Nascimento de um criminoso

Estava encostado na grade, sentado. Entrou um cara novo. Fortão, feio, com umas tatuagens. Entrou, olhou para todo mundo, procurou o menor entre nós e sentou-se ao seu lado.

- Tem um pito ai, malandro? - Um pé-de-chinelo perguntou.

O fortão não respondeu.

- Tem um cigarro ai, malandro? - Quem pedia agora era o Ricardo. - Num tá escutando não?

Ricardo era um mala das antigas. Bandido velho, ou melhor, velho para ser bandido. Uns quarenta e cinco anos, baixo, troncudo, mal-encarado. Tinha os cabelos queimados pelo sol, mesmo que só visse o sol através da janela da cela.

- Tu é surdo, ô filho da puta?

O fortão levantou e foi para cima do Ricardo. Este ficou em pé, sorrindo. O fortão parou na frente dele.

- Tenho cigarro. Não vou te dar. Por que? Vai encarar?

Ricardo continuou sorrindo.

- Vai dar sim.

O fortão deu um soco na boca de Ricardo e preparou-se para a luta. Ricardo limpou o sangue e veio até mim.

- Maurício, pergunta ai se já tá liberado.

- Pedro! - Gritei. - A delega já tá vazia? - Eram sete da noite. Normalmente a delegacia ficava vazia entre as seis e as nove. Nessa hora começavam a aparecer novamente os cidadãos reclamando de alguma coisa.

- Ainda não tá liberado, Mau. - Gritou o agente Pedro. Gente fina, honesto e correto. Entende a lei da bandidagem e nos deixa manter as regras.

- Você ouviu. - Eu disse para Ricardo.

- Ok.

A porta da detenção foi destrancada. Ouvimos pessoas entrando.

- Abre espaço ai, gentalha imprestável. - Era o Pedro trazendo outro preso. - Esse aqui é novo no pedaço mas parece que já é velho no crime. Né não, safadeza?

- Qué isso, Doutor. Sou do bem. - Era um magrelo, com jeans, sapato e camisa social. Era gente ruim, dava para ver, mas andava na beca.

- Então entra logo e não arruma confusão. Daqui ninguém foge! - Não entendi a recomendação de Pedro. Ele nunca conversava diretamente com os novos presos.

O magrelo entrou na cela. Foi direto para o centro. Tirou um maço de cigarros de cada bolso da camisa, o isqueiro da calça. Tirou os sapatos e as meias. Arrumou tudo num montinho no chão e dirigiu-se a um canto.

- Oi, moçada. Podem se servir. Os cigarros são pros fumantes.

- E os sapatos? - Perguntou um pé-de-chinelo qualquer.

- São pro dono.

Levantei-me. Eu era o dono. Dono de tudo que existisse naquelas celas. Eu comandava a tudo e todos. Peguei os cigarros e o isqueiro e joguei para o Ricardo. Ele os repartiria com justiça entre os presos. A justiça dava-se na medida da importância de cada preso. O pé-de-chinelo nem tinha o direito de reclamar. Peguei os sapatos e as meias e sentei-me ao lado do novo preso.

- Oi, capitão. - Ele disse.

- Shhh. Espere. - Respondi, olhando divertido para o Ricardo.

Escutamos o som da área de detenção sendo trancada. Ricardo se levantou, acendeu um cigarro, colocou-o na boca de um pé-de-chinelo e andou até o fortão.

- Quer um cigarro?

- Vá se foder, cara.

- Não dá.

A resposta foi tão imediata que todos olharam pro fortão, esperando-no perguntar.

- Não dá por que?

- Duro não dobra e mole não alcança.

As gargalhadas explodiram.

- E tem mais. - Todos silenciaram e esperaram Ricardo falar. - Quem vai se foder é você. - Acertou uma cabeçada no nariz do fortão. Foi tão ligeiro que nem eu vi direito. Os punhos de Ricardo martelavam a cara do sujeito com tanta rapidez que nem consegui contar quantos murros ele acertou antes do fortão desmaiar.

- Ricardo, calma. Não quero assustar meu amigo aqui. - Falei, olhando para o magrelo bem vestido.

- Relaxa, Mau, vou seguir o procedimento padrão. - Ricardo ainda acertou uns dois socos no nariz do sujeito. Levantou-o e com a ajuda dos outros presos retirou toda a roupa do fortão. Como todo fortão, ele tinha o pau pequeno. Acho que os fortes compensam nos músculos aquilo que não podem oferecer às mulheres. Ele botou o fortão de bruços no chão, pelado. Levantou as ancas do sujeito. Tirou o cigarro aceso da boca do pé-de-chinelo e o enfiou no cu do fortão.

- O cigarro tá na metade. Um pouco mais da metade. Deve queimar uns cinco minutos. Cinco minutos de sono. - Disse Ricardo, acendendo outro para si próprio.

Olhei para o magrelo.

- Onde você pegou cana?

- Sampa. Capital. Carandiru antes da demolição.

- Quanto?

- Bastante.

- Tipo?

- Sou do bem, nenhum crime contra os costumes. - Disse o magrelo. O cara era entendido. Sabia até os agrupamentos criminais. - Só 171, 121, 155, 157, 158, 129 e 210.

Procurei na cabeça e lembrei do 210.

- Violação de sepultura? - Disse, rindo.

- É, cara. Eu era novo, não tinha o que fazer...

- Violador, - Já apelidei o cara. - Dá uma sacada no fortão. Deve ter passado uns quatro minutos.

O nariz do fortão derramou uma pequena poça de sangue no meio da cela. Depois o faríamos lamber o sangue para limpar tudo corretamente. Pedro não gostava de sujeira na área de detenção. De repente, ele mexeu um braço. Abriu os olhos e ficou em pé num pulo. Bateu as mãos na bunda e as brasas voaram. Retirou a guimba de cigarro do próprio cu. Todos riram às pampas.

- Tome, calce seus sapatos. - Devolvi as coisas para o Violador.

- Obrigado, Capitão.

Para ele eu era o Capitão e para mim ele era o Violador. Já nos entendíamos.

A noite chegou. Ricardo fez o fortão lamber o próprio sangue. Nunca vi um cara tão grande ser tão chorão. Eu passava o tempo jogando par-ou-ímpar com os colegas da cela. As partidas eram no sistema "melhor de cinco". Quem ganhasse cinco rodadas primeiro era o vencedor. Fazíamos um campeonato. Na primeira fase, cada grupo jogava com todos entre si. Apenas os dois primeiros continuavam na segunda fase. Depois era mata-mata até o final. O vencedor ganhava um cigarro do Ricardo.

O Violador chamou-me e falou baixo ao meu ouvido.

- Já são meia noite?

Olhei para as estrelas. A lua não aparecia na janela.

- Deve ser por ai. Por que? Vai fugir?

Ouvi uma explosão na entrada da delegacia. Gritos e tiros. Uma invasão. Busquei com os olhos o fortão choramingando num canto. Fui até ele.

- Levanta, viado!

Coloquei o fortão na minha frente, entre mim e a porta da área de detenção. Em invasões era comum as balas perdidas acertarem os bandidos mais importantes. Na verdade os agentes miravam naqueles que eram os mais perigosos. Protegi-me. Chamei o Ricardo e o Magrelo para ficarem comigo. O fortão chorava.

- Porra, seu merda, pára de chorar. Por que você tá aqui? - Perguntei. Não era costume um bandido tão fresco.

- Eu peguei a filha da minha namorada.

Um estuprador? O que ele estava fazendo entre os presos comuns? Será que o Pedro queria que a gente desse uma coça no cara?

Alguém abriu a porta da detenção. Tiros voaram. Fumaça e berros confundiam a minha visão. De repente senti o corpo do estuprador ficando mole.

- Tá desmaiando, seu viado? Fica de pé! - Levantei o sujeito pelos cabelos.

Dois caras apareceram trazendo Pedro como refém. Eles gritavam e mandavam-no abrir a nossa cela.

- Violador, são seus amigos? - Perguntei.

- São.

Saímos da cela. Eu ainda segurava o fortão na minha frente. Peguei as chaves do Pedro e mandei o Ricardo abrir todas as celas. Quanto mais gente fugisse, mais difícil seria para nos acharem. Violador colocou um trinta e oito nas minhas mãos. Tirei todas as balas e o guardei no bolso. Segui o magrelo na saída da área de detenção.

- Ricardo, você já sabe pra onde deve ir. Eu apareço lá em dois dias.

Trazia o fortão comigo. Na entrada da delegacia, quase entrando no carro da quadrilha do magrelo, joguei o revólver para o fortão.

- Toma, cara, pra você não dizer que nunca te dei nada.

Ele pegou o revólver. Olhou para os lados e resolveu correr para o lado oposto do nosso carro. Ainda pude vê-lo ser advertido por uns agentes, mas ele correu e com a arma na mão. Vi as pistolas dos policiais cuspindo fogo. O fortão tombou. Quase posso jurar que o tiro certeiro foi dado pelo Pedro, que estava novamente livre e cumprindo sua missão como meganha.

- Quer ficar aonde? - Quis saber Violador.

- Pode me deixar no próximo super-mercado.

- Onde?

- Num mercado. Adoro mercados. Quero pegar um chocolate.

- Muito bem.

Antes de me desovar na frente do Pão-de-Açúcar, o magrelo me deu seu número de celular. Entrei no mercado sentindo o delicioso cheiro da liberdade. Ela se confunde com o prazer de peidar em público. Ninguém sabe ao certo quem é o pai da criança. Na cadeia, se alguém peidar, apanha até o cheiro sumir Procurei os chocolates. Guardei um Diplomata na cueca e passei pelos caixas. Lembrei a primeira vez que fiz isso. Tava com uns onze anos, no colégio. Assistia às aulas e até era bom aluno, principalmente em literatura e português. Adorava ler. Foi por isso que nunca fiquei louco na prisão. Lia sempre. Certo dia a professora de português foi substituída por uma moça, quase baixa e peituda. Simpatizei com a tia. Ela começou as aulas tratando-nos como imbecis. As aulas eram horríveis, chatas, sem exemplos. Pedi para a professora mudar a maneira de ensinar pois eu não estava entendendo.

- Eu dou uma boa aula, certo? - Perguntava ela. Como ninguém respondia, ela mesmo se dava a resposta. - Certo. Tenho boa didática, certo? - A gente nem sabia o que era didática. - Certo. Então você tem que entender do jeito que eu explico.

- Mas professora...

- Você tem que entender que eu sempre dei aula assim. É a melhor maneira.

- Mas professora...

- Nada de mas. Preste atenção. Pra mim fazer você entender português, tem que ser assim. Não tem outro jeito de ensinar.

Eu não acreditei nela. Inclusive achei que algo na maneira dela falar estava errada. Tentei completar o ano, mas reprovei em português. No dia que peguei a nota no colégio, fui a um mercado. Peguei um chocolate. Quando fui pagar no caixa, pensei na professora. Eu sabia que ela estava fazendo algo de errado com os alunos. Passei pelo caixa com o chocolate dentro da cueca. Senti-me mal e bem ao mesmo tempo, parecia que eu devolvia à sociedade aquilo que ela tirava de mim. Essa sensação me seguiria por toda a vida.

Fiz a recuperação nas férias. Com a mesma professora. Ela não melhorou nem facilitou as aulas. Fiz nova prova e reprovei novamente. Um professor muito querido, de História, contou-me que no conselho de classe todos os professores concordaram em me aprovar por menção honrosa, já que eu tinha tirado notas muito altas em todas as matérias, mas ela negou minha aprovação. Dizia que eu precisaria aprender português para a vida.

Aprendi o português das ruas. Sai do colégio no ano seguinte. Comecei a trabalhar, mas o dinheiro do meu trabalho não era o suficiente. Lembrei-me da sensação de roubar. Repeti o roubo do chocolate. Depois passei para coisas maiores e mais caras. Acostumei-me em sentir-me mal e bem ao mesmo tempo. Decidi cair de vez na vida bandida.

Hoje, quando roubo um banco, penso no dinheiro. Quando seqüestro, penso no dinheiro. Quando aplico golpes, penso no dinheiro. Sinto-me bem quando tudo dá certo. Contudo, nenhum crime me dá a mesma sensação de roubar um chocolate no supermercado. Fico mal e bem ao mesmo tempo. Sei que está errado, mas é como se eu retribuísse o mal que a professora de português me fez, não me ajudando na matéria nem tentando me fazer entender o que eu não entendia.

Abri o chocolate e o mordi. Pensei no próximo crime. Talvez eu ligasse para o magrelo para fazermos um seqüestro.

- Valeu, professora Regina Crispim. Sou o que sou graças a você. Sua vaca.

Dei outra mordida no chocolate imaginando se ela ainda estaria viva. Onde moraria? Talvez eu ainda faça uma visita a ela.

fin

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