O CRIMINOSO O crime não compensa. Todos dizem isso. Papo furado! O crime pode não levar a uma vida confortável e segura, mas que compensa, ah isso ninguém pode negar. Paulinho Fuinha, como é lembrado pelos amigos e colegas de profissão nem sempre foi criminoso. Ele trabalhou em muitos lugares e fez muitas coisas, mas sempre passava fome. Foi guardador de carros, mas cresceu e teve que mudar de ofício. Virou pedreiro. Conseguiu sobreviver assim muito anos, mas um desvio na coluna causado pelo excesso de peso carregado pelo seu corpo frágil o aposentou. Tentou ser garçom, mas não era inteligente o suficiente. Passou a trabalhar como jardineiro. Cuidava direitinho das plantas. Se entendia com elas, porem sua má aparência e sua coluna torta fizeram com que seus empregadores fossem escasseando. Tentou ser ajudante de biscateiro, aquele que carrega as ferramentas. Recebia para isto o suficiente para comer três dias e mendigar os outros vinte e sete do mês. Ele se apaixonou. Mesmo sendo miserável, fraco, feio, imundo e ignorante ele arranjou uma namorada. Era a empregada de uma casa de gente abastada. A negrinha, simpática até, adorava o olhar perdido de Paulinho. Dizia que ele parecia um poeta com aqueles olhos vagos. Os amigos replicavam dizendo que era o olhar de um idiota. Paulinho dizia que era fome. Casou. Foi dividir o barraco de dez metros quadrados com a esposa. Com o salário dela e mais o que ele arranjava com seus biscates dava para Paulinho comer. Só ele. Ela comia na casa dos patrões. Nos finais de semana a eles só restava divertirem-se com o que ninguém pode tirar do pobre. Sexo. E isto parecia ser a única coisa que Paulinho sabia fazer bem. Talvez este fosse o motivo da negrinha ser tão apaixonada e fiel. O problema é que começou a aparecer filhos. Um depois do outro. Com dois anos e meio de casados já tinham três filhos. Com a graça de deus, Paulinho arrumou um trabalho de coletor de lixo num restaurante industrial. Passava o dia ensacando e carregando restos de comida velha e estragada. Quando voltava para o morro, todos falavam com ele. Pediam para ele se lavar, parecia um porco de tão fedido. Não existia bucha que tirasse o ranço da comida velha. Com este mau cheiro, a esposa resolveu sossegar um pouco nos finais de semana. Ainda bem, pois já haviam cinco bocas para sustentar. O Fuinha nunca reclamou de nada na vida. Aceitava tudo que Deus mandava incontinente. O filho mais novo dos patrões da casa onde sua mulher trabalhava se engraçou com ela. Bêbado, chegou em casa e disse que queria provar da carne negra. Ela foi despedida, lógico, os pais não iriam colocar o filho na rua. Negra, cinco filhos, um recém desmamado. Não conseguiu arranjar outro emprego. Ficava em casa cuidando dos filhos e recebendo encomendas para lavar roupa. O casal colocou os filhos mais velhos para pedir dinheiro pelas ruas. Os dois meninos, um de sete e o outro de seis anos passavam o dia fora de casa, sabe lá deus onde. Nesta época, Paulinho começou a passar no bar para tomar um relaxante antes de voltar para casa e sofrer. Ficou conhecendo um camarada de má fama que falava alto e questionava tudo. Por que o pobre tinha que sofrer, por que o estado não fazia nada, os ricos era todos um safados que usavam eles para ficarem mais ricos, esperto era ele que sabia se virar. Gostou do discurso e da jeito firme do homem. Conversava muito com ele. Começou a ter umas idéias que jamais haviam passado pela sua cabeça. Se ele precisa de uma roupa, vá e pegue. Comida, é sua. Dinheiro? Tem muita gente que tem, basta escolher alguém e pegar. Chega de ser otário, tome rumo. A sobrevivência era mais difícil a cada dia. O pai sentia o coração doer vendo o filho passar fome. Paulinho se arrebentava no serviço mas o seu esforço era quase inútil. Entregou as rédeas e decidiu apelar. Roubou farinha e arroz do depósito da empresa. Ninguém notou. Repetiu o roubo. Nada. Ficou alimentando alegremente sua família com suprimentos roubados. Ficou descuidado. Foi preso no flagra. Tomou uma surra despropositada, um corretivo disseram eles, e ficou preso dois meses. Quando reencontrou com a família, viu que todos estavam a beira do colapso por fome, frio e medo. Com raiva no coração e já desvirginado na vida de roubos, ele se tornou um assaltante muito bem sucedido. Ganhava a vítima de supetão e levava tudo que ela tivesse em mãos. Roupas, dinheiro, relógios. Certa vez chegou a roubar um buquê de flores de um entregador de floricultura para a mulher. O primeiro da vida dela. Seus roubos eram direcionados para as necessidades da família. Nunca usava violência ou outro tipo de crime, como seqüestro ou tráfico. Nem sequer fazia amizades com traficantes, que era os mais abonados porém os mais desprezíveis. Assaltava com o profissionalismo de uma secretária. Frio e eficiente. Por alguns meses conseguiu sustentar a casa sem desesperos. Ele nunca deixou que soubessem o que estava fazendo para conseguir dinheiro. A negrinha pensava que ele se metera no negócio de vendas, tal era a quantidade de bugigangas que ele trazia para casa e vendia para os vizinhos. Os filhos até engordaram um pouco. Paulinho, o Fuinha. Assim ele era conhecido pelos colegas de profissão. Fuinha pois só roubava o necessário e nunca entrava numa jogada arriscada e violenta. Queria saber era de pequenos roubos e assaltos sem perigos para poder sustentar a família. Não gostava nem de pensar em ser apanhado pela polícia e tomar outra surra. Ficou com ojeriza de policial. Queria distância. Voltou para casa numa manhã ensolarada e não viu a mulher. Os seus filhos mulatinhos correram para ele e informaram que o mais velho ficara doente e estava com a mãe no Posto de Saúde. Voou para lá. Os próximos dias foram muito rápidos, Paulinho nem teve tempo para pensar na situação. O garoto ficara internado e fizeram vários exames por conta do Estado. Ele tinha leucemia. Precisaria de um transplante de medula óssea. A operação custaria um tanto de dinheiro que Paulinho nem sabia calcular. Ele ficou desesperado. O governo pagaria uma parcela, mas o grosso do dinheiro teria que vir da família. Resolveu dar um golpe que há muito havia pensado, mas não executara por falta de necessidade e pelo perigo. Tentaria roubar a casa dos antigos patrões da esposa. Paulinho descobrira que o homem era um bicheiro muito rico. Contava até com proteção da polícia. A negrinha sua esposa sempre contara como era fácil entrar na casa pulando uma cerca lateral que não era vigiada e escalar os ciprestes até a janela do quarto do patrão. Ela vira o filho mais novo deles fazer isto uma vez que esqueceu a chave e estava muito bêbado para perceber que era dia e todos os empregados olhavam para ele. De noite, já dentro do quarto, Paulinho Fuinha começou a fuçar as gavetas e armários procurando o cofre que a mulher uma vez mencionara. Esperava poder abri-lo com suas habilidades. Encontrou. Estava retirando os apetrechos da sacola quando olhou para o teto do quarto e viu que tinha acionado um alarme quando entrara pela janela. Continuou tentando abrir o cofre, desajeitado e trêmulo. Estava meio sem coordenação, talvez fosse o medo do golpe, talvez fosse o desespero pelo filho. Precisava conseguir o dinheiro para a operação. Só notou que o quarto fora invadido por policiais quando eles gritaram para ele parar e levantar as mãos. Assustado, viu que estava cercado. Ele não poderia ser apanhado logo agora que seu filho tanto precisava dele. Segurou o cabo do revólver que estava na cintura. Deu um passo para trás na direção da janela. Os policiais, dois, gritaram novamente para ele parar. Paulinho viu que tinha mais uma pessoa apontando uma arma para ele. Era o filho mais novo dos donos da residência. Ele devia estar em casa e esperou os policiais chegarem para pegar um revólver e encarar o criminoso. Paulinho sentiu uma cólera tremenda do sujeitinho. Rico, bonito e tentando estuprar sua humilde esposa. Ele que desgraçara sua vida. Se ele nunca tivesse tentado nada com sua negrinha provavelmente ela nunca teria sido despedida e ele jamais se tornaria um criminoso. O rapazinho agora estava ali, machão, cheio de dinheiro no bolso e o filho de Paulinho prestes a morrer se não fizesse a operação caríssima. Paulinho, ainda com a mão no coldre do revólver, tentou falar alguma coisa e apontar o dedo para o jovem. Não conseguiu. Foi fuzilado. Ele caiu no sopé da janela. Cuspindo sangue e com os olhos cerrados, de repente ficou imóvel. Por uns instantes ninguém se mexeu. Finalmente os policiais relaxaram, dizendo que ele estava morto. O jovem dono da casa virou de costas, reclamando que detestava sangue. Paulinho, ainda vivo e consciente embora não parecesse, levantou a arma e apontou para o rapaz. Ele poderia matar o desgraçado e depois morrer feliz. Sabia que jamais sairia do quarto com vida. Ao menos se vingaria de quem o transformou no que é hoje e depois o matou. Porem desistiu, largou a arma e esperou a morte que veio rápido. Decidiu não matar o garoto pois assim conseguiria somente trazer mais tristeza para este mundo onde ele tanto lutou para ser feliz. * O bicheiro dono da casa ao saber de toda a história e das agruras de Paulinho, do provável motivo do assalto que custou a sua vida, de ele ter sido marido na ex-empregada que quase foi estuprada pelo próprio filho, resolveu ajudar o filho de Paulinho e pagou o restante da operação. Pode ser que ele tenha feito isto apenas para ficar bem visto pela opinião pública, mas o caso é que o filho de Paulinho foi salvo. Era esta a intenção de Paulinho quando entrou na casa. Se ele tivesse matado o jovem com certeza o bicheiro nada teria feito pelo seu filho. Morreu feliz, ao menos, com sua decisão. Ninguém tem maior amor que aquele que, na hora da morte, deixa de levar seu inimigo junto. |
fin |
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