Odeio escrever no serviço e fedor e adoro o Angeli Uma coisa que odeio é escrever no serviço. Sento em frente ao computador, preparo o papel virtual e logo chega outro servidor público inútil e sem o que fazer para bater papo. - Você viu que soltaram os irmãos Cravinhos? Comentou um assistente de assessor. - Nem eles, nem os irmãos Espinhinhas! Cortei o papo, irônico e grosso. Posicionei as mãos sobre o teclado. - Deixa eu te perguntar uma coisa? Enfiou a cara na frente do monitor. - Já perguntou. Emburrei. Desafasta. - É sobre aquele processo... E engrenou um interminável monólogo jurídico-administrativo. - ... assim, o que devo fazer? - O que você achar melhor! Pisquei, sorri e estiquei os dois dedões Agora me deixa escrever. - O que você ta escrevendo? - Se fosse para você saber eu estaria falando e não escrevendo. Funguei e olhei nos olhos do chato. Quer mais alguma coisa? - Sim. O assistente empertigou-se. Quero mais educação! Falou alto e desafinado. - Então volte para o Mobral. E tentei voltar a esta crônica.
Uma coisa que odeio é fedor. Fui malhar no parque e me pendurei no aparelho de barras. Cansado, enxuguei a testa. Quase cai para trás com o cheiro entre bosta podre e vômito seco no ar. - Iécati! Procurei nas solas dos sapatos, no chão ao redor, na rua algum cachorro morto. Para ver mais longe tapei o sol dos olhos. Descobri que o cheiro vinha das minhas mãos. - Onde vocês seguraram, ingratas? Perguntei a elas. Esfreguei com o sabão líquido e verde do banheiro público. O cheio ruim foi trocado pelo cheiro de desinfetante barato. Voltei ao serviço e encontrei dois colegas conversando. Coloquei as mãos em seus rostos. - Que cheiro de cu! Gritou um. O outro pegou minha mão e a cheirou. - Tem cheiro do cu do Álex. - Você conhece o cheiro do cu do Álex? Perguntei. - Há anos. Respondeu sorrindo. Olhei de soslaio, tentando não rir do trocadilho do boiola disfarçado e subi para minha sala. Mais tarde encontrei o Álex. - Estávamos falando de você. Comentei. - Bem que senti ardendo. - A orelha? Eu quis saber. - Outra coisa. Trocou as cadeiras de lado para responder. Mais sensível.
Uma coisa que adoro é o cartunista Angeli. É ele o autor da idéia sobre duas coisas que odeia e uma que adora. Eu o plagiei. - Adoro o Angeli. Pensei em voz alta enquanto lia os quadrinhos do jornal - Quem é Angeli? Perguntou Álex, que rebolava pela seção. - Um desenhista. - Uma vez um desenhista pintou todo meu corpo para o carnaval. Trançou os dedos enquanto relembrava. Uma loucura! Nu e pintado. - Você já foi muito pintado? Perguntei com a gargalhada presa no gogó. - Pintado? O homem me olhou com dúvidas. Algumas vezes. Por quê? - Gostou? O sorriso explodia em meus olhos. - Se eu gostei de ser pintado? O loirão tingido engrossou a voz mas falou sussurrando. Adorei! Você tem pincel? - Eu não, Alex, mas o pessoal lá de baixo me contou que faz pintura a dedo. Abri os dentes. Passa por lá! Fiz minha cara mais simpática e voltei a ler o Angeli. Muito bom esse cara.
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fin |
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