Eu vou fazer pior

 

As ruas da cidade eram largas e retas, fazendo com que os motoristas excedessem o limite de velocidade. Era normal algum senhor vagaroso receber uma buzinada por estar cumprindo a lei e dirigindo dentro das regras. Os guardas de trânsito somente se faziam presentes quando era para receber uma propina ou para incomodar jovens casais namorando dentro dos carros em noites românticas.

O jovem motorista dirigia seu carrinho na raia do meio de uma via de três pistas. O limite estava sendo respeitado pois ele achava que os carros eram simples meios de condução, não brinquedos de crianças crescidas ou maquinários para uma competição automobilística. Fazia calor e o céu estava claro. Tranqüilo, pilotava com o braço esquerdo na janela e o rádio tocava uma musiquinha chata da moda.

De repente, uma buzina. O jovem, acostumado a receber buzinadas por estar andando devagar, nem ligou. Continuou seu caminho despreocupadamente. Outra buzinada. O jovem olhou pelo retrovisor e viu um carro francês, importado, todo equipado com aquelas parafernálias que costumavam enfeitar os carros dos amantes do motor. Mas continuou na mesma velocidade, na mesma posição. Mais uma buzinada.

-Que cara chato! - Pensou. -Por que esse mané não me ultrapassa logo e vai embora? - As pistas da direita e da esquerda estavam vazias. O buzinador podia ultrapassá-lo quando bem entendesse.

Outra buzinada, agora mais longa. O carro que buzinava acelerou o motor e ultrapassou o carro do jovem pela direita. Seu motorista, outro jovem, gesticulava nervoso e irritado. O rapaz do carro lento, lentamente, abriu a janela do banco do passageiro para escutar o que queria dizer seu nervoso companheiro de estradas. Porém, o elevado volume vindo do outro carro o impedia de escutar todo o conteúdo da mensagem. Ele apenas ouvia algumas palavras de baixo calão, que eram gritadas acima do volume do estéreo. A mensagem foi compreendida. O buzinador gritador estava reclamando por ele estar dirigindo devagar. E não estava sendo gentil.

Divertido, o jovem do carro lento fez cara de pavor, colocou os dedos nos dentes e tremeu de medo. Irônico, ria enquanto imitava alguém apavorado. O motorista do carro mais veloz ficou mais irritado ainda. Abaixou o som do carro e aumentou o som da voz, só não mudou o conteúdo grosseiro do seu discurso. Quanto mais ele gritava, mais mímicas de pavor fazia o outro motorista.

Alucinado de raiva, o motorista do carro com a buzina começou a jogar seu veículo em cima do automóvel do jovem que o sacaneava. Acelerou, gritou, jogou o carro, fez gestos com os dedos e ultrapassou o carro de seu desafeto. O jovem que divertia-se com a irritação infundada do nervoso motorista pensou com seu botão das calças: -Eu poderia continuar calmo e deixar ele ir embora irritado. Já o sacaneei bastante. Mas... não! Eu vou fazer pior.

Disfarçadamente, começou a alcançar o motorista do carro buzinador. Sem fazer alarde, quase emparelhou com o outro. Destravou a porta do passageiro, deixando-a fechada apenas pela pressão do ar. Pegou a tranca de prender a embreagem ao volante e encostou na maçaneta da porta. Acelerou mais um pouco e emparelhou, à esquerda, do carro do motorista criador de confusão. Não olhava para ele, como se não estivesse percebendo sua presença. Quando avistou uma curva para a esquerda, preparou o bote. Segurou a tranca, fez força e de supetão, abriu a porta da direita do seu carro. Ela bateu no carro do outro com violência, voltando a fechar-se completamente graças ao impulso contrário do vento. Freou bruscamente e com a mão esquerda girou o volante, entrando na curva que havia notado.

O motorista que buzinou escutou a porrada em seu carro, percebeu a artimanha do antes vagaroso motorista, mas não teve tempo de reagir. Quando pensou em fazer alguma coisa, viu que ele fugia por uma curva para a esquerda, já fora de seu alcance. Com ódio, parou no acostamento e foi conferir o estrago. E que estrago! Uma boa amassada na sua lateral e uma pequena descascada na pintura, grande o suficiente para obrigar o lanterneiro a pintar toda a peça. Tentando se restabelecer, imaginou se tinha amassado a porta do outro, mas entendeu que ela havia batido no seu carro exatamente na quina, onde tem o fecho da maçaneta. Ela devia estar intacta.

Feliz da vida, o vingado e vagaroso motorista somente teve o trabalho de modificar a rota de seu trajeto para chegar em seu objetivo. Tranqüilo, foi dirigindo calmamente na pista do meio.

 

***

 

Ele havia parado com seu carrinho numa suada vaga em frente ao bar. Feliz da vida por conseguir tão abençoado espaço, depois de três voltas ao entorno do lugar em que desejava encontrar os amigos para a santa cerveja do fim do dia. Entrou no bar, bebeu a sagrada cervejinha e encaminhou-se de volta ao carro para ir embora, ainda mais feliz.

Mas seu carro estava preso por outro. Um modelo italiano, limpo e bem cuidado. Pensou sobre o impressionante cuidado que certas pessoas dedicavam aos carros ser inversamente proporcional à própria educação. Calmamente, entrou no seu veículo e o ligou. Olhou para os lados e percebeu que ninguém estava de vigia, para vir desobstruir sua passagem. Deu uma leve buzinada. Nada. Outra buzinadinha. Nadinha. Mais uma buzinada. Absolutamente. Pronto, o que poderia ser um dia perfeito foi estragado por um idiota qualquer.

O coitado ficou mais de vinte minutos buzinando e berrando, para chamar a atenção do dono do carro. Finalmente apareceu uma dondoca, cheia de pose. Verdade seja dita, era bem atraente a distinta. Mas isso não seria atenuante no grave caso. E para piorar, a perua ainda reclamou com sua falta de paciência!

-Que mulher folgada! - Pensou. - Eu poderia xingá-la até a quinta geração e ir embora vingado mas ... não! Eu vou fazer pior.

Desculpou sua falta de sensibilidade com a mulher. Ela o perdoou, esnobemente. Ele ainda se atreveu a fazer alguns elogios à vestimenta curta e colada da dona. Ela adorou, como toda mulher adora elogios. Ela retirou o carro e foi embora. Ele foi atrás.

Descobriu onde a moça, não tão moça, aliás, morava. Anotou o endereço mentalmente e foi para casa. No outro dia, quando as lojas de ferragens já estavam abertas, comprou uns equipamentos e voltou à residência da senhora. Um elegante prédio de classe média alta. Com garagens, certamente, mas talvez esse fosse o segundo carro da mulher, pois ela o deixou estacionado em frente ao edifício na noite anterior, o mesmo local onde se encontrava agora.

Calmamente, ele passou uma grossa corrente por entre os eixos da roda esquerda traseira e em volta da barra do amortecedor, travando completamente qualquer movimento. Repetiu a ação com as outras três rodas.

Entrou em seu carro e foi espreitar a situação a seguros duzentos metros do veículo da madame. Esperou muito mais do que havia feito no dia anterior. A mulher só foi sair de casa duas horas depois da amarração de correntes. Ela chegou em seu carro e, sem desconfiar, tentou dar marcha ré. O carro estava travado. Ela saiu do carro para ver o que se passava. Fez cara de quem não acredita no que vê. Estava ainda parada atônita olhando para as rodas de seu automóvel italiano quando um homem passou por ela, em um carrinho sem graça, exibindo um chaveiro com quatro chaves de cadeados e um sorrizinho perverso.

 

fin

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