Malandro

 

O carro estava parado perto da portaria, mesmo assim Mário e Luciana foram abordados. O casal não teve reação ao ver os canos dos revólveres. Entraram no banco traseiro calmamente. Os bandidos começaram a rir assim que arrancaram.

- Perdeu, malandro. - Falou o parrudinho do banco do passageiro. - É nóis. Passa as carteiras e os celulares.

Entregaram o que pediram. Mário entregou o celular da empresa. Discou para mim do próprio aparelho e o largou debaixo do banco.

Eram três e quarenta e três da matina quando atendi. Escutei os murmúrios e logo entendi a situação. Era uma crise.

- Posso fazer uma pergunta? - Pediu Mário. O parrudinho avançou e acertou o rosto do refém com a coronha da arma.

- Calaboca, malandro. - Bateu as costas da mão na face da mulher. - Manda esse idiota calar a boca.

- Desculpa, desculpa. - Balbuciou o rapaz. - Vocês vão fazer a gente? - O motorista, um barrigudo de cabeça raspada, acelerou.

Eu escutava o diálogo com o telefone colado ao ouvido enquanto vestia as roupas. Pensava também nas armas que deveria levar. Conhecia bem o velho amigo e sabia que ele iria arrumar um jeito de me dar sua localização.

- É nóis, malandro. Antes vamos pegar tua mulher, depois a gente desova teus cadáveres no brejo pras cobras comerem tua bunda. - Gargalhadas.

- Então vou atochar um baseado de despedida. - Antes de qualquer reação, Mário puxou um camarão de maconha do bolso e se preparou para dichavar.

- Olha, Mello, o bacana é maluco. - Riu o parrudinho. O motorista sorriu e entrou numa estrada de terra.

- Hei. - Reclamou Mário. - Vai devagar.

O motorista desacelerou.

- Aqui é a Estrutural? - Perguntou. Eu já descia para a garagem. A moto estava abastecida.

A ação seria rápida contanto que eu pudesse manter a surpresa. Uma pistola 357 de quinze cargas era mais que suficiente. Até um revólver 38 de cinco cápsulas resolveria. Talvez fosse melhor uma arma de disparo rápido como uma 380. Levei apenas o 38 pois ele possuía mais poder de contenção. As outras armas perfuravam mas não derrubavam. Já vi morto dando tiro antes de cair. O tradicional três oitão, com um balaço que parecia um murro, jogava na hora o alvejado no chão.

- Para quê tu quer saber, malandro? - Perguntou o mala. - Termina logo esse baseado. - Mirou a pistola para Mário. Este, filho e irmão de policiais, notou que o cara mantinha o dedo no gatilho. Era amador e estava nervoso, achou melhor resignar-se.

- Para conhecer o local da minha morte. - Respondeu.

O motorista enfurnou o carro numa trilha escura, fora da estrada de chão.

- Acerta esse merda logo, Freitas. - Mandou o motorista.

- Mas e o baseado que ele tá fazendo? - Perguntou o parrudinho.

- A gente pega pra gente. - Olhou pelo espelho retrovisor. - Igual a mulher dele.

Luciana estava apavorada. Percebia que o marido tentava ganhar tempo. Sabia, contudo, que os parentes policiais pensariam que era outra confusão de Mário, a ovelha negra da família. Até se convencerem que havia perigo, o desfecho trágico já poderia ter ocorrido.

 - Eu fico muito excitada com maconha. - Sussurrou Luciana. Todos se surpreenderam, até o marido, mas logo viu que a mulher entrava no seu jogo.

- Já está quase pronto. - Lambeu a seda e fechou o cigarro. - Vou acender. - Ele tremia porém sua mente trabalhava à mil.

Tragou levemente e passou o baseado para o parrudinho.

- Olha, Mello, o bacana sabe apertar um baseado. É do bom. - Afirmou depois de prender a fumaça nos pulmões.

O motorista parou o carro e mandou todos saírem. Tragou longamente. Apontou o revólver para Mário, ia disparar. Luciana se jogou na frente.

- Se deixarem ele viver eu faço tudo que vocês quiserem.

- Já vai fazer mesmo, puta.

Eu tinha colado o celular no meu ouvido com fita adesiva. Corria de moto sem o capacete, não podia perder qualquer pista no diálogo. O celular de Mário ainda estava no carro e as vozes de fora estavam baixas e cortadas. Chegaria à estrutural em seis minutos. Era muito tempo, a crise estava no auge. E eu ainda não sabia exatamente o lugar.

 - Mas eu posso ser carinhosa. - A frase melosa era um pedido de misericórdia. O casal conhecia as informações sobre sequestros relâmpagos. Perceberam que seus algozes eram dois beneficiários do Saidão da Papuda. Naquele final de semana quase 30 presidiários puderam deixar a jaula por bom comportamento para visitar suas família. Assassinos e ladrões foram soltos com a anuência da Justiça. Luciana tentava entender que bom comportamento foi esse que apresentou o condenado pela lei. Como os bandidos não quiseram dinheiro nem cartões, deduziram que eles desejavam apenas saciar sua luxúria e sua sede de sangue. Estuprariam e matariam, depois voltariam à penitenciária mais relaxados.

- Malandro... tua mulher te ama mesmo. - O parrudinho acochambrou Luciana, que gemeu com o apertão no seio. - Vai levar muita pica para te livrar. Tu aguenta ouvir a trepada, malandro? - Sorriu com malícia.

O careca arrastou Mário para a porta-malas e o jogou lá dentro. Luciana entrou com Freitas no banco de trás. Ele arrancou as roupas com violência. Ela gemia e chorava, entretanto permitia as investidas do marginal. Ele tentou penetrá-la mas a secura da vagina o impediu. Apoiou o pé no chão para cuspir no pênis e umedecê-lo. Pisou no celular.

- Que é isso? - Olhou o marcador e viu que o aparelho estava ligado há mais de vinte minutos. - Olha essa merda, Mello. 

- Sabia que a gente devia ter matado logo o cara. - Resmungou o careca. Apertou o botão e o celular ficou mudo.

Eu já avistava a Vila Estrutural. Não imaginava, contudo, onde pudesse estar o casal. Retirei o aparelho da orelha e me levantei no banco. Busquei com os olhos algum farol de carro aceso nas saídas secundárias, perambulei pelo asfalto procurando uma trilha suspeita, alguma pista para me levar ao local do crime. Não achei nada. Àquela altura podiam já estar mortos.

Um clarão de luz abriu-se no meio do cerrado. O barulho de tiros foi substituído pelo forte zunido do helicóptero que apontava seus holofotes para um capão. Desliguei o farol da moto e observei de longe. Uns dez camburões do Bope chegavam ao ponto do foco de luz, seguidos por outra dezena de carros da polícia civil e da PM.

Fizeram um pequeno reboliço. Mantive-me abaixado na moto. Em minutos apagaram as luzes e partiram. O helicóptero voou silenciosamente sobre minha cabeça. Deixei transcorrer uns minutos e fui ao local da ação. Recolhi umas cápsulas de fuzil ainda quentes. Havia sangue. Alguém saíra ferido do confronto.

De manhã, meu telefone tocou. Era Mário.

- Cara, ontem à noite fui sequestrado. - Continuou num rompante, contando todo o caso com detalhes. - Consegui fazer uma ligação em teleconferência. Disquei para você e para outras pessoas. - Ah, pensei, então alguém mais escutou pelo telefone. Mário foi bem malandro, senão estaria morto. - Meu irmão localizou o sinal do meu celular na operadora e voou para o local. - O irmão era piloto de helicópteros da polícia. Usaram um gps localizador de telefonia móvel. Azar dos bandidos. - Um sujeito tentava estuprar a Luciana e outro puxava gasolina do tanque para me queimar dentro do porta-malas. Meu irmão apareceu nesta hora. A luz do helicóptero parecia o sol. Os bandidos nem reagiram. Meu irmão fuzilou os filhos da puta antes de me tiraram do porta-malas.

Assenti. Bastaria explicar que reagiram e cumprir, assim, a única justiça que os malandros compreendem. Disse que estava feliz por ele estar bem.

- O mais engraçado - continuou - foi que voltamos de helicóptero e vimos um sujeito agachado numa moto perto de onde estávamos. Ele estava sem capacete. Devia ser algum ladrãozinho. Meu irmão mandou um sinal pelo rádio para ativarem as barreiras na região.

Ah, pensei, então foi isso que alertou a polícia sobre um motoqueiro pela área. Tentei voltar para casa até o sol raiar, procurei diversas vias, mas estavam fechadas com barreiras por toda parte. Tive que esconder a moto no mato e pegar duas linhas de ônibus. Eu acabara de pisar em casa.

Não fui muito malandro ao esquecer de levar o capacete.

fin

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