O que trazes para mim?

 

Levantou-se, calçou os chinelos em formato de coelhinho branco, enrolou-se no roupão vermelho e atendeu a porta. Sabia que estava ridículo. Adorava sentir-se assim.

- Pois não?

Uma senhora enrugada e meio curvada vendia ovos de chocolate. Ele agradeceu mas negou a oferta. A velha insistiu.

- Se você não abrir o ovo até a páscoa, pode ficar com este. – Em suas mãos surgiu um grande ovo de páscoa embrulhado em papel rosa.

- Oba. – Resmungou e aceitou a prenda.

- Lembre-se – advertiu a mulher. – não abra até a páscoa. – O dedo reumático apontava-lhe o rosto. Faltava ainda um mês.

No sábado de aleluia sonhou que dentro do ovo encontraria o feto de um coelhinho não-nascido. Assustou-se e acordou suando. Na escuridão do quarto, ouviu alguém cantando.

- "Coelhinho da Páscoa, o que trazes para mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim!". – A voz era engraçada e suave mas logo ficou muito alta.

Uma mão gigantesca o agarrou. Era coberta de pêlos brancos. Ela o pousou no chão e alisou suas costas. Sem saber de onde, um enorme pé de coelho apareceu e aconchegou-se entre suas pernas. Forçou-se para dentro de suas carnes. Era enorme. Inacreditavelmente encaixou-se confortavelmente no seu ânus e o levantou do chão. A voz ainda cantava.

- "Coelhinho da Páscoa..."

Ao seu lado surgiu um homem. Ele estava preso pelo ânus no pé de uma monstruosa perna. Apurou os olhos e notou que ele e o outro homem eram chinelos nas patas de um colossal coelho usando uma roupa de papel rosa.

- Hei! – Gritou o outro. – Você também ganhou um ovo daquela velha?

 

 

fin

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