planeta, pois se ainda existissem países nunca haveria paz. E sem paz não há super-homem), bastaria um belo software optimizar os serviços públicos e os registros das organizações sociais. O mundo já passou pela Revolução Tecnológica e os acadêmicos ainda analisam os sistemas de governo criados antes da Revolução Industrial. Nem dá para comparar.

Se, ainda, houvessem divergências, bastaria eleger um juiz autorizado por ambas as partes conflitantes para um julgamento imparcial e definitivo. Algo como uma decisões de Salomão. A vantagem é que esse juiz seria escolhido pelos lados e nunca imposto pelo sistema, para proclamar suas decisões estúpidas de juristas democratas-corruptos com antolhos de frias leis inventadas em tempos antigos.

- Poisé. – Anui com a cabeça.

Ela me olhou com carinho. Acariciou meu rosto barbudo. Me beijou.

- Acho lindo seus pensamentos anarquistas.

Sim, claro. Mas se soubesse que desprezamos a militarização, pois é a principal estrutura de força desassociada à inteligência e também a migração da propriedade privada aos descendentes, para desmontar as oligarquias econômicas familiares, será que ainda gostaria mesmo sendo filha de um general que mora num bairro nobre?

- Acho lindo seus peitos. – Retribui.

Na cama ela era maravilhosa. Gozei em três minutos. No máximo.

- Já? - Ela resmungou.

- Sou igual ao super-homem. – Sorri. – Mais rápido que uma bala.

- E eu? – Ela botou as mãos na cintura. – Sobre dividir as coisas igualmente...eu ainda não gozei!

Sim, pensei, mas essa história de dividir tudo é pensamento comunista. Nós, anarquistas, só cuidamos do que é nosso. Nunca nos metemos em nada que crie problemas.

- Vou te ajudar. – Esparramei o corpo no colchão. – Depois da soneca.

Claro, pensei, no futuro tudo será diferente.

fin

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