Tokine

 

Quando Juvenal percebeu, amava Toki. Ela era uma figura áspera, magrela, cabelo duro, desdentada, fedida e mal-educada, mas adorável. Tão mendiga quanto ele próprio, estava sempre ao seu lado e tentava cumprir tudo o que ele dizia.

- Toki, onde você nasceu?

- Não sei. Na rua.

- Quantos anos tem?

- Não sei.

- Do quê você lembra na infância?

- Eu pedia com minha mãe.

- Cadê ela?

- Não sei.

A vida inteira na rua. Nunca teve casa, carinho, alguma instrução, era ignorante como só um estúpido pode ser. Desconhecia as informações básicas da civilização.

- Toki, tem que lavar a ferida. – Ele repetia. – Não use o pano sujo.

- Por que? Tô comendo a casca.

E ele a amava por isso. Ele a conhecia a ponto de saber que se qualquer outra pessoa a questionasse ela soltaria os bichos, mas com ele não, ela escutava e aceitava. Respeitava-o. Gostava dele, até.

Os farrapos imundos que vestiam não protegia do frio, Juvenal perdera o cobertor. Passaram uma noite abraçados, constrangidos, para diminuir a dor da pele gelada. Fizeram sexo. Se esfregaram tanto para se aquecer que o tesão foi insuperável, ele enfiou o bilau duro dentro daquela esqueleta viva. Sentia seus ossos batendo na virilha, mesmo assim gozou gostoso. Fez questão de manter a ereção até ela se satisfazer. Dormiram, então, abraçados num aconchegante leito de penas de pombo aromatizado com rosas silvestres.

No outro dia o pênis de Juvenal coçava mais que borboleta na garganta. De noite ardia tanto que achou que fosse cair, mas quem caiu foi Juvenal, de febre. Ele havia contraído sífilis, cancro, hpv, gonorréia e três bactérias infecciosas com a transada. Ela estava grávida.

Padeceram juntos por nove meses. Toki da gravidez e Juvenal das febres. Ele temia que o filho nascesse com problemas, afinal, Toki era um poço ambulante de doenças contagiosas, sua alimentação era escassa e imunda, o ambiente que vivia era um chiqueiro e ela jamais fez pré-natal. O neném poderia simplesmente se enforcar com o cordão umbilical durante o parto e ninguém conseguiria salvá-la. Talvez fosse melhor para a criança.

O bebê nasceu lindo. E sem dificuldade. Toki devia ter olhos claros embaixo das pestanas caídas, a criança tinha olhos azuis. Juvenal conseguiu sorrir ao ver o filho, alternava a alucinação por causa das doenças com breves períodos sem dores.

- É perfeito. – Constatou Juvenal. – Toki, que nove dará à criança?

- Filho de Toki? – Ela pausou e pensou. Era a primeira vez que se autodenominava Toki. Gostou. Não se lembrava de outro nome. Queria, então, repetir o nome em seu filho. – Toki né?!

- Tokine?

- Ah? – Ela puxou o peito mole e enfiou na boca do bebê. Não tinha leite.

- Tokine, então, que seja. – Juvenal decidiu. – É um bom nome! – Em pé, estendeu a mão para o céu, ou à marquise da ponte, e declarou: - Hoje nasceu Tokine, filho de Toki e Juvenal.

- Toki e Juvenal? – Repetiu Toki, os olhos sonhadores.

- Sim, Toki, nós dois. – Juvenal a abraçou. Beijou a testa da criança. Tudo iria melhorar, ele faria por onde.

No outro dia, bem cedo, Juvenal arrumou dez pilas de maconha. Fez um belo baseado e o dividiu com Toki. A fumaça azul inundou o caixote de papelão de geladeira em que dormiam. Ela teve o cuidado de fechar as abas laterais, para a fumaça se concentrar e Tokine aproveitar a marola. Juvenal pensou em interferir, mas, oras, o rapaz tinha que se acostumar. Os pais lograram a melhora que o marido prometera, tudo estava calmo. E até feliz. A criança vomitou, mesmo sem nunca ter mamado.

A larica acordou os pais. Limparam o bebê e subiram a ponte, para pedir algo de comer aos passantes. O sol estava a pino quando Juvenal juntou um tanto d’água, pão, duas cenouras e meio hambúrguer. Deu tudo para Toki, que devorou agradecida. Quase imediatamente colocou o peito na boca de Tokine. Agora havia algo a ser sugado. Com esforço, o bebê fez sua primeira refeição, um leite ralo, impregnado do resíduo do THC da maconha. A criança pirou, seu cérebro infantil quase desregulou-se para sempre.

Os anos passaram. Juvenal nunca permitiu que o filho fosse usado como atrativo para esmola, enquanto o marido ficava com a criança, a mulher mendigava. E vice versa. O menino já era capaz de passar o dia sozinho num bueiro entre duas esquinas enquanto os pais saiam em busca do pão. Ele não chorava, apenas olhava o movimento dos carros e controlava aquela dor no estômago tão conhecida. Era fome, achava que era normal. De noite, não entendia nada que o pai dizia. Eram palavras sem sentido ou importância. Gostava só do que a mãe trazia, comida e carinho. O pai, então, dava tapinhas em sua cabeça, o abraçava e dormiam agarrados à mãe. A vida era boa.

Um dia, esperando seus pais, Tokine viu um automóvel estacionar e dele sair uma madame. Achou engraçada a roupa, riu com o rosto ingênuo e imundo. Os olhos azuis refletiam nos cabelos claros. A mulher catou o menino, correu para dentro do carro e não mais se ouviu falar dela. Nem de Tokine.

Toki chorou o seqüestro durante três dias. Juvenal tentava algum consolo, mas estava muito fraco de tristeza. Resolveram se mudar para a frente de uma galeria, não precisariam andar para ganhar esmola. No quarto dia, Toki nem se lembrava do filho. Juvenal ficou magoado com a mulher, mas a entendia e a amava. Imaginava que ela já tivesse parido outras crianças, que tiveram destinos diversos. O melhor era esquecer.

E esqueceram.

Tokine era o único que lembrava. Quando brincava, dizia ter vindo de outro planeta, selvagem, de alimento escasso, que lá era filho de um mago muito sábio e de uma guerreira maravilhosa. A mãe, senhora de muitos bens, o elogiava às amigas mostrando a criatividade do garoto, que era loiro como ela e com os olhos azuis do pai, o industrial que teria separado se a mulher não ficasse grávida e aparecesse com a criança nos braços. Não importava, amava o menino. Quando crescesse, seria o dono de todo o império.

E crescia, o garoto, muito bem, comia de tudo o tempo todo.

- Esse moleque tem uma larica eterna. – Dizia a cozinheira.

- Sou Tokine, filho de Jonal e Toki – Gritou o pequeno Frederico Martim Soares d’Abeci ao bater a espada de plástico na cabeça do dinossauro de borracha. – O mago guerreiro! –. O pai sorriu feliz. Sua esposa, aliviada.

 

fin

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