O roubo da moto
Parei a SilverFênix no meio dos motoboys do Venâncio 2000. Pensei em colocar a tranca, mas... oras, não iria demorar, seria uma reunião rápida, no lugar da chefa, para quebrar seu galho. Mas demorou! Inda tive que fazer um cadastro num sistema de blábláblá...coisas de serviço público. Fiquei livre às onze e meia da manhã, peguei o capacete e voltei para a moto. Pensei no prazer de subir a serra de Sobradinho de volta pro serviço, não pelo emprego, é claro, mas pela sensação de poder ao acelerar a moto de quatrocentas cilindradas e sentir o vento rasgando o rosto enquanto o sol muda nossa sombra de lugar no asfalto. O visual panorâmico de Brasília, o céu longínquo, a secura do chão, tudo aumentando o tesão em deslizar sobre duas rodas, equilibrando entre o perigo da morte num acidente trágico com os ameaçadores carros e a felicidade em pilotar a motoca com liberdade entre o próprio peito e a natureza, o ar, o sol, a Força.. Não a vi em seu lugar. Não! Putz, roubaram minha moto! Corri para a primeira loja que vi, curiosamente um bar. - Posso ligar para a polícia? Roubaram minha moto. Puta que o pariu. Estas últimas palavras foram as que mais repeti no decorrer do dia. Um taxista ficou tão martirizado pelo meu sofrimento que me levou à 2ª DP para fazer o BO por apenas doze reais. - Ainda faltam quatro prestações! Eu chorava no táxi. - Calma, meu filho, você ainda tem saúde. Saúde? Pensei nas minhas costas, com distensão muscular há um ano, na minha caspa, que iria aumentar com a tristeza do roubo, na cicatriz no meu rosto que, por erro médico, me deixou parecido com o Falcom Olhos de Águia, nos meus olhos míopes e no óculos que eu havia perdido na segunda feira passada... - Tem chance de achar? Perguntei ao tira na delegacia. - Irmão, - Ele também era motoqueiro. a chance é quase nula. Eu já sabia, acompanhava as notícias nos jornais, mas meu coração apertou do mesmo jeito. A SilverFênix estava perdida. - Tinha seguro? Quis saber uma mulher que esperava para ser atendida. - Não. - Eu nunca tiro um carro da concessionária sem seguro. Disse. - E quem te perguntou, sua vaca enxerida? Respondi, mas logo retruquei. E vá para os quintos dos infernos. O taxista, condoído pela minha desilusão, não só me esperou terminar o BO como me levou para a rodoviária. Seu nome era Severino. - O único pecado que existe é o roubo. Roubar uma moto, uma mulher, uma vida... Assenti. Sua filosofia não consolava mas acalmava as idéias. Caminhei as nove quadras até meu apartamento, não queria nem ônibus nem carona. Logo chegou a Rê. - Acho que vou tomar uma cachaça para me acalmar. Balbuciei. - Hoje você merece. Ela estava triste como eu, mesmo nunca tendo andado de moto comigo. Prometeu ao pai. Mas me espere acordado. Referia-se à possibilidade deu passar o resto do dia bebendo os mortos, afinal, ela achava que perder a moto era o mesmo que perder um parente. Um parente meu, que eu gostava muito. - Claro. Menti, por amor, afinal minha maneira de tratar as perdas, principalmente as familiares, é enchendo a cara até entupir o nariz! Acordei às seis da tarde. Acho que alguns amigos telefonaram em solidariedade. Voltei à sala e vi algumas garrafas vazias na mesa. - Acho que alguém tá bebendo minhas cachaças... Balbuciei antes da ressaca normal e da moral por ter investido tanto tempo, atenção e dinheiro em....nada.
Agora, o pedido: Salvem-me, pelamor de qualquer deus. ROUBARAM MINHA MOTO! A SilverFênix foi seqüestrada. É uma Falcon NX-4 Grafite (parece preto) com mata-cachorro e pedaleiras prateadas. Um dos meus amores, certamente o mais veloz. A placa é DAG8905.
|
fin |
| Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca |