Gosto de premonição e detesto reclamão Uma coisa que gosto é premonição O futuro é o que construímos através das ações presentes. Ele acontece através da cadência de acontecimentos naturais e provocados. O destino não existe. Se pervertermos o andamento da história, as coisas se alterarão. Essa é a regra. E, dessa forma, imagino que possa haver alguma forma de prever o futuro, de provocarmos uma vidência. Certa vez fui a um médium. Eu era alérgico e vivia fungando pelo nariz. Entrei pela sala, o cara me olhou e proferiu: - Você está resfriado. - É uma afirmação ou uma pergunta? Indaguei limpando a coriza. - O que você acha? - Acho que não importa. Virei-me para ir embora. Isto é uma alergia. Penso que os realmente capazes de ver o futuro não vendem seus serviços, simplesmente o usam em benefício próprio. Devem ser os grandes magnatas. Ou, talvez, os loucos. Os loucos vivem dizendo que o mundo vai acabar e que o fim está próximo.
Uma coisa que detesto é reclamão De manhã, no almoço e de tarde tem futebol. Em todos os canais de televisão só se fala de futebol. As ruas, as pessoas, a vida está decorada de verde e amarelo. É época de copa e o pais das chuteiras vibra com a Seleção. - Detesto futebol. Detesto copa do mundo. Disse a chefe da amiga da minha mulher. Elas saíram do serviço e foram lá para casa reclamar de coisas masculinas. - Eu sou viciado em futebol Expliquei. - Nessa época só se fala da seleção, que saco! Resmungou. - Em outras épocas se fala de outros assuntos. Repliquei. A copa só dura um mês, relaxa. Amenizei seu humor. - Mas eu acho... - Shhh. Alertei. O telefone está tocando. Todos olharam o telefone que continuava silencioso. - Ele não está tocando. Falou a reclamona. - Eu sei. Continuei em silêncio por instantes. Mas vai tocar. Previ. Que mulher pentelha. Irritar-se por qualquer bobagem. Futebol é uma bobagem. Tem milhões de torcedores, times milionários, carreiras estelares mas não passa de uma paixão fútil. Sem essa noção, idiotices como brigas de torcidas e até assassinatos acontecem impulsionados pelo furor do amor à esquadra preferida. A chefa, por questionar essa paixão, coloca-se no mesmo patamar do torcedor idiota que cospe no adversário. Lasse faire lasse passe, deixe fazer e deixe passar, senão se age de forma tão boçal quanto o obtuso que se critica. Alguns minutos depois o telefone tocou. - Viu?! Tive que provocar. Atendi. - O Bussunda morreu! Contou-me ao telefone minha sogra. - Ih, a senhora tá atrasada. Num carnaval ouvi que o Bussunda morreu e pensei: Putz, aquele gordo deve ter se excedido. O ano era 2003. Depois de uns dias tudo se revelou uma farsa com objetivo ignorado. - Esse boato é de carnavais passados. Trocei da coitada. No mesmo momento a televisão anunciou o falecimento do humorista. - Não acredito que ele morreu! Disse a chefa. Essa não! Ele era o mais engraçado! Já vai reclamar?, pensei com o botão das minhas calças. - Será que eles vão continuar? Falei ao mesmo tempo da chefa reclamona. Eu a encarava e sorria, sabia que ela iria perguntar o que aconteceria com o Casseta e Planeta. - Ai. Ela tinha cara de susto. Como você adivinhou o que eu iria falar? Teve uma premonição? - Sim. Respondi. Tô tendo outra agora: o mundo vai acabar. - Ai, credo, você é louco? Reclamou mais uma vez. - Bem, magnata certamente não sou.
http://www.e-farsas.com/corrente_bussunda.htm
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fin |
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