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O companheiro de manutenção As luzes atrás do morro
atraíram os olhos de Ary. Ele seguia pela estrada esburacada e deserta, ao cair
da noite, com atenção redobrada aos saqueadores e às armadilhas da pista. Era
motorista experiente a despeito da aparente pouca idade. - deve ter sido impressão...
- Abanou a cabeça para esquecer que pensara ter visto um par de faróis
aparecerem do meio de uma nuvem e sumir atrás da montanha à frente. - A
escuridão prega peças na gente. Conduziu o caminhão pela
pista até próximo ao lugar que vira as luzes. Surpreendeu-se com o tremendo
caminhão Mercedez-Benz parado à beira do caminho. Era um modelo idêntico ao
seu, tanto na cor quanto nos detalhes. Parou para ajudar. - oba, companheiro, qual o
problema? O homem que saiu da boléia tinha o mesmo tipo de Ary, grandalhão e hospitaleiro. Era, até, bem parecido, poderia ser confundido com seu irmão. - não é nada demais. Pode seguir viagem. – Redargüiu ansioso. Via-se que estava desconfortável com a presença do outro. - tem algum problema? – Ary disfarçou para imitar uma pistola com as mãos. - oh, não estou sob ameaça. Não se preocupe. – Sorriu. - então me diga como posso ajudá-lo, companheiro. – O sorriso cativante de Ary foi contagiante. - obrigado, mas... você não entenderia. Ary sorriu enquanto soltava um “hunft” de descrença. - veremos. – Disse e, de sopetão, pronunciou-se sobre o capô para abri-lo e ver o motor. Ao tocar o veículo, surpreendeu-se mais uma vez, embora aquela não fosse a maior surpresa da noite. Luzes coloridas percorreram a lataria e brilharam como se estivessem refletindo águas revoltosas. De repente, a imagem do caminhão foi substituída pela de outro veículo. Era arredondado, com pequenas escotilhas por toda a circunferência. Na parte superior, uma antena parabólica e uma espécie de varanda envidraçada. Estava apoiado no chão por três cavaletes que surgiam da lataria. - não tem rodas. – Comentou Ary, ainda refazendo-se do susto. O dono do veículo estava carrancudo. - certamente você não chegou aqui rodando pelas estradas. – Ary tentou fingir que não estava impressionado. - não. – Limitou-se o outro ao responder. Os dois encararam-se por alguns segundos. - olha, companheiro, - A voz baixa de Ary soava sincera. – não sei de onde você veio, só sei que lá fazem caminhões bem diferentes. – Sorriu mais uma vez, os olhos refletiam sua tranqüilidade. – quero apenas ajudar. Mas se for problema, basta avisar que vou embora. O outro escutou as palavras enquanto avaliava alguns dados na tela de um aparelho parecido com um celular. - eu agradeço. Mas não posso te contar de onde venho nem como cheguei aqui. - você veio nesta beleza de caminhão, isso é certo! – Interveio Ary. – e parece que não sairá daqui sem alguma ajuda. - sim... – A empáfia do outro finalmente foi vencida. – preciso de ajuda. Mas você nada poderá fazer por mim. Ary segurou a barriga para soltar uma risada. - bah, para quem já apertou rosca de parafuso com os dentes, nada é impossível. O viajante respirou fundo e apertou uma tecla no aparelho em suas mãos. Sua figura emagreceu, piscou com luzes parecidas àquelas que camuflavam seu veículo como um Mercedes-Benz e transformou-se em outra pessoa, ou melhor, em outro ser. Era meio esverdeado, magro, com apenas três dedos e enorme olhos castanhos. Usava um uniforme prata que combinava com seus cabelos cinza. - você não é humano, né? – Perguntou Ary. - sou piloto deste transportador interplanetário – Apontou sua nave. - uma espécie de caminhoneiro da galáxia. As regras do Pacto das Estrelas impedem qualquer espécie desenvolvida, como a minha, de intervir culturalmente em espécies em desenvolvimento, como a sua. Porém, como você já descobriu meu segredo, não me resta alternativa além de aceitar sua ajuda na esperança de impedir novos contatos. - hum... certo. Eu assisti “Jornada nas Estrelas” quando era mais novo. Entendo sua preocupação. É para proteger minha raça, coisa e tal, né? Bem, vamos ao trabalho. Onde é o problema? O pragmatismo daquele homem, um simples caminhoneiro de um planeta sem tecnologia espacial, em consertar sua nave fez o visitante coçar o membro auricular que possuía ao lado da cabeça. Parecia uma orelha, mas tinha vários buracos. - o problema... que você não entenderia...é no arrefecimento do gerador anti-matéria que cria a energia de dobra. – Confessou. Estava maquiavelicamente satisfeito em confundir o pobre homem, colocando-o de volta à sua posição inferior. - em outras palavras, você precisa de um radiador? O visitante consultou o aparelho parecido com um celular. - sim. Um radiador. - hoje é seu dia de sorte. – Ary correu até seu caminhão e voltou com uns tubos e umas caixas. – eu estava mesmo precisando trocar meu radiador. Tenho um reserva bem aqui. - obrigado novamente, mas duvido que sirva de algo. - deixe-me tentar. O caminhoneiro agilmente entrou na nave e, com perguntas precisas, encontrou o gerador anti-matéria e o arrefecimento defeituoso. Sem parar de questionar sobre as peças e relês, desmontou uns trambolhos e enfiou o radiador que trouxera no meio de alguns tubos que identificou como responsáveis pelo problema. - pode dar a partida. – Gritou assim que apertou a última braçadeira. “Dar a partida...”, pensou o extra-terrestre com uma expressão irônica. O homem nem imaginava os protocolos seqüenciais de inicialização de uma nave espacial, como queria consertá-la com um simples radiador? Contudo, decidiu ligar a nave para mostrar que nada havia surtido efeito. Para sua surpresa, a gambiarra havia evitado o excesso de temperatura que impedia a geração necessária de energia para os motores de dobra. - não é “cem por cento”, mas deve agüentar até você parar numa oficina espacial. – Falou Ary, o rosto alegre meio sujo de graxa. O visitante estava desconcertado. Havia recebido ajuda de alguém que não considerava capaz de ajudá-lo. A boa-vontade do caminhoneiro salvara sua carga, além de evitar novos contatos com humanos que poderiam lhe criar problemas com a polícia galáctica. Seus sentimentos de superioridade estavam abalados. - obrigado. – Coçou novamente o tal membro auricular com vários buracos. – quero te pagar pelo... radiador. - bah, não se preocupe. Só de conhecer você já fico satisfeito. - mas eu insisto... Ary segurou o queixo e pensou um pouco. - sabe, uma foto contigo seria uma recompensa mais que satisfatória. E eu não mostraria para ninguém, é claro, por conta de todo aquele papo sobre espécies desenvolvidas... O alienígena concordou. Sabia que a raça humana era pródiga em produzir notícias falsas, mais uma de um “et” não seria surpresa. Ary fez a foto de ambos usando o “timer”, despediram-se e os caminhoneiros retornaram aos seus caminhos. Antes, porém, Ary baixou a foto em seu notebook no caminhão, numa pasta contendo dezenas de fotos suas com alienígenas. - esses sujeitos das estrelas são tão desconfiados...
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fin |
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