Estranho
Sim. Sou estranho. Desde moleque sou esquisito. Os outros moleques me obedeciam nas brincadeiras pois me temiam. O tempo passou e contive meu poder. Só o uso no momento oportuno. Eu consigo pressentir emoções. Não é simplesmente um sentimento, é maior. Entenda assim: o sentimento é uma nota musical e a emoção é um acorde - composto por várias notas. Muito mais profundo e sempre aleatório. Eu entendo isso. O amor é o mais fácil de pressentir entre outras pessoas, consigo é mais difícil. O ódio é quase impossível de ser identificado. Ele é obscuro, só se faz notar depois de cumprir suas tarefas. Porém o ódio não é o mais perverso, há ainda o mal. O mal é simplesmente o contrário de tudo que é bom. É destrutivo, odioso, virulento. Ele é tão execrável que absorve calor. Com sua aproximação eu pressinto o frio. Ele sobe pela minha coluna e descarrega-se no couro cabeludo. Sempre reajo instintivamente. Uma vez pulei para o lado, sem motivo, quando um opala subiu a calçada e atropelou as três pessoas que estavam comigo. A que estava do meu lado foi jogada a mais de quinze metros. Outra vez um professor de matemática reuniu um grupo de alunos para ajudá-los nos estudos. Depois das aulas o professor bancava um lanche numa lanchonete e nos levava para caçar corujas com sua espingarda de chumbinho. Um dia nos chamou para acampar. Fui o único que recusou. Achava o professor meio seboso. Um dia encontrei um ex-aluno do professor e ele conversou amistosamente comigo. Eu estava no ponto de ônibus da escola esperando minha condução. Perguntei como ele estava e ele disse que o professor estava querendo falar comigo. Comigo? Disse que o professor estava na rua de baixo. Não, amigo, eu não vou. Ele segurou meu braço e tentou me arrastar. Era duas vezes meu tamanho. Fomos vistos por um colega. Ele gritou e fui solto. Corri para o ônibus. O professor foi preso e condenado a mais de quinze anos. Corrupção de menores. Esse ex-aluno passou um tempo em outra cidade e depois voltou, mais gordo e mais calmo. Pressenti um mal maior que todos numa estrada de chão numa cidade próxima. Eu estava viajando de carro com uma companhia. Encostei o carro numa estrada perpendicular e fiz manobras para colocar o carro de frente para a saída. Durante os amassos, senti a coluna esfriando. Ficou gelada e o frio se espalhou pela nuca. Limpei a janela do carro e olhei para fora. Na escura estrada de terra pude perceber uma plantação de milho na direita e o mato virgem na esquerda. A escuridão engolia a névoa branca que planava sobre o horizonte. Eu não sabia de onde estava vindo aquele frio. Sentia que estava perto, mas não muito. Ainda com tesão, voltei para os amassos. Alguns minutos depois o frio da minha nuca congelou os músculos e fincou-se nos meus ouvidos. Tampei a boca da garota e escutei. Assovio. Os som do vento. Ou não? Pulei para o banco da frente, liguei o carro e arranquei com os pneus no cascalho. Fez muito barulho. Não me importei, fugi dali. Tive medo mas olhei o retrovisor durante a fuga. Eu a vi. Era uma escuridão. Ela obscurecia as estrelas e a absorvia o luar. Era mais negra que a noite. Já de volta ao asfalto, procurei a escuridão sobre o mato. Tive a impressão que ela estava sobre o milharal. Dois dias depois li no jornal da cidade que foram encontrados alguns corpos de moradores da região no milharal. Eles estavam estraçalhados. Encontraram também animais mortos. Por que essas coisas sempre escolhem milharais? Um dia fui a uma festa. Na rua da casa encontrei o jardineiro da casa da frente. Vendo muita correspondência no chão, perguntei se não havia moradores. Ele contou que a casa estava abandonada há muito. Todos os inquilinos diziam que ela era mal-assombrada. Curioso, pedi para entrar na casa. Ele assentiu. Três amigos foram comigo. A casa era assustadora, com uma adega de madeira, um grande espelho em frente à escada curva, um mezanino rangedor e uma piscina grande e escura. A água estava muito suja. O quintal estava abandonado. Ao fundo, percebi algumas plantas de milho. No segundo andar, além de um altar para preces, vi janelas no meio do telhado. Estavam a quase três metros de altura. Vi o rosto de um velho de longos cabelos brancos se olhando no vidro da janela. Ele virou os olhos e me olhou. O frio passou da minha coluna para os músculos das costas. Atingiu minha cabeça como um soco. Entrou no couro cabeludo por todas as veias. Firmei o olhar e não vi mais o velho. Corri para chamar um amigo que acabara de entrar num dos quartos. Abri a porta e ele estava lá. Gritou. Assustei-me. Demorei para me recuperar, mas sentia que ainda estava tudo bem. O meu amigo havia brincado comigo. Reclamei e ri, porém apressei nossa saída da casa. O frio tentou nos seguir mas vi que ficou preso na porta. Senti o mal outras vezes. Vi, também, o ódio muitas vezes. Ultimamente tudo esta calmo. Não pressinto nada de diferente. Há equilíbrio. Porém percebo névoas no horizonte. Não se movimentam em posição de ataque, estão querendo apenas fazer contato. Querem comunicar-se comigo. Talvez para ajudá-las. Talvez não. O mal está querendo falar comigo. Devo responder. Ou não? |
fin |
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