Nova piada velha

 

Butiquim pé-sujo, onde os ébrios todos filosofam sobre a beleza e a dificuldade de se viver neste mundão de meu deus. Ou conversam sobre mulher. E também sobre futebol e cerveja. Todos falam, ninguém se entende mas concordam entre si.

-A vida é bela, nós é que fode ela.

-Aquela tal Claudia é muito boa, ai se ela me desse mole.

-O melhor jogador no momento é o Aderivaldo, o centroavante do Futebol Club de Miracema do Sul. O único problema é que ele é gay, ninguém passa a bola.

-Essa nova fórmula da Skol está superando em consistência o sabor da Antártica. Está uma delícia.

-Só.

O jovem mais bêbado entre todos, que já nem tenta mais articular uma frase completa, levanta para ir ao banheiro. No meio do caminho desiste, a vontade não é tão forte. Decide partir.

-Vou partir.

-Embora a dor do parto seja grande, parta, meu jovem! Parta, pois a vida é uma eterna partida...- Divaga o Ceará, o único representante da classe dos garçons que concorda em ficar num bar servindo uma cerveja a cada meia hora às cinco e meia da manhã. Ele faz isso também pelo fato de adorar participar destes papos "cabeça".

-Ih, Ceará, quem fala que a maior dor do mundo é a dor do parto nunca tomou uma bolada no saco.- Retruca um.

-É isso ai.- Completa outro. -E a vida só é uma eterna partida se for é de futebol. Aliás, vocês viram o fluminense ontem?

-Fluminense é time de bicha!- Encerra o terceiro.

O jovem se vai. O crepúsculo notívago também. A fome atinge o estômago do solitário moço. Ele vasculha a mente a procura de uma lanchonete ou padaria nas redondezas para aplacar este mal que aflige também ao mundo. Nada. Somente o açougue da esquina já está aberto a esta hora, num domingo de manhã, para satisfazer os comedores de churrasco.

-Me dá um bife pré-frito aí, seu açougueiro.- Ele acha divertido chamar o açougueiro de açougueiro. Coloca uma impressão pejorativa no nome. Uma coisa quase assassina.

-Ora pois.- O açougueiro era português, claro. -As encomendas que fiz não me hão trazido ainda. Somente tenho para servir-te lingüiças.

-Então me embrulha uma. -Pede o jovem tirando umas notas amassadas do bolso.

-Vou ponhá-la num saco plástico para vós.

O jovem agradece e guarda a compra no único bolso do traje, o da calça. Se vira para partir novamente quando nota a entrada de uma exuberante mocréia no açougue. Como para bêbado não existe hora, local, razão e nem mulher feia, ele se lança rumo ao jogo de sedução.

-Olá, mas que surpresa encontrar alguém que combina tão bem com este ambiente. - Ele costumava mandar esta cantada quando estava em lugares sofisticados. Mas estava bêbado e nem se tocou.

-O que?- A mocréia, ou melhor, a senhora, era uma solteirona mais que feia, balzaquiana, com um corpo quase bem formado (largou no primeiro ano) e era loira natural. Loira é loira, ele poderia dizer para os amigos "catei uma loiraça na rua que nem te conto..." e não contar mesmo deixando todos com a curiosidade da dúvida.

-Você vem sempre aqui?- Olhar quarenta e três em ação.

-Aonde? Aqui no açougue?

-Sim, coração, neste lugar onde muitas coisas podem acontecer!

-Como é?- A coitada não estava entendendo nada.

-Porque eu nunca te encontrei antes?

-É a primeira vez que venho neste açougue.

-O destino nos une.

-Pra quê, para comprar carne moída para o almoço?

-Não, para que eu possa preencher este vazio que habita no seu coração, coração. -Pronto. Solteirona, feiosa e palavras românticas são uma combinação infalível.

-Fala mais.- A voz dela já estava rouca. -Meu bem.

-Quisera eu estar num lugar mais aconchegante para apreciar melhor esta bela mulher que existe em você, mas que está escondida...(dentro desta carcaça horrorosa).

-Vamos para o meu apartamento.- Ela catou o jovem pela mão e o arrastou rua afora.

-Senhora.- Gritou o português. -Não vais mais querer carne moída?

-Hoje vou comer bisteca.

Enquanto era carregado pela mulher na rua, o jovem ficou pensando. Bisteca! Era um bom apelido para o seu bimbo. Ele sempre achou que deveria apelidar o seu órgão genital, pois era inconcebível ter algo que não fosse íntimo tomando noventa por cento de suas decisões. Bisteca. Jóia. Vem saborear a minha bisteca.

Na porta do apartamento a mulher lascou um chupão na boca do jovem, colando o corpo ao seu. Sentiu a saliência da lingüiça no bolso e ficou toda animada. Dentro do apartamento começou a sugar a orelha o rapaz que, por sua vez, ficou todo animado. O sangue iniciou o irrigação dos vasos sangüíneos no músculo peninsular do baixo ventre. A mulher sentiu o crescimento que ocorria dentro da calça do parceiro. O problema é que a lingüiça estava dentro do bolso direito e o pinto do jovem era virado para o lado esquerdo, como todo pinto.

A balzaquiana não sabia se ficava assustada com aquela bifurcação física ou se chamava uma amiga para partilhar aquele dom divino. Ela era muito religiosa. O jovem decidiu que era melhor aliviar a pressão do joelho antes de consumar o ato, para não ocorrer imprevistos.

-Vou tirar uma agüinha do joelhinho, benzinho.

Ele entrou no banheiro, se posicionou em frente ao vaso e puxou a lingüiça para fora da calça. Olhou para o plástico que a envolvia.

-Beleza, já estou de camisinha.- Guardou a lingüiça, pois esqueceu que queria fazer xixi. Lavou o rosto na pia e voltou para a sala. A mulher o esperava fumando um cigarro. Ela esperou ele chegar bem perto e sussurrou ao seu ouvido:

-Vou comer você todinho.- Ela queria dizer que ia descabelar o palhaço dele, esconder o careca, sumir com o jubilão. Ele, porém, no estado depreciativo em que se encontrava, olhou diretamente para os olhos pequenos dela, para o cabelo emaranhado, para o nariz grande e pensou naquela voz grossa.

-Você parece um travesti..- Riu. -Você é muito escrota..- E lambeu o pescoço dela. Levou um chutão na barriga que o fez cair para trás, de bunda. -Que foi?

-Você me acha feia. -A pobre estava realmente magoada. -Só quer o meu corpo.

-Que já não é grande coisa, né.

-Está vendo.- Chorava. -Você não gosta de mim.

-É claro que gosto, o negócio é que o porre está passando e eu estou conseguindo enxergar melhor.

-Seu grosso.- A voz estava fina e fraca. Ela havia parado de chorar.

-Quê isso, meu bem. Você é que deve ser apertadinha.- Ele levantou e tentava abrir o zíper. A mulher se transformou numa onça. Deu puxões de cabelo, arranhões, cotoveladas, mordidas e o pior : joelhadas como só uma mulher ofendida sabe aplicar. Botou o rapaz porta fora e caiu no choro. Ele entrou no elevador , apertou o "S" de subsolo por engano e desmaiou.

Acordou na garagem do prédio, tudo escuro, apenas com umas lâmpadas iluminando os carros estacionados. Achou que ainda era noite e estava numa rua movimentada. Sentiu os hematomas pelo corpo e se examinou. Viu as mordidas e os arranhões e se lembrou, vagamente, que estivera no apartamento de uma loira.

-Eita capivara, devo ter deixado ela aleijada.

Sentiu uma dor no saco e decidiu dar uma conferida no Bisteca para ver se estava tudo em ordem. Bisteca, onde ele havia arrumado este apelido para o pinto? Botou novamente a lingüiça para fora das calças. Viu o plástico.

-É isso aí.- Parafraseou o Analista de Bagé. -Homem que é homem não usa camisinha. Plastifica.

Retirou o saco plástico e começou a urinar. Sentiu o molhado escorrendo pelas pernas.

-Ai meu deus, a mulher me rasgou o saco.

Andou para perto da luz e olhou a ponta.

-Rá, mas também, com a cabeça do pinto amarrada...

 

fin

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