O professor

 

Aula de história ao final da sexta-feira. Calor! Ninguém quer estar alí, até mesmo o professor está chateado. Não que o ele seja um mau profissional da educação, mas convenhamos, aula com calor na sexta é dose para tigre de dente de sabre. Nem um leão aquentaria.

Os alunos se coçam e conversam sempre que o professor vacila. O cronograma está em dia, mas o mestre não quer atrasar o programa, assim a aula continua. Os pobres estudantes nem conseguem pensar direito, sentem o cérebro assando. Realmente é um dia insuportável. Uma aluna, adolescente como o resto da turma, insiste em contar um caso interessantíssimo para uma colega que não presta tanta atenção.

-Marina, por favor, segura a onda que a aula já está terminando. - Pede educadamente o educador.

Mas Marina não está muito “afins” de atender o mestre. Espera ele se virar para o quadro e torna a conversar com a colega, que bufa de calor.

-Marina, por favor! -Novamente o professor pede, se não atenção, ao menos silêncio.

Parecendo que ela vai atendê-lo, ele continua a explanação sobre um assunto que nem mesmo ele acha tão importante para a educação e conhecimento dos educandos, mas está no currículo. Marina conversa novamente.

-MARINA! Pô, dá um tempo. Em menos de 10 minutos você vai poder contar todos os seus casos para a colega. Relaxa! -Exalta-se o encalorado professor.

-Casos? Casos? Professor, você não me respeita. Eu estou com um problema enorme e o você despreza meus sentimentos. Você é horrível! -A garota exalta-se, exasperada.

-Não respeito? Como não respeito? Que espécie de problemas você, com seus parcos 15 anos, pode ter? O seu namorado te deixou? Seus pais brigaram para saber se te mandam para a Disney ou para Miami? A sua agenda sumiu? Não me venha com discursos prontos, Marina, que eu te conheço e conheço sua família. Tudo está muito bem na sua casa e na sua vida. O seu problema, aliás, o problema dos jovens de hoje, é que vocês nunca precisaram lutar por nada na vida, não precisam batalhar, não conhecem a realidade do mundo. E vocês sabem que o que digo é verdade, visto a minha idade. Vocês sabem que eu tenho apenas 26 anos e há pouco tempo, muito pouco tempo, estava vivendo o que vocês vivem hoje. Conheço seus problemas e sei que não existe nada importante o suficiente para encucá-los seriamente. Por isso vocês criam fantasmas e problemas para preencherem o ócio em que vivem. Eu não quero nem imaginar vocês tendo que enfrentar um problema de verdade, algo tipo a morte dos seus pais em um acidente de carro. Ou então descobrir, depois dos seus pais mortos, que são filhos adotivos. E quando vocês mais precisam do apoio dos familiares, estes te abandonam sozinho. Imagine, se vocês encarassem viver sozinhos em uma pensão, contando o dinheiro para poder comer nos últimos dias do mês. Imaginem vocês com um problema de saúde, como epilepsia, e sem dinheiro para comprar os remédios. Ah, ou então, depois disso tudo, descobrir quem são seus verdadeiros pais e saber que o pai é um assassino condenado e a mãe uma interna em um hospital público. Saber que o problema da mãe começou com epilepsia e terminou por degenerar todos os centros nervosos do cérebro com apenas 27 anos. Ouvir o médico falar que esse mal é genético, então, nem pensar. Sim, eu queria ver vocês com esses problemas. Problemas de verdade, não apenas ilusões ou besteiras, coisas irrelevantes ou mimos. Pensar em vocês com esses problemas me dói o coração, pois eu sei que vocês não suportariam. E eu estou aqui para tentar prepará-los para a vida, passar experiência para encarar problemas ou dificuldades, e vocês não me compreendem. Nem ao menos tentam absorver um pouco do que eu posso trasmitir. E um dia, quando eu também estou cansado, vem alguêm e me diz que eu não respeito e não compreendo. Eu compreendo, sim, e entendo. Vocês que não entendem.

Silêncio.

O sinal toca. Os alunos começam a sair. Algumas meninas, alguns meninos até, choram disfarçadamente. Outros tremem. A maioria tem uma expressão triste nos rostos juvenis. Todos, contudo, estão marcados a ferro, na carne, pelas palavras do professor. É, a vida não é tão difícil para eles como eles pensam.

Um aluno gordinho fica na sala, de boca aberta. Seu nome é Noel. Ele se aproxima do professor que virou-se para o quadro e o apaga, parecendo estar escondendo os olhos mareados d’água.

-Professor. -Chama Noel.

O professor se vira e, surpreendentemente, os olhos deles estão secos. Talvez seja o endurecimento da vida.

-Poxa, eu não sabia que o senhor tinha tantos problemas. -Um soluço sai involuntário no meio das palavras.

-Eu? Eu não tenho esses problemas. Por que a pergunta?

 

fin

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