Mui amiga
Existem situações que acho que só acontecem comigo. Vou esclarecer. Eu tenho uma amiga muito querida que conheço há mais de nove anos. Pode parecer pouco, mas em se contando que tenho vinte e três anos tipo B (claro que não admito que tenho vinte e quatro), isto representa mais de um terço da minha existência. Eu a conheci num baile, meio encharcado de bebida, e de início nos demos uns beijos. Ela não faz o meu gênero e eu muito menos o dela. Nos transformamos em amigos. Fizemos muitas coisas juntos. Estudamos no segundo grau na mesma sala, participamos do mesmo grupo de igreja, da mesma turma de passeios ecológicos, viajamos para vários lugares e saímos incontáveis vezes na noite para conversar e beber. Ela arrumou um namorado. O negócio com ele foi ficando sério e eu ainda não o conhecia. Passei quase dois anos escutando-a falar dele. De acordo com o que ela me contava, a minha impressão sobre o dito cujo não foi das melhores. Aliás, eu imaginava que o cara era um canalha. Certo dia, ela me procurou dizendo que ele havia ficado com outra garota. Triste, ela me chamou para sairmos e conversarmos. Batemos papo, ela desabafou. Me disse que ele merecia um troco na mesma moeda. Concordei, meio a contragosto, pois está nos Anais da Camaradagem Masculina que os homens devem se proteger mutuamente. Ela era mais minha amiga do que ele, que até então era simplesmente o namorado da minha amiga. Ela, então, decidiu traí-lo. Qual não foi minha surpresa quando eu a deixei em casa e ela me beijou nervosamente. Perguntei por que eu fora o escolhido para ser o chifre do Flavio (este era o nome do namorado dela). Ela me disse que não queria ficar com qualquer pessoa na rua e também estava sem paciência de procurar. Eu era a melhor escolha. Além do mais, segundo ela, o Flavio morria de ciúmes de mim pois ela vivia comentado sobre minha digníssima pessoa. O tempo passou, os problemas também. Ela estava novamente estabilizada com o namorado, depois que resolveram as divergências sobre terceiros dentro do relacionamento. Eu era um terceiro e a outra do Flavio também. Não me importei muito de ser considerado um terceiro, haja visto que já fui chamado de coisas piores. O que me causou certa preocupação foi ela ter contado para o tal namorado que havia ficado comigo a título de vingança. Eu não conhecia o cara e ele poderia ser violento. Nunca se deve possuir a mulher de um homem violento, a não ser que ele já esteja morto, numa cadeira de rodas ou de você ser mais violento ainda. Mais tempo passado, e havia muito que eu não via a minha amiga. Certa manhã ela ligou, me convidando para comparecer a festa de aniversário surpresa do seu namorado. Disse que era uma ótima oportunidade para conhecê-lo. Aceitei. Combinamos de nos encontrarmos num barzinho para que ela me levasse para a casa do Flávio. Foi nesse estágio dos acontecimentos que minha maligna sorte agiu contra mim. Como a festa para o tal namorado seria surpresa, era preciso tirar o sujeito de casa tempo suficiente para os preparativos serem ajustados. E foi o que fez um amigo dele. Ele o levou para um bar e ficaram conversando, relembrando antigas bagunças que fizeram. Em certo momento, Flávio quis voltar para casa, sob o pretexto de encontrar a namorada e fazer um pedido a ela. O amigo do Flávio, sem saber da história envolvendo os terceiros no relacionamento do amigo, inventou um motivo para mantê-lo fora de casa até a hora combinada. Falou que queria contar para o amigo sobre essa namorada que ele tanto gostava. Disse que, certa vez, havia encontrado ela em um ambiente propício a traições na companhia de um jovem bem-apessoado. Espionagem vai e vem, conseguiu vislumbrar a garota se derretendo nos braços do outro. Para o Flávio foi o caos! Além de terceiros, agora o relacionamento dele estava já em quartos. E ele imaginou que os quartos já não eram tão somente outras pessoas, como também lugares, no caso, propícios a traições. Perguntado sobre a aparência daquele que era o chifre, o amigo de Flávio descreveu, por coincidência, minha aparência. Que sorte a minha. Na realidade eu era um terceiro reincidente. Nesse ponto da história, eu estava no bar para me encontrar com minha amiga e nos dirigirmos ao local da festa. No ponto de encontro, o bar, esperei por muitos minutos, coisa que detesto. Ela apareceu muito atrasada e um tanto desgrenhada. Contou que o pneu de seu carro havia furado e nenhuma alma caridosa se dispôs a ajudá-la. Teve que trocar o pneu sozinha. Aliás, ela disse que achou a experiência interessantíssima, foi uma coisa meio rústica. Para descansar, ela pediu um chope e eu, para acompanhar, uma água tônica. Desiludido com a vida e chateado em relação às suas pretensões com a minha amiga, Flávio pensou no pedido que faria neste dia de seu aniversário à namorada. Ele iria pedi-la em casamento. O amigo de Flávio, vendo que a hora combinada se aproximava, resolveu levar o triste companheiro para casa, lugar onde a festa aconteceria e todas as histórias sobre infidelidade seriam desmentidas. Ao voltarem de carro para a casa do Flávio, passaram pelo bar em que eu e minha amiga estávamos. Flávio a avistou e me reconheceu, mesmo sem nunca ter me visto. Cada vez mais macambúzio, não disse nada ao amigo e voltou para casa. Eu e minha amiga tomamos rumo mais ou menos ao mesmo tempo, e todos chegamos na casa do Flávio quase simultaneamente, Flávio e amigo pela porta da frente e eu e minha amiga pela porta de trás. Parabéns a você.. e Vivas se sucederam no momento da chegada. A cantoria foi seguida de um Com quem será, com quem será, com quem será que o Flávio vai casar.... Para que o quiproquó fosse completo, minha sarcástica sorte agiu novamente e fez com que Flávio visse a namorada exatamente nesse momento. Ela estava acompanhada de um jovem bem-apessoado, nas características do rapaz que seu companheiro descreveu, igualzinho ao amigo que ela tanto falava e causava tantos ciúmes, o mesmo homem que ele viu na companhia de sua namorada num bar minutos antes. Esse infeliz era eu. Depois de esticar minha mão para cumprimentar Flávio pelo aniversário e receber um murro vindo de não sei onde, a história fica um pouco confusa para mim. Só lembro de tomar mais uns dois ou três cascudos, escutar uma confusão louca de gritos e xingamento, ver pessoas empurrando e correndo, sentir minha boca jorrando sangue e meu olho esquerdo fechando, ouvir minha amiga discutindo com o namorado e notar a dona da casa, mãe do Flávio, me trazendo gelo e apertando com certa raiva os locais machucados. Muitos momento depois tudo estava esclarecido. Todos se desculparam, mesmo que isso não fizesse minha dor passar. O pedido de casamento ficou para depois. Eu não fiquei tão impressionado com minha falta de sorte pois, como já disse, tenho muita sorte, só que ela não é nada saudável. Quando já conversávamos, bebíamos (eu passava o copo de cerveja gelada pelo rosto) e ríamos sobre o ocorrido, o Flávio me interpelou, às escondidas, e disse: -Que falta de sorte, hein! - É..., pensei eu. -Mas não se preocupe. Para me desculpar vou te apresentar uma garota aqui que é sensacional, eu tive um caso com ela quando já estava namorando. - É..., pensei eu, tanto barulho por nada.
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fin |
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