Pânico de jet ski

Em Brasília sempre chove em 02 de novembro. Nem que seja a primeira chuva após o desértico período de seca, no dia de finados sempre cai lágrimas dos céus. Eu já estava de moto na BR020 quando o céu despencou. Me sentia mais ensopado que o frango dominical da minha mãe. Bebi uma cachaça em Planaltina, para esquentar, antes de voltar.

Eu devia ir para Fortaleza. Precisava cumprir um serviço por lá. Já tinha deixado as armas em casa, sempre havia a possibilidade de uma blitz, e agora teria que dispensar a moto. Ela me dava uma agilidade superior no trânsito, além me deixar totalmente excitado com o constante desafio à morte em cada curva. Contudo, chuva e moto no dia dos mortos seria escrachar demais com a indesejável. Resolvi viajar de avião.

Eu matava sacanas que fugiam da lei, ou que a corrompiam legalmente. Tinha um obscuro site na internet com meus contatos e um aviso: "apenas justiciamentos corretos ou sua vingança de volta". Deixava claro que pegaria quem quisesse matar gente honesta.Recebia a cada dia mais e mais pedidos para dar cabo de algum filho da puta. Eu filtrava as mensagens, pesquisava os dados e escolhia no máximo uma ação por mês. Nunca cobrava, é claro, fazia aquilo para dar esperança às pessoas, mostrando que alguém se importava. Entretanto, era um hobbie dispendioso e eu já não tinha muita grana.

Trabalhava como analista de informação, um título pomposo para copista de jornal. O feriado na sexta-feira me daria três dias para chegar à capital cearense, detonar o tal empresário e voltar na segunda.

Resolvi aceitar a contribuição da mulher que eu decidira ajudar. Ela me disponibilizara três mil reais. Quase pensei em mandar a ética pro espaço e trabalhar pensando apenas no capital. A sociedade que se danasse. A mesma sociedade, aliás, que me temia quando descobria minhas atuações. Na maioria dos casos, contudo, nem desconfiavam da minha participação.

A mulher perdera o pai há pouco. No mês anterior foi julgada uma ação de quase dez anos, em que o pai declarava que não recebia a aposentadoria a que tinha direito. Descobriram, finalmente, que um antigo amigo da família havia apresentado uma procuração ao INSS em nome do pai da mulher. Todo mês o sacana recebia a pensão do velho, deixando-o na miséria. O pagamento só foi restituído depois do falecimento do pai e, consequentemente, extinto. Nem a ação de restituição do que havia sido roubado foi levada adiante. Os meandros das leis só servem aos ricos e aos safados. O sujeito iria se livrar sem nem ser acusado.

Contatei a mulher e expliquei sobre a chuva. Ela falou que  me daria o dinheiro assim que eu chegasse a Fortaleza. Consegui passagem para a sexta à noite, com volta no domingo de tarde. Me sobraria apenas o sábado. Eu não gostava de voar. Além de ser obrigado a registrar meu nome real, nunca me deixavam abrir a janela para pegar um ventinho. Era sufocante, um caixão voador de aço. Sempre preferi as motocicletas. Fui direto para um hotel furreca ao lado da rodoviária da capital do Ceará. Sem registros e nem filmadoras.

Eu tinha todos os dados do morto. Sim,  o sacana estava morto, só não sabia. Chamei um táxi e pedi para me levar à "rua da alegria".

- Opa, o doutor tá animado. - o taxista riu. Sentei no bando atrás do motorista, escondido do retrovisor. - É casado, né?

Confirmei com a cabeça e dei motivo para ele não me encher de perguntas. Pedi para aparelhar com uma ruiva.

- oi, gata.

Ela ronronou.

- quanto é o "pograma". - tive que pilheriar, a mulher fazia caras e bocas.

- o PROgrama, gatinho... - fez a devida pausa, me colocando em meu lugar - para você é sessenta reais. - A voz mostrava a ansiedade de ter jogado alto o valor da trepada. Nem imaginava que sessenta reais era o preço só do boquete em Brasília. E de camisinha.

- para o motorista, quanto você cobra?

- hei. - resmungou o cara, mas calou-se em seguida. Um sorriso brotou. Ele usava aliança.

- sessenta reais também. - a ruiva limpou o batom e rodou a bolsinha. Se eu usasse celular com câmera teria filmado a cena. Foi um clichê adorável. Celulares, porém, eram rastreáveis. Eu nunca deixava vestígios.

- entra na frente, gata. - Apontei uma morena esculpida por deuses tarados. - encosta, agora, naquela potranca. - Ela tinha tudo em excesso: peito, bunda, coxa, cabelão. Chegamos perto e descobri que também era bonita e de olhos claros. - Qual seu nome?

- Indiara.

- quanto?

Ela olhou o taxista e a outra puta.

- quanto tempo?

- até o domingo. - Esclareci parte do meu plano.

- domingo? - gritou o motorista. Depois calou-se novamente e riu mais uma vez. Mais tarde o vi telefonando escondido, devia estar inventando desculpa para a patroa.

- trezentos reais! - ela sibilou ao responder. Parecia-lhe muito dinheiro.

- chega mais. - fiz uns cálculos mentais: as passagens custaram 1.200, o hotel custaria 100 pilas, eu daria 300 para cada puta e para o taxista, sobraria 800 dos três mil que eu receberia para torrar com comida, bebida e outros gastos. - ceará, vamos para um supermercado.

Gastei quase 400 reais em uísques, cervejas, champagnes, salgadinhos e amendoins. Puxei um gelo do novo isopor e fiz o primeiro drinque da noite.

- ceará, vamos dar umas voltas pela cidade.

Rodamos e bebemos como velhos amigos. Minha tranqüilidade relaxou as putas. O motorista logo ficou meio bêbado e, assustado, redobrou a atenção na direção. Eu perguntava por alguns endereços e ele dirigia para o lugar. Anotei mentalmente os trajetos. A puta ruiva veio para o banco de trás. Brincaram com meu pau enquanto eu tentava apertar um baseado. Gastamos muito tempo nisso.

Fumamos. Ceará, o motorista, não era acostumado e logo adormeceu. Assumi a direção para voltarmos ao hotel. Alojei o sujeito no quarto ao lado. A ruiva desmaiou em sua cama.

- querida - Indiara já se abria lânguida para mim. - vou buscar uns fósforos. - sai do hotel e apanhei o táxi do ceará. Já era quase seis da matina e eu sabia que o empresário iria para a praia logo cedo. Refiz o caminho até seu apartamento, o ceará havia passado por ali várias vezes na noite anterior.

Esperei sonolento até às sete e meia. Francisco Laércio saiu em sua Pajero e foi direto para a Lagoa da Banana em Caucaia. Encontrou-se, mais tarde, com um povo que certamente era aparentado, aferi pela semelhança física. Mais tarde notei que todos no ceará, no fundo, deveriam ser parentes de Francisco. Ele se sentou numa cadeira debaixo do guarda sol, ajeitou uma cerveja ao lado, verificou se estava ao alcance da mesa de petiscos de churrasco e iniciou um carteado. Jogou durante horas. Só foi levantar-se às onze horas para um xixi. Voltou e assumiu a mesma posição.

Retornei para o hotel. As putas e o motorista estavam acordando. Chamei todos para a lagoa. Enchi o carro com os mantimentos etílicos, comprei mais gelo e voltamos para vigiar Francisco.

Meus acompanhantes nem desconfiavam, mas me davam o álibi que eu eventualmente poderia precisar. O que eu fazia ali? Estava curtindo umas putas, longe da esposa. O taxista me fornecia o carro sem as perguntas costumeiras que sempre são fonte de informação para os meninos da lei. Ele próprio não queria ser visto, seria discreto. As putas, bem, elas já estava acostumadas com sigilo.

Passamos o dia ao sol, petiscando uns peixinhos dos quiosques. Conversamos, bebemos e fumamos. Ceará desmaiou novamente. Bastava dar umas bolas que ele empenava. Minha morena era um espetáculo. Todos olhavam seu rabo reluzente e faziam questão de nem me perceber. Era isso que eu queria, na verdade.

Francisco, o preguiçoso, dedicou o dia a aumentar a barriga. Bebeu feito uma esponja. Afastou-se dos seus amigos poucas vezes, para mijar ou lavar os pés. Eu não tive a menor oportunidade de chegar perto.

Já de noite, passamos pela residência da minha contratante. Avisei por telefone que um taxista passaria para pegar o dinheiro. Ela prestou mais atenção nas duas mulheres seminuas, bêbadas e desbocadas no banco de trás, brincando com um desacordado passageiro, que no sério motorista que ficou com o dinheiro. Dormi umas horas, precisava planejar o dia seguinte. Eu havia escutado que o carteado se estenderia pelo domingo. Iria cedo para a lagoa, minhas oportunidades de acabar com o cara só durariam até o meio dia.

Levantei antes das cinco. Ceará e ruiva estava no meu quarto. Parecia que finalmente haviam se enroscado. Minha morena dormia nua de braços abertos. Os seios simétricos desafiavam a gravidade. Se eu tivesse um celular com câmera teria feito umas fotos. Resolvi dar umas cutucadas nela, afinal, se não fizesse o que me propunha, a mulher suspeitaria de algo. Por menor que fosse o risco de um dia ela ser abordada por policiais e lembrar-se dum cliente que não a comeu, porém ficou perambulando pela cidade com ela a tiracolo, numa atitude mais que manjada nos meios de investigação e, com isso, os policiais descobrissem levemente minha aparência, este vestígio não poderia ser desconsiderado. Era a prática do risco zero, um conjunto de regras de segurança para me manter no ofício com o mínimo de perigo, tanto de ser investigado pela lei quanto ser perseguido por bandidos.

Meu pau já estava duro. Encapei o bicho e parti para o ataque. Gosto do susto da mulher quando acorda sendo penetrada, é um misto de espanto, prazer e raiva da invasão. É o que mais perto me permito de uma relação forçada. Conheço caras que só se excitam quando suas mulheres fingem reagir. São uns estupradores maricas, no fundo.

A morena era bem animada. Gostava do que fazia. Foi uma trepada digna de um filme pornô, com gozada na cara e tudo. A mulher deitou-se preguiçosa. Eu me vesti para sair. Agi como um fodedor clássico, que tem a mesma repugnância, pela mulher, após gozar, que sentiria por um penico. Aliás, muitos caras pensam nas mulheres apenas como reservatórios de porra.

- todo mundo pra lagoa. - anunciei.

Chegamos ainda muito cedo. Vi uns sujeitos abastecendo uns jet skis de aluguel.

- quanto é?

- sessenta reais a hora.

Olhei minha puta. As pessoas montavam nela e no jet ski para ter prazer. O que seria melhor? Paguei o sujeito e fiquei uma hora passeando de um lado para outro. Era bem gostoso, como andar de moto na chuva, mas sem o perigo de beijar o asfalto. Por isso, quase não havia tesão. A puta, ao contrário, era puro tesão.

Vi que o Francisco já havia chegado antes dos demais como no dia anterior. Ele embaralhava as cartas. Guiei o jet ski até a margem e fui ter com ele.

- você gosta dum carteado, não é? - Joguei o papo.

- opa. - respondeu sorrindo.

- prefere o baralhinho ou uma morena daquelas. - minha puta fez um simpático tchauzinho do outro lado da lagoa.

- opa. - riu em espasmos, a barriga balançando como uma geléia.

- que tal uma aposta?

O vício, qualquer que seja, é uma desgraça. Francisco era um viciado. Mesmo se não jogasse a dinheiro, o prazer doentio pela aposta o impelia. Usei sua fraqueza. Era a máxima arte do meu ofício.

- que aposta?

- pôquer de mão simples. - ele sorriu, devia gostar do jogo. Eu ofertaria algo irresistível. - se eu vencer, alugo outro jet ski e a gente dá um passeio com as putas. - o homem já havia notado a profissão das minhas amigas. - se eu perder, você mesmo aluga o seu jet ski.

- opa? - Francisco fez cara de desconfiado.

- meu parceiro tá bêbado. - apontei a outra margem. A ruiva, irritada, tentava acordar o taxista. Ele havia me pedido um baseado assim que chegamos. - quero só passear com as vadias.

- vamos nessa. - ele topou, é claro.

Venci, felizmente, a partida. Se perdesse daria o dinheiro, não podia me vincular aos acontecimentos. Francisco alugou o jet ski e, emburrado com a derrota, recusou o salva-vidas. Eu quase agradeci sua ignorância. Fez tudo a meu contento para iludir a futura investigação policial. Enquanto isso, futriquei na manopla de aceleração do meu aparelho e desprendi o cabo que abria a carburação. Prendi de um jeito que o jet ski não desacelerava. Fiz umas manobras e senti que o aparelho estava bem arisco.

Atravessávamos a lagoa quando pedi ajuda ao homem.

- acho que meu jet tá ruim. - fingi que ele não acelerava.

Desliguei o aparelho antes que ele pudesse aproximar-se.

- que tal a gente trocar de lugar para você consertar. - eu o olhava abobalhado, mostrando-me ignorante no assunto.

- Opa.

Antes de me jogar na água torci o acelerador ao máximo. Francisco sentou-se e conferiu a ignição.

- veja: é só apertar o botão.

O aparelho saiu em disparada. Francisco mal se segurou. Ele rodou o acelerador tentando diminuir a velocidade. Saltou duas ou três marolas e logo caiu na água. O jet ski continuou correndo sem destino.

- hei, me ajude. - gritou Francisco.

Olhei para os lados. A lagoa não era muito grande. Talvez umas 250 braçadas de uma margem à outra. As poucas pessoas ao redor cuidavam de suas vidas. O homem, nascido à beira mar, certamente conseguiria nadar para se salvar. Só morreria se estivesse cansado.

Aproximei-me e estiquei a mão. Não consegui segurar seu braço quando passei ao lado. Tentei outra vez sem sucesso.

- pare o jet ski para me ajudar. - o homem pediu.

- este também tá com defeito. - menti. - não consigo parar.

Fiquei uns 10 minutos fingindo um resgate. Eu o puxava mas ele voltava pra água. Francisco começou a se cansar. Era gordo.

- porra. - balbuciou engasgado. – me ajude aqui!

Calculei que a tortura do falso salvamento era o suficiente. Também não queria chamar a atenção.

- seu nome é Francisco Laércio, não é?

- como? - a cabeça sumiu por um instante entre as águas escuras da lagoa. - sim, sou. Você me conhece?

- Ahã. - fiz uma pausa. Eu pensava numa frase de efeito. - sou o matador contratado pela filha do aposentado que você possuía uma procuração.

- quê? - a cabeça sumiu por um tempo maior. - não...

Nem escutei os últimos resmungos do homem. Acelerei para a margem onde minhas putas se encharcavam com a última garrafa de champagne. Bebi um gole mas logo voltei para a cerveja. Não gosto de cócegas no nariz.

- preciso ir embora. - falei enquanto rastreava as águas da lagoa com os olhos. Nem sinal do homem. Ele seria encontrado apenas na segunda-feira.

- o que a gente faz com o ceará. - perguntou a ruiva. O motorista sorria de olhos fechados deitado numa esteira de palha. Parecia satisfeito. Eu também estava.

- Deixa ele ai.

- Opa. - O ceará se levantou. Sua interjeição me lembrou o empresário. Será que também era parente?

Embarquei no avião após detonar um baseado no banheiro do aeroporto, queria viajar relaxado. Estava feliz por alinhavar todas as pontas e encerrar a missão sem deixar vestígios. Eu percebia que me aperfeiçoava a cada vingança. Sentia-me como o mais dedicado dos trabalhadores voltando para o lar após uma árdua labuta. Havia gastado três dias numa cidade praiana, bebendo, fumando e acompanhado por donzelas de virtude questionável, mas ainda assim estava cansado. Era a tensão do perigo.

De repente o avião subiu bruscamente. Durante vinte segundos ficamos colados nas poltronas. Caíram máscaras do teto. Não consegui descolar as mãos, que pareciam garras trêmulas, do braço do assento para pegá-las. Outros passageiros vestiram-nas e imediatamente relaxaram. Meu treinamento para controlar o pânico entrou em ação. Concentrei a atenção num assunto que eu poderia interagir. Se o avião fosse cair, não haveria muito que fazer a não ser xingar. Ainda assim eu não queria estar ali. Lembrei do filme que conta sobre o teor de oxigênio nas máscaras. É tão alto que a pessoa fica embriagada e semi-adormece. Avancei e puxei as três máscaras do meu corredor, ajustei da melhor forma no focinho e inalei fundo.

Acordei com a aeromoça retirando as máscaras do meu rosto.

- o que aconteceu?

- o comandante vai fazer um pronunciamento. – Ela respondeu. Ainda sonolento, sorri. A frase me transportou para a ilha de Fidel Castro. Eu ainda me sentia longe, na praia distante.

No discurso do mecânico piloto, ficamos sabendo que ele subiu 6000 pés para desviar de outro avião. “Não é uma alívio”, resmunguei, ”afinal, sou adepto do risco zero”.

Eu pensava em Francisco tentando subir no meu jet ski no momento do solavanco do avião. Passei todo o tempo imaginando-me na pele do empresário: fatigado, assustado, buscando desesperadamente sair da água para respirar, todavia uma força gigantesca e incontrolável me mantinha distante da superfície. O ar escasseava; o peito ardia, respirar era o desejo mais imperioso de cada interminável segundo. A pressão explodia nas têmporas. o frio do sangue escapava pelos poros como um suor fino. O futuro incerto, o medo fundamental da morte, parecia próximo e inevitável. A mais genérica sensação de pânico.

Há dois dias sentira a mesma coisa quando pilotava a moto no dia dos mortos. Por isso que resolvi viajar de avião e, agora, via que quase foi uma escolha maldita. Descarreguei mais adrenalina de medo em poucos dias neste feriado que na vida inteira. Moto, avião, jet ski, são tantas as possibilidades de acidentes fatais sem reação. Tremi com o calafrio da impotência.

Sabia, contudo, que jamais abandonaria a paixão pela moto. Nem poderia prescindir das viagens de avião. Resolvi, assim, que se deveria ter medo de alguma coisa, então, teria pânico de jet ski.

A primeira e última vez que andei com o aparelho foi para acabar com aquele sacana.

 

fin

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