O tratador de cães
Geraldo trabalhava como motorista. Dirigia de caminhões com carga até vans com pessoas. Homem simples, tornou-se conhecido no subúrbio por cuidar de todos os cães que lhe parassem nas mãos. Adorava os cachorros. Dizia que eram seus únicos amigos fiéis. Conheci Geraldo numa carona, ele me levava para outro município. Pediu para passarmos em sua residência para alimentar os cães. - Claro. Concordei. No terreno, coberto de casinhas de cachorro bem cuidadas e habitadas, havia dezenas de cães. O homem empertigou-se antes de sair do carro. Os cães ladraram desesperadamente. - Calma, senhoras e senhores, já irão comer! Anunciou. Fui atrás do homem. Os cães não latiram para mim e muitos vieram me pedir cafunés. Brinquei com alguns antes de Geraldo voltar do barracão ao fundo do lote. - Cuidado! Alertou. Muitos são bravos. - A cachorrada gosta de mim, Geraldo. Falei ao afagar o focinho de um pastor belga. O homem olhou-me desconfiado. Voltou ao barracão e dele saiu carregando uma grande caixa com carne crua e arroz cozido com legumes. Muitos quilos de carne crua. Dividiu a comida irmamente entre as dezenas de pratos espalhados pelo quintal. A cachorrada se fartou: filas-brasileiros, pastores-alemães, pitt-bulls e muitas outras raças, definidas ou não, partilharam do rancho. De volta à estrada, Geraldo puxou conversa. - Então os cachorros gostam de você. - Sempre gostaram. Expliquei. Desde criança. Lembrei do passado. Nunca fui mordido. - Eu já fui. Relembrou ao me mostrar várias cicatrizes nos antebraços e nas pernas. Dias depois apareceu perguntando se tudo estava bem comigo. - Sim, estou jóia. - Não tem nenhum homem mau te incomodando? Meus sentidos se ligaram. Havia algo estranho. - Que tipo de homem mau? Falei baixo e confidencialmente. Ele me puxou para uma sala. - Homem mau mesmo. Disse, olhando-me no fundo dos olhos. Desses que não merecem a graça de Deus. Firmei o olhar e torci a cabeça, minha expressão de explique-se melhor. Os cachorros falam comigo. Querem que eu ajude o senhor. - O que eles te falam? - Eles me xingam. Geraldo abaixou os olhos. Dizem que sou sujo, que não mereço a graça de Deus. - Pensei que você gostasse dos cachorros. - Eu gosto. Havia muita tristeza nos olhos do tratador de cães. Eles são vingadores do Senhor. - Não estou entendendo, Geraldo. Coloquei minha mão branca em seu ombro. Conte-me tudo, sem medo. Ele parecia carregar um peso na alma. As linhas em seu rosto tornaram-se mais agudas, fazendo-o parecer um buldogue tristonho. - Muitos anos atrás... Ele parou e me encarou, parecia conferir minha atenção. eu fiz uma besteira. Uma besteira muito grande. Fiquei bêbado e ataquei uma menina. Fiz coisa feia com ela. A confissão inesperada me deu vontade de esmurrar a cara de Geraldo, mas queria saber aonde ele chegaria. - O cachorro da menina ficou latindo o tempo todo. Era um fox-paulistinha preto. Eu me mexia e ele me atacava. Mordeu minhas mãos e minhas coxas. Respirou fundo. Quando sai da menina, o cachorrinho voou em cima de mim. Mordeu meu saco e não soltou. Acabei matando-o. Geraldo virou-se de costas. Mas ele ficou com minhas bolas entre os dentes. Tive vontade de rir. A justiça havia sido feita. - Aprendi muito aquele dia. Me entreguei à polícia e fiquei preso. Paguei aos homens meu crime, mas ainda faltava pagar a Deus. Verificou se a porta estava mesmo fechada. Descobri que conseguia entender os latidos dos cachorros. Eles são arautos do Senhor. Quando latem para alguém, estão alertando os bondosos sobre o mau naquela pessoa. Dizem assim: homem sujo e mau, saia daqui com seus pecados, vá-se embora e leve sua perdição consigo. Eles sabem quando os homens fazem coisas feias. Brigam com os homens. Outras vezes, gritam assim: pecador infiel, você é cria do demônio e não merece a graça de Deus, vou te morder e rasgar sua pele, vou comer sua carne e roer seu osso, vou te defecar, você será a bosta que deve ser. - E o que eles dizem para você? Perguntei. - Eles dizem que sou sujo, que vão comer minha bunda e minhas pernas. Dizem que preciso equilibrar os bons e os maus para pagar meu pecado com Deus. - Equilibrar? - Eu levo as pessoas más para os cachorros. Sou motorista, ninguém desconfia. Corto em pedaços no barracão e dou para os cães. Respirou antes de continuar. Eles comem, adoram. Deixam pouca coisa. - E os ossos? - Deixo secar ao sol e depois queimo numa fogueira. - Quantos você já levou aos cães? O tratador abaixou a cabeça, contando com os dedos. Mirou-me com as vistas cansadas. - Não o suficiente. - Geraldo, acho que posso te ajudar. Voltei minha mão ao seu ombro. Sei de um bandidinho que tá precisando conhecer uns cachorrinhos. Tempos depois visitei Geraldo para dar-lhe o endereço de outro homem mau. Minha primeira encomenda havia sumido do mapa. - Os cachorros são fiéis. Falou. Nunca deixam de fazer o serviço. Olhei para eles. Pareciam sorridentes, com seus rabinhos abanando o ar. Nenhum latia. Estava bem tratados e, certamente, muito bem alimentados.
|
fin |
| Gostou? Não gostou? Nem leu? Quer que o Mão Branca vá se foder? Escreva para ele: Mão Branca |