Adoro a lógica feminina e detesto chilique

 

Estava num aniversário com bolo. A mãe do festejado acendeu uma vela em formato de “um”. Tentou acender o outro “um” mas o palito de fósforo apagou. Riscou outro que também apagou. O “parabéns a você” estava a todos vapor.

Ela tentou acender mais um palito porém o vento a impediu. “Nesta data querida” cantaram os convidados. Nervosa, a mãe começou a tremer. Riscou outro fósforo e aproximou a chama da segunda vela. Mais uma vez não conseguiu acendê-la.

No “muitas felicidades” resolvi salvar a coitada. Empurrei o pavio da vela apagada em direção à chama da vela acesa. O outro “um” acendeu, formando um inflamado “onze” sobre o bolo. O aniversariante me olhou satisfeito. Sua celebração estava garantida!

“Muitos anos de vida” foi o encerramento da cantoria. Ninguém gritou para o aniversariante apagar as velas. Algumas pessoas me olhavam sorridentes, pareciam felizes por eu ter conseguido acender a mísera vela.

- Obrigada. – Falou a mãe enquanto cortava o bolo. – Senão eu teria que pegar um isqueiro.

“Isqueiro?”, pensei com o botão das minhas calças. Mesmo ela tendo visto minha solução prática para o fato, ainda não pôde induzir-se a agir de uma forma diferente de sua linha de pensamento. Este é o pensamento feminino: objetivo, simples e prático, porém sofrivelmente linear.

 

Uma coisa que detesto é chilique.

 

Parei a SilverFênix em frente a uma mecânica de motos que fazia lavagem completa.

- Quanto é o banho? – Gritei de dentro do capacete.

- Dez pilas. – Respondeu o homem-graxa.

- Depois do almoço eu volto. – Avisei. Acelerei e fui à caça de comida. Estacionei e desliguei a chave. A moto continuou funcionando.

- Ué?

Futriquei nos botões até conseguir desligá-la. Depois da bóia voltei ao lava-motos. Parei em frente e retirei a chave. A Silver manteve-se em funcionamento. Chamei o mecânico e ele definiu:

- Relê da partida.

O cara trocou o relê mas não corrigiu o problema.

- Bateria. – Informou.

Trocou a bateria.

- Quanto? – Eu quis saber.

- 140 pela bateria e 40 pelo relê.

- Troca tudo de volta e apenas lave a moto. – Eu desconfiava de frescura mecânica.

O cara não gostou mas cumpriu. Liguei a moto, limpinha, no tranco e pilotei para o trabalho. Gastei uns dez minutos dando carga na bateria.

Mais tarde, ao subir na moto, o motor de partida funcionou perfeitamente e a bateria estava como nova.

- Qual foi seu problema, Silver? – Perguntei. Eu converso com minha moto. – Deu chilique por que não queria tomar banho?

Posso jurar que o motor roncou de forma diferente. Parecia concordar comigo.

- Dessa vez passa, mas pare com isso. – Pedi. Não fui muito incisivo pois não quero contrariá-la. Pode ser que um dia ela dê outro chilique que me jogue no chão, ou pior, debaixo de algum caminhão.

 

fin

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