Mas eu fumava
A vida estava o caos: sem profissão aos 35 anos de velhice, vivendo um casamento de aparência, numa cidade que já havia dado no saco, apresentando-me sempre como o alter-ego do monstro que escondia na alma, bem amarrado e amordaçado, para conviver com aqueles que desgostava e ainda assim aparentar com eles. Essa incoerência nunca havia me incomodado. Até agora! Afogado na mágoa do triste rumo da minha trajetória, pensei em desistir. Assim, pronto, cansei da vida! Daqui para frente não me renderia mais ao capitalismo nem às outras idiotices da sociedade. Seria um eu-mesmo autêntico, certamente um vagabundo e provavelmente um desajustado. Conseguiria sobreviver? Acho que não, pois nem mesmo neste alter-ego aprecio vagabundos livres e felizes. Tantas incoerências. Aliás, é o mote da minha existência: para quê sirvo no equilíbrio das coisas? De manha já estava alto antes das nove. Logo estava no computador chafurdando na pornografia da rede até o almoço, quando passeava de carro para complementar a fumaça azul da cabeça. Antigamente usava o tempo para malhar. Andava musculoso e bem disposto. Gostava de ser assim, mas eu fumava. Escrevia bem, diziam, mas não tinha muito o que dizer. Oras, o que um fracassado como eu teria para acrescentar ao compêndio da sabedoria humana? Talvez eu pudesse mostrar minhas mágoas, como centenas de escritores e milhões de blogueiros. Não, escrevia para não ser mais um entre tantos, não ia querer fazer o mesmo que todos. O que eu queria era explicar como me sentia quando estava alto. No fim do dia estava sempre ansioso pela noite parte da auto-imagem imbecil que fazia de mim mesmo como um jovem rebelde, mesmo não sendo jovem para tanta recalcitrância mandava mais um pouco para o cérebro para agüentar dirigir até em casa. As estradas de Brasília, retas, me distraíam. O motor do carro rodava macio. Olhava o pôr-do-sol. Me maravilhava a cada dia. Talvez essa fosse a minha recompensa por tanta depressão: o céu mais deslumbrante do planeta. Tonalidades, desenhos, degradês, nuvens coloridas, raios de sol cortando horizontes e iluminando toda a abóbada celeste como laseres espaciais. Não sei o que mais fazia minha cabeça nesta hora: o céu ou a fumaça. Tantas incoerências. Pensava em ser um herói, queria ser bem quisto perante os meus. Todos me conheciam, sabiam o tanto que eu era fraco e incapaz. Não se apenavam, achavam apenas que eu era preguiçoso. Estavam com razão. E, estupidamente, eu continuava sonhando em um dia brandir meu sabre-de-luz e salvar vidas, recebendo resgates por minhas glórias. A mitificação do personagem. Deveria, entretanto, preocupar-me em salvar a vida mais importante entre todas, a minha, mas não conseguia me incomodar. Meu coração não agüentaria mais estresse, logo pipocaria num tremelique fatal. Eu precisava reaver as rédeas da minha vida e conduzir meu caminho para onde eu quisesse, não deixar livre para aceitar apenas o que viesse. Quem não faz escolhas é imposto a elas. Durante as lombras vinham sonhos malucos e felizes, capazes de amortecer qualquer desgosto. O problema é que acalmava também a força-de-vontade. Eu evitava a movimentação. Era a preguiça! Ou a dormência. Vivia num mundo diferenciado, meio mágico, meio maldito. Tudo assumia um tom de cinza. Havia o colorido, mas não era somente a cor viva, estava junto o cinza. As coisas também não importavam tanto quanto antes. Os bens não eram mais necessários. Não queria ver gente, falar da vida, conhecer coisas novas. Apenas o baseado e o sofá, além do copo de água gelada. A televisão como companhia, ou um livro, a internerd, a janela, o cactos que cultivava. Tudo me atraia mais que qualquer coisa do mundo sério. Não tinha mais o mínimo interesse em participar das competições por melhores posições nesta sociedade que se importa mais com o que você tem do que quem você é. Eu fumava. |
fin |
| Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca |