Pendurado

 

Fui visitar Geraldo, o tratador de cães. Não estava, notei antes de apertar a campainha; os cachorros estavam latindo na grade do portão. Se ele estivesse em casa, alguns latiriam em direção à janela do quarto para chamá-lo. Eu conhecia os cachorros.

Afaguei uns focinhos. Eram mais de vinte: seis pastores, quatro dobbermans, três rottwallers, três pitt-bulls, sete mestiços de fila e outros tantos vira-latas, grandes e pequenos. Estavam magros. Não deviam estar sendo muito alimentados. Será que meu amigo estava com problemas para arrumar a comida dos cachorros? Eu poderia ajudá-lo.

Levantei a trava do portão e entrei. Alguns cachorros pularam sobre mim. Um fila abraçou meu pescoço com as patas e lambeu todo meu rosto. O bafo de carne podre me deixou nauseado. Empurrei com os braços e dei uns gritos. Acalmaram-se.

- Tor, vem cá, garoto. – O mestiço preto de fila era o líder dos cachorros, o mais forte e o mais calmo. Nunca latia. Nos dias de alimentação, esperava os outros atacarem a presa até desnorteá-la e então voava como um raio até a garganta. O rosnado que emitia era um trovão, por isso o nome do deus do trovão. – Tem comida no galpão, Tor? – Perguntei ao cachorro. Ele ofereceu o focinho como resposta. – Dengoso.

Fui até o galpão empurrando a cachorrada com os pés, eles pulavam e latiam felizes. Estava sem cadeado, ou seja, não havia ninguém lá preso. Não havia comida para os cachorros.

Geraldo não os estava alimentando. Seu costume de matar e cortar as pessoas más, depois cozinhá-las com arroz e legumes para usar como comida de cachorro era muito útil para mim. A maneira mais fácil de me livrar dos corpos. Estava com dois na mala do carro, ladrõezinhos nervosos que atiraram no filho do meu contratante. Mortinhos, mas ainda frescos. Geraldo me pedia para não esperar o corpo esfriar para entregar-lhe. Dizia que estava querendo treinar os cachorros com o sangue humano quente.

Resolvi pegar os cadáveres no carro. Dei a volta na casa e vi um belíssimo cajueiro carregado. Dezenas de gordos e suculentos cajus vermelhos. Alcancei um galho com a mão e levantei a outra para pegar um caju. Um pitt-bull avançou na minha coxa e cravou todos os dentes.

Um vira-latas meio buldogue fisgou a batata da perna e outros avançaram nas canelas. Assustado, e com muita dor, pensei em lutar contra os cachorros mas percebi que seria derrubado assim que soltasse do galho. Alcei-me do solo com os dois cachorros pendurados. Peguei outro galho ainda mais alto e levei o corpo para cima, prendendo os pés nos galhos mais altos. O buldogue se soltou, caindo sobre a matilha, que pulava para me alcançar.

Soquei o focinho do pitt-bull tentando tirá-lo da minha perna. Ele apenas rosnava e fincava mais os dentes. O cachorro ficou pendurado apenas pela minha coxa esquerda. Tentei sufocá-lo mas não consegui, a dor me atrapalhava.

Cravei, desesperado, os dedos nos olhos do cachorro. Ele ganiu quando furei suas órbitas e puxei os nervos oculares dilacerados para fora. Sua mandíbula, contudo, não esmoreceu um milímetro. Com a dor, e a raiva, o cachorro mastigou minha perna, cortando fundo até o osso. Minha visão escureceu e temi cair da árvore no meio dos enfurecidos cães que ladravam e tentavam alcançar o meu galho. Segurei firme e esperei. Meus olhos logo se recuperaram mas a claridade me deixou tonto.

O cachorro ainda arrebentava minha perna. Soquei seu focinho mas isso só aumentou a pressão da mandíbula. Sem saber como me soltar, pensei em Geraldo e em sua ausência de testículos. Eles foram arrancados por um fox-paulistinha. Olhei no meio das pernas traseiras do pitt-bull à procura do sexo. Era uma fêmea. Eu teria tentado esmagar o saco do cachorro.

Cansado por carregar uma cadela de trinta quilos pendurada na perna e sofrendo pela dor e falta de sangue, temi novamente cair. Subi mais um pouco, desafivelei o cinto das calças e o prendi ao redor de um galho. Não sabia o que fazer para soltar a monstra que ruminava minha coxa. Cutuquei mais um pouco as feridas nas córneas mas ela voltou a forçar a mordida. Parei para pensar em como me livrar daquela enrascada. As coisas ao redor moveram-se para a esquerda como num redemoinho e desmaiei.

Acordei sem a cadela na minha perna. Eu estava preso pelo cinto e sentado num galho. Se não tivesse me afivelado na árvore, o banquete dos cachorros estaria garantido. Olhei a matilha. Estavam mais calmos mas ainda atentos a mim. Alguns latiam, porém a maioria aguardava sentada. A cadela que eu cegara andava trôpega e sem direção, ganindo baixinho. Devia ter enjoado por comer minha coxa.

Meu sangue escorria e pingava sobre os cães, que o lambiam nos próprios rostos e dorsos. Tirei a camisa e a amarrei em volta da perna. A dor me impedia de movimentá-la, eu não conseguiria correr para fugir.

As horas passaram lentas e tensas. O vento assustou algumas vezes, quase me derrubando. O cansado, a dor e o sono também me afetavam intermitentemente. Elaborei dezenas de planos de fuga, mas nenhum me convenceu a tentar sair da árvore. Eu estava preso. Ao menos devorei dezenas de cajus maduros, suculentos, grandes como um punho e gostosos como a fruta que amadurece no pé.

Geraldo chegou naquela noite. Ao me vir, prendeu os cães antes de me tirar da árvore.

- Seu idiota, o que estava fazendo?

- Os cachorros me atacaram, Geraldo.

Ele me olhou com estranheza nos olhos.

- Acho que eles não gostam mais de mim, meu amigo. – Confessei. – Entrei na sua casa sem nenhum problema. Brinquei com o Tor, passei pelo balcão e tudo estava bem. Quando tentei pegar um caju, avançaram sobre mim com gana. Levei mordida de todo lado. – Sorri. – Eles devem gostar muito de caju.

- Seu burro. – Gritou Geraldo. – Burro.

- O que fiz?

- Não, - explicou Geraldo – o burro sou eu. Devia ter te contado. Eu estou fazendo um novo treinamento com os cachorros. Eu os deixava sem comida durante dias e depois pendurava um corpo nos galhos do cajueiro. Prendia-o pelos braços. Os cachorros ficavam perambulando ao redor. Cortei um pedaço da pele e joguei para os cães. Eles aprenderam. – Seus olhos brilhavam. – Sempre que eu trazia um corpo, eu o amarrava pelos braços no cajueiro e saia de perto. A cachorrada avançava e destroçava a parte de baixo do cadáver em minutos. Depois eu preparava a parte de cima do corpo com arroz e legumes. Você sabe, os cachorrinhos precisam das vitaminas dos legumes.

- Sei. – Massageei minha perna que pulsava, inflamada. – Legumes...

- Semana passada trouxe para cá o Zé da Luz, aquele bêbado filho da puta. – Um burocrata corrupto que aceitava qualquer propina em troca de favores na administração do município. – Enchi o cara de pinga para amolecer a carne. Quando desmaiou, o amarrei pelos ombros naquele galho que você subiu – Olhou-me com repreensão. – e soltei a cachorrada. O sacana acordou na primeira mordida. – Riu-se por lembrar da cena. – Os cachorrinhos arrancaram toda a carne da cintura para baixo. O Zé ainda estava vivo quando me aproximei para rasgar sua pança com uma faca e despejar os miúdos pelo chão. Os cachorrinhos adoram o coração e o fígado.

- Aquele cara não tinha coração. – Emendei.

- Nem fígado! – Gargalhou o tratador de cães. – Era um pedacinho de carne corroído pela bebida. O cachorro que o comeu, Pulgão, ficou até bebum.

Olhei o Pulgão no canil. Ele tinha esse nome pois dava grandes saltos. Aproximei-me e estendi a mão, ainda meio suja de sangue. Ele a lambeu e balançou, feliz, o rabo. Aqueles cães eram realmente adestrados, só comiam o que lhes era ensinado.

Ouvi uma pancada. Era Geraldo acabando com o sofrimento da cadela pitt-bull que eu cegara.

- Vou embora cuidar dessa ferida. – Gritei para o meu amigo.

- Espere. – Ele veio correndo. – Você nunca vem me visitar. Certamente trouxe trabalho.

Lembrei dos corpos dos ladrõezinhos que estavam no meu carro.

- Ih, acho que já esfriaram. – Procurei as chaves no bolso. – Você os pega para mim?

- Vou chamar o Tor. – Voltou para o canil e logo apareceu o cachorro trotando, veio balançando o rabo. – Ensinei um novo truque. – Disse Geraldo.

Abri o porta-malas do carro. Os cadáveres já estavam endurecidos. Arranquei os corpos e os joguei no chão. O cachorro pegou o primeiro pelo pescoço e o arrastou até dentro de casa. Voltou para pegar o segundo.

- Impressionante. – Falei para Geraldo. – Qual a recompensa que ele recebe?

- O Tor é um cachorro sábio. – Coçou o queixo. – Ele gosta de ganhar uns pedaços de queijo.

- Queijo?

- Deve ser de tira-gosto. – Ele me olhava com o semblante sério. Depois olhou para as feridas nas minhas pernas e novamente para mim. Gargalhou com todos os dentes.

- Muito engraçado. – Fingi que ri, entrei no carro, buzinei um tchau para Geraldo e peguei a estrada para casa. Logo a posição de dirigir ficou incômoda e as feridas voltaram a sangrar. A dor trespassava a perna em intervalos irregulares. Abri o zíper e botei o pinto para fora. Eu precisava falar com ele.

- Sei agora como você se sente. – Levantei a cabeça do pênis para que o buraco tivesse ângulo para olhar para mim e assentir uma resposta. – Ficar pendurado não é fácil. – Gargalhei mentalmente. Despedi-me do meu pinto e o guardei nas calças. Continuei pilotando para casa tentando não sentir dor.

 

fin

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